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Resenha: Anglagard - Viljans Öga (2012)

Por: Tiago Meneses

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Um dos álbuns de rock progressivo definitivos da era mais moderna do gênero.
5
06/12/2018

Existe apenas uma lamentação minha em relação a banda Anglagard que é o fato de que hoje, vinte quatro anos depois de terem lançado o seu disco de estreia, eles só tenham criado mais dois álbuns, sendo Viljans Öga o terceiro deles e lançado no ano de 2012. Como é de costume da banda, são através de ritmos e arremessos de notas complexas e ideias excêntricas que eles criam harmonias arrepiantes e emocionantes, principalmente pelos ataques de teclado, guitarra e ideias soberbas de flauta, que podem nos levar inclusive a um universo onírico. 

Voltando ao fato de terem demorado tanto por esse disco. Quando uma banda entra em um longo período sabático depois de dois excelentes álbuns, seus primeiros lançamentos se tornam uma espécie de lenda que ninguém acredita que possa ser recriada, mas quando a mesma banda anuncia uma reunião depois de quase duas décadas, os fãs certamente vão esperar algo como mais do mesmo. Bom, Viljans Öga não é Hybris, não soa parecido ou vai pegar o público de surpresa como aconteceu em sua estreia, mas a qualidade e a beleza que fizeram do Anglagard o ícone dos anos 90 ainda está lá, certamente menos ingênuo e ousado (os músicos amadureceram), mas a coisa mais importante a ser levada em consideração é que a magia ainda está lá.

Nos anos 90, o Anglagard era uma banda ousada, eles assumiam todos os riscos existentes, saltavam na piscina antes de verificar se havia água nela porque estavam na adolescência ou nos vinte anos, hoje têm trinta e poucos anos e parecem parar pra pensar mais sobre qual será seu próximo passo, mas o estilo é o mesmo, as dissonâncias inspiradas no King Crimson ainda me surpreendem e suas melodias ainda são capazes de remeter o ouvinte as tardes escuras e frias da Escandinávia, eles são a mesma banda, mas eles cresceram, e isso é bom. 

A banda já mostra uma sonoridade vintage e predominantemente gloriosa logo na faixa de abertura do disco, “ Ur vilande”. Possui uma flauta que é uma das marcas registradas da banda sendo executada brilhantemente. A bateria como sempre é coisa de mestre, as linhas de baixo riquíssimas, piano, sintetizadores e mellotrons encorpam maravilhosamente bem a faixa e a guitarra é de uma fluência deliciosa. Em um breve resumo o instrumental é demorado, em alguns momentos meio sombrios, apresentando alguns incríveis acréscimos de guitarra e bateria. É um começo maravilhoso para o álbum e a promessa de uma obra de arte está surgindo desde o início. Mostrando que o Anglagard estão definitivamente de volta. 

“Sorgmantel” tem seu início através de uma belíssima flauta sobre uns sinos que parecem sair de uma caixa musical. Então o piano e instrumentos de sopro também começam a colorir a paisagem musical, o baixo ganha um papel sobressalente, toques de teclados ajudam a dominar a faixa, isso seguido por um novo tempo de flauta e alguns toque de guitarra que adornam bem a música. A banda nesse momento está bastante precisa, sabendo exatamente quando parar ou começar momentos mais vertiginosos, sendo qualquer um dos momentos uma verdadeira delícia para os ouvidos. A música se “parte” para permitir que os músicos mostrem seu ofício de maneira individual, o solo de flauta de Anna soa sobre as ondas do teclado de Johnson, o baixo de Brand salta para dentro e para fora da bateria de Olsson. A bateria de Olsson, por sinal, é uma celebração do caos, e eles dirigem a música junto com uma paixão inédita. 

“Snårdom” é uma instrumental (obviamente, já que todo o álbum é assim) simplesmente delirante. O  trabalho de flauta é sublime e a maneira como ela se inter-relaciona com a guitarra é algo mágico. Há toneladas de passagens intrincadas e várias e diferentes assinaturas de tempo para se divertir. Tem um ritmo de estilo King Crimson e algumas explosões de sax inegavelmente eficazes, criando com isso um belo caos musical. A linha de baixo é incrível e a forma como a batida muda quase à vontade enquanto a guitarra e a flauta competem pelos holofotes é um verdadeiro golpe de gênio.  Então que na música estabelece-se um cenário de sonhos através do som da flauta, piano e vibrações acústicas que me embalam em um estado de felicidade, quase ao ponto das lágrimas, e se transforma de volta em uma melodia assombrosa e ascende à estratosfera com trabalhos de trastes agudos e curvas contínuas de cordas. Não há nada melhor que isso. Eu já cheguei a estar literalmente viciado nessa música, pois realmente é uma obra prima do rock progressivo e um regresso aos gloriosos anos 70 em todos os aspectos.

O disco finaliza com “Längtans Klocka”. Começa de maneira bastante calma através de um piano e um zumbido sinistro. Então que entra uma flauta como se fizesse parte de uma comunicação divina, tamanho o seu requinte, a atmosfera se constrói com uma frase de guitarra que é brilhante. De maneira eventual a guitarra pratica alguns ataques mais pesados em tempos mais irregulares. Baixo e bateria são incríveis e levam a uma passagem de xilofone e saxofone tocados em padrões métricos um tanto estranhos e intrincados. A complexidade desse som é algo realmente surpreendente e logo leva a um segmento de guitarra melódica tocada junto com a flauta, até que um ritmo mais lento permite que a flauta flua sobre a música de maneira doce. Um destaque também fica  por conta de quando guitarra e mellotron absorvem a atmosfera antes de um verdadeiro surto musical que ocorre. Termina com um tema circense semelhantes ao encontrado no seu primeiro disco, Hybris, tendo inclusive algumas entonações vocais pra acentuar mais ainda a atmosfera do momento. Isso inclusive é bastante esquisito, porém, delirante e provando que se tem uma banda que sabe fazer um tipo de música imprevisível, essa banda se chama Anglagard.

Ás vezes é até difícil de acreditar que Viljans Oga é tão bom quanto Hybris, mas sim, o Anglagard conseguiu depois de vinte anos fazer algo incrível de novo. A dinâmica da música é no mínimo extraordinária. Quando ouvi esse álbum pela primeira vez eu admito tranquilamente que eu não achava que isso corresponderia à magistral obra de 1992, Hybris, já que isso é uma tarefa difícil. Eu estava errado em todos os aspectos. Esta é uma obra-prima genuína e um dos álbuns progressivos definitivos da era mais moderna do gênero. 

Um dos álbuns de rock progressivo definitivos da era mais moderna do gênero.
5
06/12/2018

Existe apenas uma lamentação minha em relação a banda Anglagard que é o fato de que hoje, vinte quatro anos depois de terem lançado o seu disco de estreia, eles só tenham criado mais dois álbuns, sendo Viljans Öga o terceiro deles e lançado no ano de 2012. Como é de costume da banda, são através de ritmos e arremessos de notas complexas e ideias excêntricas que eles criam harmonias arrepiantes e emocionantes, principalmente pelos ataques de teclado, guitarra e ideias soberbas de flauta, que podem nos levar inclusive a um universo onírico. 

Voltando ao fato de terem demorado tanto por esse disco. Quando uma banda entra em um longo período sabático depois de dois excelentes álbuns, seus primeiros lançamentos se tornam uma espécie de lenda que ninguém acredita que possa ser recriada, mas quando a mesma banda anuncia uma reunião depois de quase duas décadas, os fãs certamente vão esperar algo como mais do mesmo. Bom, Viljans Öga não é Hybris, não soa parecido ou vai pegar o público de surpresa como aconteceu em sua estreia, mas a qualidade e a beleza que fizeram do Anglagard o ícone dos anos 90 ainda está lá, certamente menos ingênuo e ousado (os músicos amadureceram), mas a coisa mais importante a ser levada em consideração é que a magia ainda está lá.

Nos anos 90, o Anglagard era uma banda ousada, eles assumiam todos os riscos existentes, saltavam na piscina antes de verificar se havia água nela porque estavam na adolescência ou nos vinte anos, hoje têm trinta e poucos anos e parecem parar pra pensar mais sobre qual será seu próximo passo, mas o estilo é o mesmo, as dissonâncias inspiradas no King Crimson ainda me surpreendem e suas melodias ainda são capazes de remeter o ouvinte as tardes escuras e frias da Escandinávia, eles são a mesma banda, mas eles cresceram, e isso é bom. 

A banda já mostra uma sonoridade vintage e predominantemente gloriosa logo na faixa de abertura do disco, “ Ur vilande”. Possui uma flauta que é uma das marcas registradas da banda sendo executada brilhantemente. A bateria como sempre é coisa de mestre, as linhas de baixo riquíssimas, piano, sintetizadores e mellotrons encorpam maravilhosamente bem a faixa e a guitarra é de uma fluência deliciosa. Em um breve resumo o instrumental é demorado, em alguns momentos meio sombrios, apresentando alguns incríveis acréscimos de guitarra e bateria. É um começo maravilhoso para o álbum e a promessa de uma obra de arte está surgindo desde o início. Mostrando que o Anglagard estão definitivamente de volta. 

“Sorgmantel” tem seu início através de uma belíssima flauta sobre uns sinos que parecem sair de uma caixa musical. Então o piano e instrumentos de sopro também começam a colorir a paisagem musical, o baixo ganha um papel sobressalente, toques de teclados ajudam a dominar a faixa, isso seguido por um novo tempo de flauta e alguns toque de guitarra que adornam bem a música. A banda nesse momento está bastante precisa, sabendo exatamente quando parar ou começar momentos mais vertiginosos, sendo qualquer um dos momentos uma verdadeira delícia para os ouvidos. A música se “parte” para permitir que os músicos mostrem seu ofício de maneira individual, o solo de flauta de Anna soa sobre as ondas do teclado de Johnson, o baixo de Brand salta para dentro e para fora da bateria de Olsson. A bateria de Olsson, por sinal, é uma celebração do caos, e eles dirigem a música junto com uma paixão inédita. 

“Snårdom” é uma instrumental (obviamente, já que todo o álbum é assim) simplesmente delirante. O  trabalho de flauta é sublime e a maneira como ela se inter-relaciona com a guitarra é algo mágico. Há toneladas de passagens intrincadas e várias e diferentes assinaturas de tempo para se divertir. Tem um ritmo de estilo King Crimson e algumas explosões de sax inegavelmente eficazes, criando com isso um belo caos musical. A linha de baixo é incrível e a forma como a batida muda quase à vontade enquanto a guitarra e a flauta competem pelos holofotes é um verdadeiro golpe de gênio.  Então que na música estabelece-se um cenário de sonhos através do som da flauta, piano e vibrações acústicas que me embalam em um estado de felicidade, quase ao ponto das lágrimas, e se transforma de volta em uma melodia assombrosa e ascende à estratosfera com trabalhos de trastes agudos e curvas contínuas de cordas. Não há nada melhor que isso. Eu já cheguei a estar literalmente viciado nessa música, pois realmente é uma obra prima do rock progressivo e um regresso aos gloriosos anos 70 em todos os aspectos.

O disco finaliza com “Längtans Klocka”. Começa de maneira bastante calma através de um piano e um zumbido sinistro. Então que entra uma flauta como se fizesse parte de uma comunicação divina, tamanho o seu requinte, a atmosfera se constrói com uma frase de guitarra que é brilhante. De maneira eventual a guitarra pratica alguns ataques mais pesados em tempos mais irregulares. Baixo e bateria são incríveis e levam a uma passagem de xilofone e saxofone tocados em padrões métricos um tanto estranhos e intrincados. A complexidade desse som é algo realmente surpreendente e logo leva a um segmento de guitarra melódica tocada junto com a flauta, até que um ritmo mais lento permite que a flauta flua sobre a música de maneira doce. Um destaque também fica  por conta de quando guitarra e mellotron absorvem a atmosfera antes de um verdadeiro surto musical que ocorre. Termina com um tema circense semelhantes ao encontrado no seu primeiro disco, Hybris, tendo inclusive algumas entonações vocais pra acentuar mais ainda a atmosfera do momento. Isso inclusive é bastante esquisito, porém, delirante e provando que se tem uma banda que sabe fazer um tipo de música imprevisível, essa banda se chama Anglagard.

Ás vezes é até difícil de acreditar que Viljans Oga é tão bom quanto Hybris, mas sim, o Anglagard conseguiu depois de vinte anos fazer algo incrível de novo. A dinâmica da música é no mínimo extraordinária. Quando ouvi esse álbum pela primeira vez eu admito tranquilamente que eu não achava que isso corresponderia à magistral obra de 1992, Hybris, já que isso é uma tarefa difícil. Eu estava errado em todos os aspectos. Esta é uma obra-prima genuína e um dos álbuns progressivos definitivos da era mais moderna do gênero. 

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