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Resenha: Porcupine Tree - Fear Of A Blank Planet (2007)

Por: Tiago Meneses

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Todas as suas influências juntas em seu álbum mais completo.
5
31/03/2018

Porcupine Tree sempre foi uma banda que esteve em constante movimento. Depois de sua era de sonoridade mais psicodélica e espacial, a banda surgiu com a sua era mais “pop”, uma mistura de melodias de brit-pop com arranjos progressivos e obscuros, além de uns sons meio depressivos, veio em seguida a Porcupine Tree mostrando a sua faceta mais metálica e depois de dois lançamentos cheio de peso e histórias mórbidas eis que a banda juntou todas as suas influências naquele que provavelmente seja o seu álbum mais completo, um álbum onde todos os elementos encontrados em algum lugar do passado se encontram, talvez com exceção de linhas dançantes vistas em Up the Downstar. Tem metal ao estilo Tool e riffs ainda mais pesados, lindas melodias com aqueles refrãos atmosféricos e oníricos típicos da banda, partes mais suaves, seções psicodélicas e também momentos que são puro rock progressivo.

Em se tratando de desempenho dos músicos e nível de musicalidade esse é certamente o melhor disco da banda. Steve Wilson parece mais preciso do que nunca, sem virtuosismo ou exibicionismo, mas sempre trabalhando para um bem geral da atmosfera sonora, Barbieri, como de costume mostra-se o braço direito de Wilson e dando ao ambiente musical alguns sons verdadeiramente encantadores, Edwin costuma ser um baixista um tanto subestimado, mas possui uma precisão e passa uma sensação de “groove” muito boa, algumas de suas linhas de baixo são bastante valiosas, Harrison é um verdadeiro mestre da bateria e o melhor músico da banda, um especialista em groove, ritmos e preenchimentos precisos, além de ser um mestre na utilização dos címbalos. 

O disco é conceitual e tem uma influência fortíssima no livro, Luna Park, escrito por Bret Easton em 2005. Mas ao contrário do livro onde a história é contada da perspectiva de um pai, o álbum se desenrola com letras na perspectiva de um filho, um garoto de onze anos. Várias letras do álbum são tiradas diretamente do livro. A temática do álbum trata-se de dois transtornos neuro-comportamentais típicos que afetam os adolescentes do século XXI, transtorno bipolar e transtorno de déficit de atenção, e também outras tendências comuns de comportamento de jovens como a busca de fuga através de medicamentos prescritos, alienação social causada por tecnologia e um sentimento de vazio. 

O disco começa com a faixa título de uma maneira que define o cenário musical do álbum, começa de forma bastante rápida e agressiva. Na música existem bastante angústia e palavrões, relata a história de um adolescente que parece odiar seus pais e mostra um amor por coisas superficiais como o seu vídeo game. Uma faixa instrumentalmente bastante forte, sua parte do meio é muito obscura, sombria e mórbida com um fantástico desempenho da bateria, onde mesmo sem parecer ter a intenção de fazer muito, consegue impressionar. No final as coisas se acalmam e o ouvinte consegue chegar ao coração dos problemas da criança criando uma boa conexão emocional. 

“My Ashes” é uma faixa mais lenta que a anterior e bastante sombria. A banda aqui mostra uma das que considero maiores virtudes que é a capacidade de usar uma produção moderna e uma sonoridade cheia de excelentes efeitos. Wilson canta de uma maneira bastante lamentosa sobre um violão sonolento e alguns toques de piano. No coro ele duplica a sua voz, mandando o ouvinte a um território nenhum pouco otimista em uma cadencia que pode ser definido como uma espécie de morfina-musical. A utilização de cordas no final é a cereja do bolo que faz dessa faixa uma experiência musical completa. As letras são baseadas no final do livro e fazem uma grande homenagem ao romance que inspirou o álbum. 

“Anesthetize” é o grande épico do disco. A banda vai tomando o tempo do ouvinte antes que as coisas fiquem de fato pesadas e permitam que a música se desenvolva. Pode ser dividida meio que em três grandes seções, sendo que a primeira delas começa com uma percussão e Wilson cantando com o seu vocal nerd e inconfundível, há uma parte extremamente atmosférica que evolui para uma seção mais hard e distorcida com teclas que completam bem a parede musical. Devo dizer antes de continuar que este talvez seja o trabalho mais complexo da banda e pode fazer com que o ouvinte demore um pouco para apreciar a estrutura da música durante os seus primeiros seis minutos antes do metal realmente começar. Mas uma vez tudo no seu devido lugar, a banda mostra suas habilidades musicais com passagens instrumentais impressionantes onde todos os membros se destacam. Em seguida uma linha de baixo meio groove e quase jazzy ganha força tendo a energia aumentada ainda mais pela bateria. A bateria é bastante inspirada. Então a música nos coloca em uma arena mais pesada com sonoridade que que remetem quase ao Opeth, digamos assim. É muito bom perceber que a parceria entre Wilson e Akerfeldt fez bem pra ambos, Wilson ajudou o Opeth e ter uma roupagem também mais elegante no som e Akerfeldt ajudou Wilson a soar pesado sem precisar ser sujo. Uma seção meio incomum de baixo inclusive pesada demais pra banda coloca um fim na segunda seção da faixa e serve como ponte para a terceira. O momento agora é pra respirar fundo, meditar, analisar e refletir. A música por si só tem uma mensagem extremamente pessimista, mas sua sonoridade final nos faz imaginar com mais força um cenário sem vida, árvores mortas e nuvens escuras. Ao mesmo tempo em que a banda consegue pintar uma atmosfera bonita ela também é atroz, uma contradição musical onde conseguimos captar beleza onde o cenário é horroroso. 

“Sentimental” começa em um clima exatamente igual ao que terminou a faixa anterior e possui certa semelhança também com “My Ashes”. Alguns bons acordes de piano são seguidos por uma belíssima linha vocal de Wilson. As letras têm um teor de desespero e uma ligação forte com a capa do álbum, uma criança, a imagem da inocência, com olhos que anunciam o mal, não o mal incorporado em sua alma, mas em seu entorno, que eventualmente atingirá sua alma. Novamente uma música muito bem construída, sem virtuosismo, mas bastante sentimento. 

“Way Out Of Here” tem a participação de Robert Fripp através da criação de paisagens sonoras. Mais que uma participação necessária (mesmo porque ela não é) se trata de uma questão de homenagear uma das principais influências por trás de Wilson. Ainda que seja em outra proporção, assim como aconteceu em “Anesthetize”, a música vai crescendo gradativamente até chegar num momento de explosão. Nos momentos em que a banda mostra suas habilidades, tudo é feito sem nenhum excesso ou através de momentos gordurosos, tudo se mantem apertado e tenso, algo que corresponde ao clima geral de todo o álbum. Outro momento bastante atmosférico e sombrio, onde mesmo apresentando mais energia, não carrega menos pessimismo que as demais músicas. 

“Sleep Together” fecha o disco trazendo a tensão encontrada na faixa anterior só que multiplicada várias vezes. Cada segundo carrega uma tensão que dá uma sensação ao ouvinte como se a qualquer momento a faixa pode explodir. Novamente o uso de uma boa orquestração acrescenta uma maior vida à música, criando ao invés de um heavy metal tradicional, uma linha de clímax extremamente poderosa, sombria, perturbadora e cheia de emoção como acontece em todo o restante do disco. 

“Fear Of A Blank Planet” é onde o ouvinte pode se deparar com a Porcupine Tree no auge da sua capacidade. Eles conseguiram produzir um disco de rock progressivo muito bem escrito e conciso praticamente não pegando absolutamente nada dos anos 70. Uma das maiores qualidades deste álbum é como ele funciona bem em conjunto. São pouco mais de cinquenta minutos divididos em seis faixas que deixam o ouvinte extremamente confortável em ouvi-lo várias vezes em sua totalidade. Um disco onde por mais que todas as músicas tenham em comum uma aura de negatividade, existe sempre uma grande variedade de estilo em suas músicas. 

Todas as suas influências juntas em seu álbum mais completo.
5
31/03/2018

Porcupine Tree sempre foi uma banda que esteve em constante movimento. Depois de sua era de sonoridade mais psicodélica e espacial, a banda surgiu com a sua era mais “pop”, uma mistura de melodias de brit-pop com arranjos progressivos e obscuros, além de uns sons meio depressivos, veio em seguida a Porcupine Tree mostrando a sua faceta mais metálica e depois de dois lançamentos cheio de peso e histórias mórbidas eis que a banda juntou todas as suas influências naquele que provavelmente seja o seu álbum mais completo, um álbum onde todos os elementos encontrados em algum lugar do passado se encontram, talvez com exceção de linhas dançantes vistas em Up the Downstar. Tem metal ao estilo Tool e riffs ainda mais pesados, lindas melodias com aqueles refrãos atmosféricos e oníricos típicos da banda, partes mais suaves, seções psicodélicas e também momentos que são puro rock progressivo.

Em se tratando de desempenho dos músicos e nível de musicalidade esse é certamente o melhor disco da banda. Steve Wilson parece mais preciso do que nunca, sem virtuosismo ou exibicionismo, mas sempre trabalhando para um bem geral da atmosfera sonora, Barbieri, como de costume mostra-se o braço direito de Wilson e dando ao ambiente musical alguns sons verdadeiramente encantadores, Edwin costuma ser um baixista um tanto subestimado, mas possui uma precisão e passa uma sensação de “groove” muito boa, algumas de suas linhas de baixo são bastante valiosas, Harrison é um verdadeiro mestre da bateria e o melhor músico da banda, um especialista em groove, ritmos e preenchimentos precisos, além de ser um mestre na utilização dos címbalos. 

O disco é conceitual e tem uma influência fortíssima no livro, Luna Park, escrito por Bret Easton em 2005. Mas ao contrário do livro onde a história é contada da perspectiva de um pai, o álbum se desenrola com letras na perspectiva de um filho, um garoto de onze anos. Várias letras do álbum são tiradas diretamente do livro. A temática do álbum trata-se de dois transtornos neuro-comportamentais típicos que afetam os adolescentes do século XXI, transtorno bipolar e transtorno de déficit de atenção, e também outras tendências comuns de comportamento de jovens como a busca de fuga através de medicamentos prescritos, alienação social causada por tecnologia e um sentimento de vazio. 

O disco começa com a faixa título de uma maneira que define o cenário musical do álbum, começa de forma bastante rápida e agressiva. Na música existem bastante angústia e palavrões, relata a história de um adolescente que parece odiar seus pais e mostra um amor por coisas superficiais como o seu vídeo game. Uma faixa instrumentalmente bastante forte, sua parte do meio é muito obscura, sombria e mórbida com um fantástico desempenho da bateria, onde mesmo sem parecer ter a intenção de fazer muito, consegue impressionar. No final as coisas se acalmam e o ouvinte consegue chegar ao coração dos problemas da criança criando uma boa conexão emocional. 

“My Ashes” é uma faixa mais lenta que a anterior e bastante sombria. A banda aqui mostra uma das que considero maiores virtudes que é a capacidade de usar uma produção moderna e uma sonoridade cheia de excelentes efeitos. Wilson canta de uma maneira bastante lamentosa sobre um violão sonolento e alguns toques de piano. No coro ele duplica a sua voz, mandando o ouvinte a um território nenhum pouco otimista em uma cadencia que pode ser definido como uma espécie de morfina-musical. A utilização de cordas no final é a cereja do bolo que faz dessa faixa uma experiência musical completa. As letras são baseadas no final do livro e fazem uma grande homenagem ao romance que inspirou o álbum. 

“Anesthetize” é o grande épico do disco. A banda vai tomando o tempo do ouvinte antes que as coisas fiquem de fato pesadas e permitam que a música se desenvolva. Pode ser dividida meio que em três grandes seções, sendo que a primeira delas começa com uma percussão e Wilson cantando com o seu vocal nerd e inconfundível, há uma parte extremamente atmosférica que evolui para uma seção mais hard e distorcida com teclas que completam bem a parede musical. Devo dizer antes de continuar que este talvez seja o trabalho mais complexo da banda e pode fazer com que o ouvinte demore um pouco para apreciar a estrutura da música durante os seus primeiros seis minutos antes do metal realmente começar. Mas uma vez tudo no seu devido lugar, a banda mostra suas habilidades musicais com passagens instrumentais impressionantes onde todos os membros se destacam. Em seguida uma linha de baixo meio groove e quase jazzy ganha força tendo a energia aumentada ainda mais pela bateria. A bateria é bastante inspirada. Então a música nos coloca em uma arena mais pesada com sonoridade que que remetem quase ao Opeth, digamos assim. É muito bom perceber que a parceria entre Wilson e Akerfeldt fez bem pra ambos, Wilson ajudou o Opeth e ter uma roupagem também mais elegante no som e Akerfeldt ajudou Wilson a soar pesado sem precisar ser sujo. Uma seção meio incomum de baixo inclusive pesada demais pra banda coloca um fim na segunda seção da faixa e serve como ponte para a terceira. O momento agora é pra respirar fundo, meditar, analisar e refletir. A música por si só tem uma mensagem extremamente pessimista, mas sua sonoridade final nos faz imaginar com mais força um cenário sem vida, árvores mortas e nuvens escuras. Ao mesmo tempo em que a banda consegue pintar uma atmosfera bonita ela também é atroz, uma contradição musical onde conseguimos captar beleza onde o cenário é horroroso. 

“Sentimental” começa em um clima exatamente igual ao que terminou a faixa anterior e possui certa semelhança também com “My Ashes”. Alguns bons acordes de piano são seguidos por uma belíssima linha vocal de Wilson. As letras têm um teor de desespero e uma ligação forte com a capa do álbum, uma criança, a imagem da inocência, com olhos que anunciam o mal, não o mal incorporado em sua alma, mas em seu entorno, que eventualmente atingirá sua alma. Novamente uma música muito bem construída, sem virtuosismo, mas bastante sentimento. 

“Way Out Of Here” tem a participação de Robert Fripp através da criação de paisagens sonoras. Mais que uma participação necessária (mesmo porque ela não é) se trata de uma questão de homenagear uma das principais influências por trás de Wilson. Ainda que seja em outra proporção, assim como aconteceu em “Anesthetize”, a música vai crescendo gradativamente até chegar num momento de explosão. Nos momentos em que a banda mostra suas habilidades, tudo é feito sem nenhum excesso ou através de momentos gordurosos, tudo se mantem apertado e tenso, algo que corresponde ao clima geral de todo o álbum. Outro momento bastante atmosférico e sombrio, onde mesmo apresentando mais energia, não carrega menos pessimismo que as demais músicas. 

“Sleep Together” fecha o disco trazendo a tensão encontrada na faixa anterior só que multiplicada várias vezes. Cada segundo carrega uma tensão que dá uma sensação ao ouvinte como se a qualquer momento a faixa pode explodir. Novamente o uso de uma boa orquestração acrescenta uma maior vida à música, criando ao invés de um heavy metal tradicional, uma linha de clímax extremamente poderosa, sombria, perturbadora e cheia de emoção como acontece em todo o restante do disco. 

“Fear Of A Blank Planet” é onde o ouvinte pode se deparar com a Porcupine Tree no auge da sua capacidade. Eles conseguiram produzir um disco de rock progressivo muito bem escrito e conciso praticamente não pegando absolutamente nada dos anos 70. Uma das maiores qualidades deste álbum é como ele funciona bem em conjunto. São pouco mais de cinquenta minutos divididos em seis faixas que deixam o ouvinte extremamente confortável em ouvi-lo várias vezes em sua totalidade. Um disco onde por mais que todas as músicas tenham em comum uma aura de negatividade, existe sempre uma grande variedade de estilo em suas músicas. 

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