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Resenha: Peter Hammill - Over (1977)

Por: Tiago Meneses

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Album Cover
Intenso, emocional, comovente e fortemente perturbador.
5
24/04/2018

Apesar de menos conhecida (e reconhecida) no Brasil, a Van der Graaf Generator é certamente uma das bandas mais influentes do rock progressivo em todos os tempos, tendo como principal motivo disso, a mente genial de Peter Hammill. Seus primeiros discos solos, lançados em meio a lançamentos da sua banda, de certa forma em muitos aspectos carregam a mesma aura, contudo, os discos seguintes, época do seu primeiro fim, são diferentes, possuem uma sonoridade mais singular e de difícil comparação com algo feita pela Van der Graaf Generator. Over soa menos progressivo e mais como um disco de um cantor de rock apenas, porém, ainda assim carrega uma grande intensidade. Peter Hammill nunca se incomodou ou respeitou muito os limites dos estilos musicais, aqui neste caso o ouvinte vai poder se deparar além do rock, com influências folk e clássicas. Alguns momentos do disco são de sonoridades acústicas, com a utilização de apenas um ou dois instrumentos, já em outras faixas a instrumentação é completa, porém, em ambos os casos, o sentimento geral é de sobriedade. 

“Crying Wolf” é a música que abre o disco. Às vezes tenho a impressão de ser uma sobra do disco anterior, Nadir's Big Chance, pela forma musical que se desenvolve. Hammill mostra vocais raivosos, mas olhando a letra a raiva parece ser de si mesmo. As camadas musicais aqui são densas, próximo a introdução o trabalho de címbalos são excelentes. Possui alguns teclados muito bem feitos e o riff principal de guitarra conduz a música otimamente. Falando em guitarra, o solo de Hammill, como já costuma ser, é completamente com foco no humor da música, a intenção nunca é de impressionar ninguém. 

Já ouviram falar em pessoas que se sentem inúteis quando os filhos crescem e depois as abandonam? Pois é exatamente esta ideia colocada em “Autumn”, uma faixa de vocal bastante emocional e que conta com uma contribuição orquestral maravilhosa. Como uma crítica, apesar de bastante bonita, parece um pouco deslocada se comparada ao resto do álbum. 

“Time Heals” certamente é a faixa mais progressiva do disco. Na verdade se trata de uma combinação de duas músicas que Hammill havia criado anos antes, sendo assim, a introdução e o final é uma parte e a do meio é outra. Possui uma estrutura quase que de um filme. De um ponto de vista lírico (algo que é sempre bom fazer quando falamos de Peter Hammill) digamos que esta faixa é o coração do disco. O assunto que é o fio condutor é o de superação em relação a um relacionamento que chegou ao fim, de certa forma isso pode ser visto como um clichê bobo (mesmo porque no geral letras sobre assuntos assim são mesmo), mas estamos falando de um artista que tem a capacidade incrível de pegar até assuntos mais simples e através de uma maneira pessoal, sincera e original e transformá-lo em algo a mais. A música tem arranjos progressivos que inclui a utilização de cravos e alguns moogs, fato que acaba acrescentando um toque medieval. A essência da sonoridade está no piano. Um destaque não apenas no disco, mas em toda a carreira de Hammill. 

“Alice (Letting Go)”  é uma música simples com Hammill tendo como companhia apenas um violão deliciosamente bem tocado e produzido. Os solavancos da franqueza na escrita é algo que torna está música única e honesta. Um momento maravilhoso do disco. 

“(This Side Of) The Looking Glass” é mais um momento emocional onde o uso da orquestra ajuda a aumentar ainda mais a melancolia. A atmosfera criada na introdução é belíssima, mostra o anseio pela presença de um ente querido. Hammill aqui consegue cantar muito bem em tons bastante altos. Algumas pessoas podem achar esta uma faixa excessivamente melodramática, mas eu particularmente adoro isso. 

“Betrayed” traz um Peter Hammill soando bastante mordaz, o violino está feroz e grosseiro e o violão muito ácido. Possui letras cínicas e não é o tipo de música aconselhável pra se ouvir quando se está de bom humor. Adoro a maneira como ela é conduzida. 

“(On Tuesdays She Used to Do) Yoga” tem uma aura depressiva e maligna (não sei exatamente se alguém me entende quando falo isso, mas basta ouvi-la pra ficar mais fácil de perceber). Uma faixa acústica com pequenos efeitos sonoros, os vocais de Hammill são de partir o coração. A parte final consegue transbordar perfeitamente uma sensação de desespero e solidão. 

“Lost and Found” finaliza o disco de uma forma mais otimista com uma ideia baseada de que os tempos ruins podem se transformar em bons momentos de uma maneira bastante rápida. O vocal de Hammil no começo soa muito suave e sóbrio. Mais a frente sua voz vai ficando mais dramática devido a lembrança do seu último encontro com Alice. Ele introduz um tema relacionado a “La Rossa” (faixa do disco Still Life da Van der Graaf Generator), onde para entender melhor “Lost and Found" também é bom ouvir a faixa supracitada. Este momento possui algumas guitarras distorcidas e psicodélicas que ilustram bem a confusão caótica que a música se encontra. Na parte final conseguimos notar novamente o clima transformando-se em esperança em uma levada mais acelerada e de notas bastante alegres. Grande maneira de fechar o disco. 

Se a intenção ao colocar este álbum pra tocar seja de encontrar um rock progressivo na veia, certamente você vai se desapontar. Mas se você simplesmente adotá-lo pelo que ele é, garanto que não irá se arrepender da viagem musical na qual vai embarcar. Over é um disco intenso, emocional, comovente e fortemente perturbador que chega com toda força no coração do ouvinte, muitas pessoas inclusive podem se relacionar com as situações colocadas nas letras aqui encontradas. Sinto-me literalmente abraçado por esse disco todas as vezes que eu o escuto. 

Intenso, emocional, comovente e fortemente perturbador.
5
24/04/2018

Apesar de menos conhecida (e reconhecida) no Brasil, a Van der Graaf Generator é certamente uma das bandas mais influentes do rock progressivo em todos os tempos, tendo como principal motivo disso, a mente genial de Peter Hammill. Seus primeiros discos solos, lançados em meio a lançamentos da sua banda, de certa forma em muitos aspectos carregam a mesma aura, contudo, os discos seguintes, época do seu primeiro fim, são diferentes, possuem uma sonoridade mais singular e de difícil comparação com algo feita pela Van der Graaf Generator. Over soa menos progressivo e mais como um disco de um cantor de rock apenas, porém, ainda assim carrega uma grande intensidade. Peter Hammill nunca se incomodou ou respeitou muito os limites dos estilos musicais, aqui neste caso o ouvinte vai poder se deparar além do rock, com influências folk e clássicas. Alguns momentos do disco são de sonoridades acústicas, com a utilização de apenas um ou dois instrumentos, já em outras faixas a instrumentação é completa, porém, em ambos os casos, o sentimento geral é de sobriedade. 

“Crying Wolf” é a música que abre o disco. Às vezes tenho a impressão de ser uma sobra do disco anterior, Nadir's Big Chance, pela forma musical que se desenvolve. Hammill mostra vocais raivosos, mas olhando a letra a raiva parece ser de si mesmo. As camadas musicais aqui são densas, próximo a introdução o trabalho de címbalos são excelentes. Possui alguns teclados muito bem feitos e o riff principal de guitarra conduz a música otimamente. Falando em guitarra, o solo de Hammill, como já costuma ser, é completamente com foco no humor da música, a intenção nunca é de impressionar ninguém. 

Já ouviram falar em pessoas que se sentem inúteis quando os filhos crescem e depois as abandonam? Pois é exatamente esta ideia colocada em “Autumn”, uma faixa de vocal bastante emocional e que conta com uma contribuição orquestral maravilhosa. Como uma crítica, apesar de bastante bonita, parece um pouco deslocada se comparada ao resto do álbum. 

“Time Heals” certamente é a faixa mais progressiva do disco. Na verdade se trata de uma combinação de duas músicas que Hammill havia criado anos antes, sendo assim, a introdução e o final é uma parte e a do meio é outra. Possui uma estrutura quase que de um filme. De um ponto de vista lírico (algo que é sempre bom fazer quando falamos de Peter Hammill) digamos que esta faixa é o coração do disco. O assunto que é o fio condutor é o de superação em relação a um relacionamento que chegou ao fim, de certa forma isso pode ser visto como um clichê bobo (mesmo porque no geral letras sobre assuntos assim são mesmo), mas estamos falando de um artista que tem a capacidade incrível de pegar até assuntos mais simples e através de uma maneira pessoal, sincera e original e transformá-lo em algo a mais. A música tem arranjos progressivos que inclui a utilização de cravos e alguns moogs, fato que acaba acrescentando um toque medieval. A essência da sonoridade está no piano. Um destaque não apenas no disco, mas em toda a carreira de Hammill. 

“Alice (Letting Go)”  é uma música simples com Hammill tendo como companhia apenas um violão deliciosamente bem tocado e produzido. Os solavancos da franqueza na escrita é algo que torna está música única e honesta. Um momento maravilhoso do disco. 

“(This Side Of) The Looking Glass” é mais um momento emocional onde o uso da orquestra ajuda a aumentar ainda mais a melancolia. A atmosfera criada na introdução é belíssima, mostra o anseio pela presença de um ente querido. Hammill aqui consegue cantar muito bem em tons bastante altos. Algumas pessoas podem achar esta uma faixa excessivamente melodramática, mas eu particularmente adoro isso. 

“Betrayed” traz um Peter Hammill soando bastante mordaz, o violino está feroz e grosseiro e o violão muito ácido. Possui letras cínicas e não é o tipo de música aconselhável pra se ouvir quando se está de bom humor. Adoro a maneira como ela é conduzida. 

“(On Tuesdays She Used to Do) Yoga” tem uma aura depressiva e maligna (não sei exatamente se alguém me entende quando falo isso, mas basta ouvi-la pra ficar mais fácil de perceber). Uma faixa acústica com pequenos efeitos sonoros, os vocais de Hammill são de partir o coração. A parte final consegue transbordar perfeitamente uma sensação de desespero e solidão. 

“Lost and Found” finaliza o disco de uma forma mais otimista com uma ideia baseada de que os tempos ruins podem se transformar em bons momentos de uma maneira bastante rápida. O vocal de Hammil no começo soa muito suave e sóbrio. Mais a frente sua voz vai ficando mais dramática devido a lembrança do seu último encontro com Alice. Ele introduz um tema relacionado a “La Rossa” (faixa do disco Still Life da Van der Graaf Generator), onde para entender melhor “Lost and Found" também é bom ouvir a faixa supracitada. Este momento possui algumas guitarras distorcidas e psicodélicas que ilustram bem a confusão caótica que a música se encontra. Na parte final conseguimos notar novamente o clima transformando-se em esperança em uma levada mais acelerada e de notas bastante alegres. Grande maneira de fechar o disco. 

Se a intenção ao colocar este álbum pra tocar seja de encontrar um rock progressivo na veia, certamente você vai se desapontar. Mas se você simplesmente adotá-lo pelo que ele é, garanto que não irá se arrepender da viagem musical na qual vai embarcar. Over é um disco intenso, emocional, comovente e fortemente perturbador que chega com toda força no coração do ouvinte, muitas pessoas inclusive podem se relacionar com as situações colocadas nas letras aqui encontradas. Sinto-me literalmente abraçado por esse disco todas as vezes que eu o escuto. 

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