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Resenha: Camel - Harbour Of Tears (1996)

Por: Tiago Meneses

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Album Cover
Músicas sutis, suaves e até mesmo inofensivas, mas muito bem customizadas.
3.5
03/08/2018

Mais um disco do Camel muito bom e que tem a sua qualidade alavancada através de um conceito forte e emocionante que casa muito bem com a musicalidade da banda. Pra entender um pouco melhor a história, voltemos para a Irlanda do período mais ou menos de 1845 – 1850, época nebulosa do país conhecida também como “A Grande Fome”. O disco tem como fio condutor esse pequeno pedaço da história mundial. A história de uma família irlandesa que está sendo separada dolorosamente pela partida dos mais jovens para Estados Unidos e Canadá em busca de uma vida melhor. O nome do álbum é uma alusão ao porto de águas profundas localizado na cidade de Cóbh e que servia de local de partida dos navios que levavam essas pessoas, protagonizando uma cena bastante triste e com isso sendo chamado de Harbour of Tears (nome do disco) e que traduzindo é Porto das Lágrimas. As letras são escritas principalmente pela esposa de Latimer, Susan Hoover. Não tenho exatamente isso confirmado, mas a ideia de Latimer para o disco parece que foi baseada na história de seus antepassados que foram imigrantes irlandeses dessa época.

"Irish Air" dá início ao disco com uma música tradicional gaélica sendo cantada a capela por Mae Mckenna. Uma voz levemente ofegante e agradável muito bem moldada em uma melodia de rara beleza e que parece a trilha certa para quem olha um horizonte sem fim. “Irish Air (Instrumental Reprise)” quebra o silêncio com a introdução de violão e flauta em um arranjo cheio de graciosidade antes de a guitarra repetir a linha vocal da faixa inicial. Já no começo do disco estamos diante da sonoridade que é uma marca registrada da banda desde o seu debut. 

“Harbour Of Tears” apresenta pela primeira vez os vocais de Latimer e que canta em tom de quem se despede do “Porto das Lágrimas”. Acompanhado de um singelo e bonito piano e violoncelo, possui também um backing vocal que devo confessar que me soa um pouco intrusivo. A linha de guitarra começa com uma imitação de gaivota e segue de forma encantadora, onde parece mostrar um instrumento que derrama lágrimas. "Cóbh" mantem o clima perfeito criado na música anterior com belíssimas texturas que produzem um ambiente orquestral que a liga à próxima faixa. 

“Send Home The Slates” representa uma carta escrita por um imigrante e enviada a sua mãe contando que apesar das dificuldades apresentadas na viagem, seja pelo mar ou por terra, o resultado vale a pena e ele nunca mandará cartas vazias, ou seja, sem um bom e animador conteúdo. Um ritmo mecânico sugere certa monotonia ao mesmo tempo em que constrói bem uma tensão enquanto o vocal meio melodramático se desenrola sobre pinceladas orquestrais. Latimer então solta mão na guitarra em mais um som brilhante e lembrando o abordado pelo grupo nos anos 80. “Under The Moon” apresenta uma guitarra belíssima de linhas simples e entrelaçadas que faz com que ela não soe apenas como uma música, mas um lamento, o clima de fundo criado pelo teclado é a cama perfeita para confortá-la. 
 
“Watching The Bobbins” apresenta uma mudança de direção bastante surpreendente no disco e a produção da bateria em relação ao efeito que o álbum vinha trazendo até o momento, parece “estraga-lo” um pouco. Por outro lado, essa mesma produção consegue transmitir bastante clareza na sonoridade e fazendo o ouvinte perceber infinitos detalhes que a música apresenta. Boa instrumentação e que se desenvolve muito bem, apresentando complexidade nas texturas e criando um ambiente muito bom principalmente através da guitarra de Latimer sempre cheia de sentimento. “Generations” mantem um clima ambiente em uma linha sinfônica fornecendo um link intrigante para a faixa seguinte. 

“Eyes of Ireland” traz novamente um clima celta ao disco. Um olhar nostálgico e melancólico para trás. O violão acompanhado com sutis linhas de teclados ao fundo dá ao ouvinte uma sensação que eleva o espírito, a guitarra então “chora” e a música se edifica. “Running From Paradise” começa em um estilo extremamente sinfônico. Tudo parece tão cuidadosamente elaborado, flauta, piano, sintetizadores, guitarra, enfim, acho que essa música possui um dos mais belos arranjos entre toda a carreira da banda. 

“End of the Day” marca uma questão de transição necessária e significativa no disco, nos preparando para o que vem a seguir. Vocal delicado, lindas notas de violão e guitarra, flauta encharcada de sentimento, tudo isso junto a transforma em uma peça belíssima. “Coming Of Age” possui arranjos praticamente todo orquestral. A guitarra de Latimer serve como uma espécie de diretor dessa orquestra. Os teclados definem uma parte da música a ajudando criar um clima mais obscuro. Com o retorno das guitarras o som fica mais “aberto” novamente. Na parte mais próxima do fim a sonoridade vai ficando mais complexa.

O disco chega ao fim com “The Hour Candle”. A faixa começa no mesmo ritmo que a anterior, a guitarra rapidamente acrescenta um corpo ao som como quem “alerta” sobre a chegada de uma obra prima. Certamente uma das músicas de mais inspiração de Latimer em toda a sua carreira, uma espécie de aceno à “Ice”, mas pra mim, feito de um degrau acima. Arranjos orquestrais de primeira grandeza sob um trabalho de guitarra glorioso. Difícil definir em palavras uma música que nos causa tantas sensações. Apesar de no disco estar marcando como uma faixa de cerca de vinte e três minutos, apenas oito deles são musicais de fato, sendo o restante a reprodução dos sons de ondas. Um disco com final ao som daquilo que mais pode trazer paz a alguém. 

Talvez não seja um disco que abrace o ouvinte logo de cara como alguns dos seus trabalhos de outrora, porém, a magia da banda funciona bem e ela tende a crescer conforme vai aumentando o número de audições. Uma coleção de músicas sutis, suaves e até mesmo inofensivas, mas muito bem customizadas.

Músicas sutis, suaves e até mesmo inofensivas, mas muito bem customizadas.
3.5
03/08/2018

Mais um disco do Camel muito bom e que tem a sua qualidade alavancada através de um conceito forte e emocionante que casa muito bem com a musicalidade da banda. Pra entender um pouco melhor a história, voltemos para a Irlanda do período mais ou menos de 1845 – 1850, época nebulosa do país conhecida também como “A Grande Fome”. O disco tem como fio condutor esse pequeno pedaço da história mundial. A história de uma família irlandesa que está sendo separada dolorosamente pela partida dos mais jovens para Estados Unidos e Canadá em busca de uma vida melhor. O nome do álbum é uma alusão ao porto de águas profundas localizado na cidade de Cóbh e que servia de local de partida dos navios que levavam essas pessoas, protagonizando uma cena bastante triste e com isso sendo chamado de Harbour of Tears (nome do disco) e que traduzindo é Porto das Lágrimas. As letras são escritas principalmente pela esposa de Latimer, Susan Hoover. Não tenho exatamente isso confirmado, mas a ideia de Latimer para o disco parece que foi baseada na história de seus antepassados que foram imigrantes irlandeses dessa época.

"Irish Air" dá início ao disco com uma música tradicional gaélica sendo cantada a capela por Mae Mckenna. Uma voz levemente ofegante e agradável muito bem moldada em uma melodia de rara beleza e que parece a trilha certa para quem olha um horizonte sem fim. “Irish Air (Instrumental Reprise)” quebra o silêncio com a introdução de violão e flauta em um arranjo cheio de graciosidade antes de a guitarra repetir a linha vocal da faixa inicial. Já no começo do disco estamos diante da sonoridade que é uma marca registrada da banda desde o seu debut. 

“Harbour Of Tears” apresenta pela primeira vez os vocais de Latimer e que canta em tom de quem se despede do “Porto das Lágrimas”. Acompanhado de um singelo e bonito piano e violoncelo, possui também um backing vocal que devo confessar que me soa um pouco intrusivo. A linha de guitarra começa com uma imitação de gaivota e segue de forma encantadora, onde parece mostrar um instrumento que derrama lágrimas. "Cóbh" mantem o clima perfeito criado na música anterior com belíssimas texturas que produzem um ambiente orquestral que a liga à próxima faixa. 

“Send Home The Slates” representa uma carta escrita por um imigrante e enviada a sua mãe contando que apesar das dificuldades apresentadas na viagem, seja pelo mar ou por terra, o resultado vale a pena e ele nunca mandará cartas vazias, ou seja, sem um bom e animador conteúdo. Um ritmo mecânico sugere certa monotonia ao mesmo tempo em que constrói bem uma tensão enquanto o vocal meio melodramático se desenrola sobre pinceladas orquestrais. Latimer então solta mão na guitarra em mais um som brilhante e lembrando o abordado pelo grupo nos anos 80. “Under The Moon” apresenta uma guitarra belíssima de linhas simples e entrelaçadas que faz com que ela não soe apenas como uma música, mas um lamento, o clima de fundo criado pelo teclado é a cama perfeita para confortá-la. 
 
“Watching The Bobbins” apresenta uma mudança de direção bastante surpreendente no disco e a produção da bateria em relação ao efeito que o álbum vinha trazendo até o momento, parece “estraga-lo” um pouco. Por outro lado, essa mesma produção consegue transmitir bastante clareza na sonoridade e fazendo o ouvinte perceber infinitos detalhes que a música apresenta. Boa instrumentação e que se desenvolve muito bem, apresentando complexidade nas texturas e criando um ambiente muito bom principalmente através da guitarra de Latimer sempre cheia de sentimento. “Generations” mantem um clima ambiente em uma linha sinfônica fornecendo um link intrigante para a faixa seguinte. 

“Eyes of Ireland” traz novamente um clima celta ao disco. Um olhar nostálgico e melancólico para trás. O violão acompanhado com sutis linhas de teclados ao fundo dá ao ouvinte uma sensação que eleva o espírito, a guitarra então “chora” e a música se edifica. “Running From Paradise” começa em um estilo extremamente sinfônico. Tudo parece tão cuidadosamente elaborado, flauta, piano, sintetizadores, guitarra, enfim, acho que essa música possui um dos mais belos arranjos entre toda a carreira da banda. 

“End of the Day” marca uma questão de transição necessária e significativa no disco, nos preparando para o que vem a seguir. Vocal delicado, lindas notas de violão e guitarra, flauta encharcada de sentimento, tudo isso junto a transforma em uma peça belíssima. “Coming Of Age” possui arranjos praticamente todo orquestral. A guitarra de Latimer serve como uma espécie de diretor dessa orquestra. Os teclados definem uma parte da música a ajudando criar um clima mais obscuro. Com o retorno das guitarras o som fica mais “aberto” novamente. Na parte mais próxima do fim a sonoridade vai ficando mais complexa.

O disco chega ao fim com “The Hour Candle”. A faixa começa no mesmo ritmo que a anterior, a guitarra rapidamente acrescenta um corpo ao som como quem “alerta” sobre a chegada de uma obra prima. Certamente uma das músicas de mais inspiração de Latimer em toda a sua carreira, uma espécie de aceno à “Ice”, mas pra mim, feito de um degrau acima. Arranjos orquestrais de primeira grandeza sob um trabalho de guitarra glorioso. Difícil definir em palavras uma música que nos causa tantas sensações. Apesar de no disco estar marcando como uma faixa de cerca de vinte e três minutos, apenas oito deles são musicais de fato, sendo o restante a reprodução dos sons de ondas. Um disco com final ao som daquilo que mais pode trazer paz a alguém. 

Talvez não seja um disco que abrace o ouvinte logo de cara como alguns dos seus trabalhos de outrora, porém, a magia da banda funciona bem e ela tende a crescer conforme vai aumentando o número de audições. Uma coleção de músicas sutis, suaves e até mesmo inofensivas, mas muito bem customizadas.

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