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Resenha: Magma - Kobaïa (1970)

Por: Tiago Meneses

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Uma das ofertas mais corajosas da música feita naquele período.
4.5
20/04/2018

Se você quer conhecer mais sobre o Zeuhl certamente este não é o melhor caminho a fazer, afinal, aqui não existe praticamente nada fora do comum ou algo de fato marcante. Mas não me entendam errado, não estou querendo dizer que o disco de estreia do Magma é um trabalho ruim, não é isso, muito pelo contrário, eu o adoro, porém, não é exatamente o que alguém poderia esperar de um subgênero pomposo, brilhante, com uma combinação sobrenatural de peso, espiritualidade e provavelmente o mais difícil dentro do rock progressivo. Com tudo, ainda carrega bastantes ideias e potencial. 

Além das influências de jazz bastante óbvias, existem aqui várias coisas que fazem deste registro algo totalmente diferente do que viria a ser o Magma futuramente. A voz aqui é apenas mais um instrumento, a banda ainda não havia instituído as citações exuberantes e partes corais cintilantes que são uma marca do estilo clássico da banda. Na maior parte do tempo o que escutamos aqui é apenas Klaus Blasquiz ou Christian Vander “cantando” a música em vez de, por exemplo, citar poesia de um jeito indecifrável como em futuros épicos. 

Outra diferença que pode ser notada é a sensação um pouco episódica do álbum, mais ou menos como se todos se revezassem para explorar suas ideias composicionais, um após o outro. Em muitas faixas existem mudanças após poucos compassos ao invés de ter uma consistência estilística que a banda assume em discos posteriores. A experiência auditiva em relação à música deste disco pode ser um tanto fragmentada ao invés de vir em uma unidade abrangente e que o ouvinte deve esperar da banda. Às vezes digo que este disco não se trata de um trabalho de Zeuhl propriamente dito, mas o que seria então? Talvez um jazz filtrado através de outra cultura, ou mesmo quem sabe uma espécie de jazz extraterrestre. De qualquer forma, não soar sempre da sua maneira mais característica não quer dizer que não se trata de um disco excelente de se ouvir. 


DISCO1:

O álbum começa com um pequeno épico homônimo ao disco, apresenta uma percussão jazzy e uma introdução baseada em um baixo que logo se mistura a uma sonoridade latina que de alguma maneira eu compararia a encontrada em discos do Santana, o uso peculiar do teclado unido aos instrumentos de sopro também aumentam ainda mais uma sensação de fusion. Os instrumentos de sopro inclusive são quem fazem com que percebemos estar diante de algo muito mais experimental que o esperado, mas ainda assim tocado por uma banda que parece procurar um som definido. Mais para o final a banda chega a mudar de rumo para um som misterioso e interessante, mais parecido com o que seria sua marca registrada. 

“Aina” tem um começo ainda mais jazzy do que o apresentado na faixa anterior, ela depois se transforma em um jazz latino com um estilo de percussão bastante característico. Mas carrega o problema de que a primeira ruptura instrumental é muito próxima do jazz mainstream com uma característica mais elaborada. Sendo honesto, não é ruim, mas acaba sendo um pouco decepcionante. 

“Malaria”, o que exatamente alguém pode esperar de uma música com esse nome? Trata-se de uma faixa realmente aventureira, colisões instrumentais simples e repetitivas se transformando em algo mais fascinante e contraditório com o uso de uma flauta estranha e arranjos cacofônicos, realmente uma faixa até mesmo além do que alguém pode esperar. 

“Sohïa” continua mais ou menos no mesmo caminho que a faixa anterior, só que com um ar mais misterioso e sombrio. Confesso que se não estivéssemos falando do Magma, juraria que o uso de flauta estava ligado a um uso musical andino. Porém o que a música tem de interessante vem depois à medida que ela avança, a estrutura fica intrigante com algumas mudanças muito radicais e de atmosferas místicas. 

“Sckxyss”  a única coisa que eu lamento nesta música é que se trata de uma faixa muito curta pelo que ela é, ou seja, tem todos os ingredientes que me faz gostar da banda. Dramática, um trabalho vocal magnifico e estruturas elaboradas, cacofônicas, dissonantes, mas sempre coerente ao mesmo tempo. 

“Auraë” é uma música mística, aterrorizante e começa com um piano assombroso. A banda então surpreende com uma flauta belíssima e relaxante e que vai ficando cada vez mais complexa na medida em que os instrumentos são adicionados, mas é a partir mais ou menos do quinto minuto que a música começa a ganhar sua maior pompa com vocais característicos de Christian Vander. Grande maneira de fechar o primeiro disco. 


DISCO2:

“Thaud Zaïa” através de sua suave e misteriosa flauta abre o disco dois. O que começou suave e melódico acaba rapidamente tornando-se bastante estranho e dissonante. Difícil de imaginar com as pessoas receberam uma banda que em 1970 oferecia um tipo de música que ninguém imaginava e que era bastante revolucionário. 

“Naü Ektila” é bastante surpreendente, uma faixa jazz rock com certa liberdade de improvisação e baterias expressivas, além de possuir um sabor medieval reforçado pelos vocais estranhos em Kobaian. Porém o que a banda faz depois é o que podemos chamar de estranho com “E” maiúsculo, mudanças extremamente radicais com sons que colidem um com o outro e até uma guitarra hard rock entra na mistura pra se juntar a seção jazzística para deixar tudo mais louco ainda. Doze minutos de uma faixa maravilhosa e do mais puro rock progressivo. 

“Stöah” vem pra mostrar que nem tudo soou estranho a ponto de não poder soar mais estranho ainda. Possui uma introdução vocal bastante peculiar parecendo quase como se fosse um discurso em alemão na época da guerra. Bastante experimental, traz um piano de vanguarda com melodias agradáveis, vocais bizarros e trabalhos de trompete excelentes. A partir dos seis minutos, flauta e piano fazem um trabalho belíssimo antes dos vocais voltar e acelerar novamente a música até chegar ao seu fim. 

“Mûh” é mais uma faixa com boas mudanças radicais, contraditórias e inesperadas, fazendo com que não seja fácil de descrever está insanidade.  Abre com uma passagem onírica e celestial de piano e durante os seus primeiros minutos segue em uma aura semelhante, até que uma melodia de jazz latino alegre entra na música, sendo depois quebrada por um interlúdio neoclássico curto e um exercício instrumental longo e variado. Querer descrever a direção exata de certas músicas do Magma pode fazer com que a resenha fique até mesmo sem sentido. O disco termina com um recital estranho em Kobaïan.

Mesmo um pouco fora dos próprios padrões, ainda assim se trata de um dos discos mais inovadores e progressivos já feitos. A música não é nenhum pouco fácil de ser assimilada, mas no fim das contas é gratificante, além de ser uma das ofertas mais corajosas da música feita naquele período. Um disco quase sem nenhum momento cativante, sem refrãos agradáveis e sem sonoridade aberta. Apesar de tudo isso e tantos elogios em relação as faixas, não posso ignorar o que eu disse no começo e é o que não deixa com que este disco seja perfeito. De qualquer forma, se você quiser entender o gênero progressivo em sua amplitude, este item não pode estar de fora da sua coleção. 

Uma das ofertas mais corajosas da música feita naquele período.
4.5
20/04/2018

Se você quer conhecer mais sobre o Zeuhl certamente este não é o melhor caminho a fazer, afinal, aqui não existe praticamente nada fora do comum ou algo de fato marcante. Mas não me entendam errado, não estou querendo dizer que o disco de estreia do Magma é um trabalho ruim, não é isso, muito pelo contrário, eu o adoro, porém, não é exatamente o que alguém poderia esperar de um subgênero pomposo, brilhante, com uma combinação sobrenatural de peso, espiritualidade e provavelmente o mais difícil dentro do rock progressivo. Com tudo, ainda carrega bastantes ideias e potencial. 

Além das influências de jazz bastante óbvias, existem aqui várias coisas que fazem deste registro algo totalmente diferente do que viria a ser o Magma futuramente. A voz aqui é apenas mais um instrumento, a banda ainda não havia instituído as citações exuberantes e partes corais cintilantes que são uma marca do estilo clássico da banda. Na maior parte do tempo o que escutamos aqui é apenas Klaus Blasquiz ou Christian Vander “cantando” a música em vez de, por exemplo, citar poesia de um jeito indecifrável como em futuros épicos. 

Outra diferença que pode ser notada é a sensação um pouco episódica do álbum, mais ou menos como se todos se revezassem para explorar suas ideias composicionais, um após o outro. Em muitas faixas existem mudanças após poucos compassos ao invés de ter uma consistência estilística que a banda assume em discos posteriores. A experiência auditiva em relação à música deste disco pode ser um tanto fragmentada ao invés de vir em uma unidade abrangente e que o ouvinte deve esperar da banda. Às vezes digo que este disco não se trata de um trabalho de Zeuhl propriamente dito, mas o que seria então? Talvez um jazz filtrado através de outra cultura, ou mesmo quem sabe uma espécie de jazz extraterrestre. De qualquer forma, não soar sempre da sua maneira mais característica não quer dizer que não se trata de um disco excelente de se ouvir. 


DISCO1:

O álbum começa com um pequeno épico homônimo ao disco, apresenta uma percussão jazzy e uma introdução baseada em um baixo que logo se mistura a uma sonoridade latina que de alguma maneira eu compararia a encontrada em discos do Santana, o uso peculiar do teclado unido aos instrumentos de sopro também aumentam ainda mais uma sensação de fusion. Os instrumentos de sopro inclusive são quem fazem com que percebemos estar diante de algo muito mais experimental que o esperado, mas ainda assim tocado por uma banda que parece procurar um som definido. Mais para o final a banda chega a mudar de rumo para um som misterioso e interessante, mais parecido com o que seria sua marca registrada. 

“Aina” tem um começo ainda mais jazzy do que o apresentado na faixa anterior, ela depois se transforma em um jazz latino com um estilo de percussão bastante característico. Mas carrega o problema de que a primeira ruptura instrumental é muito próxima do jazz mainstream com uma característica mais elaborada. Sendo honesto, não é ruim, mas acaba sendo um pouco decepcionante. 

“Malaria”, o que exatamente alguém pode esperar de uma música com esse nome? Trata-se de uma faixa realmente aventureira, colisões instrumentais simples e repetitivas se transformando em algo mais fascinante e contraditório com o uso de uma flauta estranha e arranjos cacofônicos, realmente uma faixa até mesmo além do que alguém pode esperar. 

“Sohïa” continua mais ou menos no mesmo caminho que a faixa anterior, só que com um ar mais misterioso e sombrio. Confesso que se não estivéssemos falando do Magma, juraria que o uso de flauta estava ligado a um uso musical andino. Porém o que a música tem de interessante vem depois à medida que ela avança, a estrutura fica intrigante com algumas mudanças muito radicais e de atmosferas místicas. 

“Sckxyss”  a única coisa que eu lamento nesta música é que se trata de uma faixa muito curta pelo que ela é, ou seja, tem todos os ingredientes que me faz gostar da banda. Dramática, um trabalho vocal magnifico e estruturas elaboradas, cacofônicas, dissonantes, mas sempre coerente ao mesmo tempo. 

“Auraë” é uma música mística, aterrorizante e começa com um piano assombroso. A banda então surpreende com uma flauta belíssima e relaxante e que vai ficando cada vez mais complexa na medida em que os instrumentos são adicionados, mas é a partir mais ou menos do quinto minuto que a música começa a ganhar sua maior pompa com vocais característicos de Christian Vander. Grande maneira de fechar o primeiro disco. 


DISCO2:

“Thaud Zaïa” através de sua suave e misteriosa flauta abre o disco dois. O que começou suave e melódico acaba rapidamente tornando-se bastante estranho e dissonante. Difícil de imaginar com as pessoas receberam uma banda que em 1970 oferecia um tipo de música que ninguém imaginava e que era bastante revolucionário. 

“Naü Ektila” é bastante surpreendente, uma faixa jazz rock com certa liberdade de improvisação e baterias expressivas, além de possuir um sabor medieval reforçado pelos vocais estranhos em Kobaian. Porém o que a banda faz depois é o que podemos chamar de estranho com “E” maiúsculo, mudanças extremamente radicais com sons que colidem um com o outro e até uma guitarra hard rock entra na mistura pra se juntar a seção jazzística para deixar tudo mais louco ainda. Doze minutos de uma faixa maravilhosa e do mais puro rock progressivo. 

“Stöah” vem pra mostrar que nem tudo soou estranho a ponto de não poder soar mais estranho ainda. Possui uma introdução vocal bastante peculiar parecendo quase como se fosse um discurso em alemão na época da guerra. Bastante experimental, traz um piano de vanguarda com melodias agradáveis, vocais bizarros e trabalhos de trompete excelentes. A partir dos seis minutos, flauta e piano fazem um trabalho belíssimo antes dos vocais voltar e acelerar novamente a música até chegar ao seu fim. 

“Mûh” é mais uma faixa com boas mudanças radicais, contraditórias e inesperadas, fazendo com que não seja fácil de descrever está insanidade.  Abre com uma passagem onírica e celestial de piano e durante os seus primeiros minutos segue em uma aura semelhante, até que uma melodia de jazz latino alegre entra na música, sendo depois quebrada por um interlúdio neoclássico curto e um exercício instrumental longo e variado. Querer descrever a direção exata de certas músicas do Magma pode fazer com que a resenha fique até mesmo sem sentido. O disco termina com um recital estranho em Kobaïan.

Mesmo um pouco fora dos próprios padrões, ainda assim se trata de um dos discos mais inovadores e progressivos já feitos. A música não é nenhum pouco fácil de ser assimilada, mas no fim das contas é gratificante, além de ser uma das ofertas mais corajosas da música feita naquele período. Um disco quase sem nenhum momento cativante, sem refrãos agradáveis e sem sonoridade aberta. Apesar de tudo isso e tantos elogios em relação as faixas, não posso ignorar o que eu disse no começo e é o que não deixa com que este disco seja perfeito. De qualquer forma, se você quiser entender o gênero progressivo em sua amplitude, este item não pode estar de fora da sua coleção. 

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