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Resenha: Camel - Nude (1981)

Por: Tiago Meneses

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Nude é uma jornada muito boa e edificante através de momentos graciosos
3.5
05/06/2018

Eis um disco do Camel que eu passei a admirar bastante com o tempo. O seu nome em nada tem a ver com nudez como pode vir a parecer. Esse Nude na verdade é o nome de um soldado japonês e personagem central deste disco conceitual. O disco gira em torno desse soldado japonês que foi esquecido pelos seus companheiros em uma ilha deserta, chegando a ser dado inclusive como morto, permanecendo no mesmo local quase trinta anos “defendendo” um pedaço do Império sem saber que a guerra já havia acabado a muito tempo. Mesmo quando foi encontrado por alguns estudantes japoneses, se recusou a abaixar as armas caso a ordem não viesse através de um dos seus superiores. Porém, logo depois de ser resgatado tantos anos depois de ficar isolado em uma ilha, ele não conseguia mais se adaptar com a vida moderna que a essa altura era bem diferente daquela que ele vivia em seu momento pré guerra, preferindo ficar isolado de novo. E é exatamente isso que o disco vai descrevendo muito bem em cada uma de suas músicas. Como curiosidade, foi a esposa de Andy Latimer que desenvolveu o conceito para o álbum e escreveu todas as letras, exceto “Please Come Home” que foi escrita por Latimer. Outra curiosidade é que se trata de uma história real baseada na vida do ex combatente de guerra Hiroo Onada (1922 – 2014).

O disco começa com “City Life”, música que descreve passo a passo desde a vida pré-guerra do soldado. Apresenta influências perceptíveis em Alan Parsons Project. A superfície musical é bastante suave e deliciosa de ouvir. Também possui um solo de saxofone feito por Mel Collins que devo confessar que a princípio não havia me agradado, mas hoje já o vejo como um excelente complemento pra música.  

“Nude” é a faixa seguinte, apenas um interlúdio, mas em seguida temos, “Drafted”, música que representa o seu destacamento para o exército, onde o dilema existencial do nosso protagonista é resolvido por um aviso preliminar, se ele vai se importar em carregar um rifle ou não. Na verdade ele é um relutante a aspirante a assassino, porém, percebe que não está diante de uma escolha e aprende a viver sem remorso pelos seus feitos sejam eles quais forem. A melodia segue suave até que a entrada “atrasada” da bateria de Andy Ward permite que a música capte o fluxo de boas-vindas. 

“Docks” tem uma linha bem ao estilo Pink Floyd, música muito bem construída e de uma dinâmica forte. Apesar de discreto, o trabalho de guitarra Latimer como sempre é gracioso e ao mesmo tempo sensacional. "Beached" é a música que representa o momento que foi deixado para trás, possui uma levada mais rápida, teclados de muito bom gosto e algumas linhas de baterias bastante intrincadas. Não é necessariamente um momento espetacular na carreira da banda, mas mantém o ouvinte envolvido para que continue com o interesse pelo que está por vir. 

“Landscapes” e a faixa seguinte que representam a sua vida na ilha. É uma linda peça etérea, um teclado profundo e reverberante que envolve a suave melodia de flauta como uma auréola, infelizmente tem menos de três minutos, eu poderia viajar facilmente em sua melodia por mais de dez minutos. "Changing Places" começa com leve batidas, boas linhas de baixo e um trabalho de flauta que é o destaque.

“Pomp And Circumstance” representa o seu resgate e o retorno como herói à terra natal. É bastante adorável e combina muito bem vários sintetizadores enquanto começa uma bateria simulando uma espécie de marcha militar com um único tiro de rifle no seu final, representando o nosso corajoso soldado descarregando um tiro no ar. "Please Come Home" é uma música basicamente feita com teclados e em pouco mais de um minuto e me remete a Supetramp.

“Reflections” mostra os sentimentos de Nude ao se dar conta de quanto tempo de sua vida ele perdeu por uma causa inútil. É mais uma música de paisagem sonora extremamente bela e que demonstra com sutileza que não é apenas confortante, como também altamente progressiva. Nude permanece cético sobre o fim da guerra e a princípio resiste em relação ao seu resgate.

“Captured" é um instrumental de ar alegre e muito reflexivo, tem um pouco da influencia New Wave da época o que pra mim tira um pouco da qualidade da música pelo fato de não gostar deste gênero. Em "The Homecoming” parece ser o momento de dar as boas vindas ao nosso herói, um ritmo de marcha compõe toda a música. 

"Lies" é a música que mostra para Nude que o Império que ele defendia e que tinha como invencível, na verdade não era. Trata-se de mais uma música com influência na sonoridade de alguns trabalhos da Alan Parsons Project.  As guitarras de Latimer fluem de uma maneira deliciosa, no meio contem um órgão nervoso. A guitarra final também é excelente. 

“The Birthday Cake” contém apenas trinta segundos e mostra que no seu aniversário de cinquenta anos, Nude, tomou uma importante decisão, então que a faixa final do disco, “Nude’s Return", mostra que a decisão de Nude é retornar para a mesma ilha e ficar isolado, já que não consegue mais se enxergar vivendo em sociedade. A música carrega uma grande áurea melancólica mais ou menos na linha do Genesis na época do seu disco "Wind and Wuthering”. Um final bastante triste para uma história igualmente triste. 

Sempre tive um sonho que posso dizer que é utópico de assistir a um show do Camel tocando este disco na íntegra e com animações no telão ilustrando cada uma das músicas, certamente a experiência seria bastante emocionante. Nude não é uma das maiores obras-primas da banda, mas continua sendo grande, uma jornada muito boa e edificante através de momentos graciosos. Considero inclusive um disco subestimado, parece que poucas vezes se veem menção a ele. A sonoridade obviamente não é aquela de um rock progressivo clássico apresentado em discos da década anterior, mas mesmo assim tudo possui boa qualidade. 

Nude é uma jornada muito boa e edificante através de momentos graciosos
3.5
05/06/2018

Eis um disco do Camel que eu passei a admirar bastante com o tempo. O seu nome em nada tem a ver com nudez como pode vir a parecer. Esse Nude na verdade é o nome de um soldado japonês e personagem central deste disco conceitual. O disco gira em torno desse soldado japonês que foi esquecido pelos seus companheiros em uma ilha deserta, chegando a ser dado inclusive como morto, permanecendo no mesmo local quase trinta anos “defendendo” um pedaço do Império sem saber que a guerra já havia acabado a muito tempo. Mesmo quando foi encontrado por alguns estudantes japoneses, se recusou a abaixar as armas caso a ordem não viesse através de um dos seus superiores. Porém, logo depois de ser resgatado tantos anos depois de ficar isolado em uma ilha, ele não conseguia mais se adaptar com a vida moderna que a essa altura era bem diferente daquela que ele vivia em seu momento pré guerra, preferindo ficar isolado de novo. E é exatamente isso que o disco vai descrevendo muito bem em cada uma de suas músicas. Como curiosidade, foi a esposa de Andy Latimer que desenvolveu o conceito para o álbum e escreveu todas as letras, exceto “Please Come Home” que foi escrita por Latimer. Outra curiosidade é que se trata de uma história real baseada na vida do ex combatente de guerra Hiroo Onada (1922 – 2014).

O disco começa com “City Life”, música que descreve passo a passo desde a vida pré-guerra do soldado. Apresenta influências perceptíveis em Alan Parsons Project. A superfície musical é bastante suave e deliciosa de ouvir. Também possui um solo de saxofone feito por Mel Collins que devo confessar que a princípio não havia me agradado, mas hoje já o vejo como um excelente complemento pra música.  

“Nude” é a faixa seguinte, apenas um interlúdio, mas em seguida temos, “Drafted”, música que representa o seu destacamento para o exército, onde o dilema existencial do nosso protagonista é resolvido por um aviso preliminar, se ele vai se importar em carregar um rifle ou não. Na verdade ele é um relutante a aspirante a assassino, porém, percebe que não está diante de uma escolha e aprende a viver sem remorso pelos seus feitos sejam eles quais forem. A melodia segue suave até que a entrada “atrasada” da bateria de Andy Ward permite que a música capte o fluxo de boas-vindas. 

“Docks” tem uma linha bem ao estilo Pink Floyd, música muito bem construída e de uma dinâmica forte. Apesar de discreto, o trabalho de guitarra Latimer como sempre é gracioso e ao mesmo tempo sensacional. "Beached" é a música que representa o momento que foi deixado para trás, possui uma levada mais rápida, teclados de muito bom gosto e algumas linhas de baterias bastante intrincadas. Não é necessariamente um momento espetacular na carreira da banda, mas mantém o ouvinte envolvido para que continue com o interesse pelo que está por vir. 

“Landscapes” e a faixa seguinte que representam a sua vida na ilha. É uma linda peça etérea, um teclado profundo e reverberante que envolve a suave melodia de flauta como uma auréola, infelizmente tem menos de três minutos, eu poderia viajar facilmente em sua melodia por mais de dez minutos. "Changing Places" começa com leve batidas, boas linhas de baixo e um trabalho de flauta que é o destaque.

“Pomp And Circumstance” representa o seu resgate e o retorno como herói à terra natal. É bastante adorável e combina muito bem vários sintetizadores enquanto começa uma bateria simulando uma espécie de marcha militar com um único tiro de rifle no seu final, representando o nosso corajoso soldado descarregando um tiro no ar. "Please Come Home" é uma música basicamente feita com teclados e em pouco mais de um minuto e me remete a Supetramp.

“Reflections” mostra os sentimentos de Nude ao se dar conta de quanto tempo de sua vida ele perdeu por uma causa inútil. É mais uma música de paisagem sonora extremamente bela e que demonstra com sutileza que não é apenas confortante, como também altamente progressiva. Nude permanece cético sobre o fim da guerra e a princípio resiste em relação ao seu resgate.

“Captured" é um instrumental de ar alegre e muito reflexivo, tem um pouco da influencia New Wave da época o que pra mim tira um pouco da qualidade da música pelo fato de não gostar deste gênero. Em "The Homecoming” parece ser o momento de dar as boas vindas ao nosso herói, um ritmo de marcha compõe toda a música. 

"Lies" é a música que mostra para Nude que o Império que ele defendia e que tinha como invencível, na verdade não era. Trata-se de mais uma música com influência na sonoridade de alguns trabalhos da Alan Parsons Project.  As guitarras de Latimer fluem de uma maneira deliciosa, no meio contem um órgão nervoso. A guitarra final também é excelente. 

“The Birthday Cake” contém apenas trinta segundos e mostra que no seu aniversário de cinquenta anos, Nude, tomou uma importante decisão, então que a faixa final do disco, “Nude’s Return", mostra que a decisão de Nude é retornar para a mesma ilha e ficar isolado, já que não consegue mais se enxergar vivendo em sociedade. A música carrega uma grande áurea melancólica mais ou menos na linha do Genesis na época do seu disco "Wind and Wuthering”. Um final bastante triste para uma história igualmente triste. 

Sempre tive um sonho que posso dizer que é utópico de assistir a um show do Camel tocando este disco na íntegra e com animações no telão ilustrando cada uma das músicas, certamente a experiência seria bastante emocionante. Nude não é uma das maiores obras-primas da banda, mas continua sendo grande, uma jornada muito boa e edificante através de momentos graciosos. Considero inclusive um disco subestimado, parece que poucas vezes se veem menção a ele. A sonoridade obviamente não é aquela de um rock progressivo clássico apresentado em discos da década anterior, mas mesmo assim tudo possui boa qualidade. 

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