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Resenha: Peter Hammill - The Silent Corner and the Empty Stage (1974)

Por: Tiago Meneses

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Vocais apaixonados e controlados, músicas dinâmicas e letras poéticas.
5
23/03/2018

Como eu acho gratificante falar sobre os discos do Peter Hammill, embora nem sempre me ache inspirado o suficiente pra conseguir as mínimas palavras que sejam merecedoras. The Silent Corner and the Empty Stage não é muito diferente do que há de melhor na Van Der Graaf Generator, trazendo coisas como raiva, leveza, uma atmosfera obscura e poderosa. Obviamente que é mais pessoal e mais emocional do começo ao fim, mas também possui uma maior diversidade em sua instrumentação e uma postura mais agressiva que seu disco anterior. 

Algo que sempre tem que ser evidenciado nos discos solos de Hammill é que ele era muito mais do que apenas o vocalista da Van der Graaf Generator, era também a força criativa por trás da banda. Costuma possuir músicas mais curtas, mas sempre viajantes, além de poéticas e cheias de sentimentos. Com participações de todos os membros da Van der Graaf, nesse disco há muitos motivos para deixar felizes os fãs do grupo, além de poder ouvir canções mais pessoais de Hammill.

A capa original do álbum foi a segunda a ter a insígnia única de Hammill, mas foi a primeira a conter letras manuscritas na folha interna. Estas letras manuscritas dão ao álbum um toque realmente pessoal, tornando a audição um assunto muito mais íntimo.

A voz de Hammill tem uma qualidade distinta de um contador de histórias, qualidade que o tornou um ícone popular da cena progressiva por muitos anos. Vários dos seus álbuns solo se tornaram tesouros reverenciados e The Silent Corner and the Empty Stage é definitivamente o mais valioso de todos. A contribuição de Jackson, Banton e Evan é, obviamente, a principal razão para os sons de Van der Graa parecer tão mais presente aqui. A qualidade consistente das músicas é outra razão para o alto status deste álbum, enquanto muitos álbuns de Hammill se misturam em um estilo, este, assim como, por exemplo, o seu disco In Camera, lança uma infinidade de estilos e mantém o interesse em repetir as audições. 

O disco inicia através de “Modern” em uma estranha pegada acústica antes que entrem os vocais de maneira clara e ao mesmo tempo obscura. O segundo verso apresenta uma entrega muito mais marcante e mais agressiva para combinar com o aumento da intensidade das letras. O saxofone apresenta uma sonoridade cavernosa, a guitarra elétrica é pulsante e o baixo muito bem dirigido é quase mecânico. Uma seção intermediária de atmosfera desolada apresenta um órgão mais suave antes de entrar novamente uma guitarra acústica. A música vai ganhando mais corpo e ficando extremamente sombria, altamente eclética e poderosa. Hammill como de costume é impressionante com suas características líricas que combinam de maneira brilhante com a construção musical. Um disco que tira o fôlego logo no seu início. 

“Wilhelmina” é um contraste com a intensidade de “Modern”, com o começo através de um  piano e vocal básico sendo complementada gradualmente por um baixo e depois com algo que soa como um cravo. O mellotron faz uma aparição em momento bem apropriado. Todas as performances são excelentes, piano, vocais, partes acústicas e a peça final é uma música muito pessoal e comovente. Praticamente uma ode a uma garota, um conselho de como a vida poderá ser dura conforme os anos forem passando. 

“The Lie (Bernini's Saint Theresa)” da ao ouvinte uma sensação parecida com a faixa de abertura, embora ela atinja uma obscuridade e intensidade de um modo muito diferente. É construída em basicamente um piano extremamente afiado, vocais incrivelmente poderosos e um sintetizador ao redor. Em determinado momento um órgão ao estilo catedral faz uma aparição. As duas últimas frases são muito bem manipuladas, passando do otimismo para a rejeição em instantes. Brilhante e liricamente enigmática onde não faltam possibilidades a aqueles que adoram se desafiar em letras pouco convencionais. 

“Forsaken Gardens” é a primeira música didática do disco, tendo como tema o livro "O Fim da Infância", escrito por Arthur C. Clarke e publicado em 1953. A música começa com Peter Hammill cantando a capela, então que o piano e o baixo aparecem novamente com grande destaque. A percussão de Guy Evans e a flauta de David Jackson são adicionadas habilmente a esta mistura, junto com o sax e um vocal mais harmonizado. Um argumento muito convincente para a comunidade e para uma vida mais aberta é apresentado por vocais emocionais com um apoio musical sensacional, conseguindo ser persuasivo e mantendo-se sempre em uma energia rock and roll.

“Red Shift” traz o álbum novamente ao experimentalismo puro, mais uma vez apresentando Guy Evans com uma estranha bateria. O baixo é bastante pesado e a guitarra usa bons recursos, além de ter um solo maravilhoso. Os vocais seguem uma linha entre muito fortes e proeminentes e outros momentos mais discretos. A incoerência e a alienação são transmitidas musicalmente e ingenuamente, mas sem fazer com que o ouvinte a sinta desconectada ou alienante. Maravilhosa, mas neste caso tenho que confessar que demorou algumas boas e atentas audições até que eu conseguisse segurar na calda do cometa de ideias de Hammill e pudesse voar junto. 

“Rubicon” começa de maneira acústica e um vocal limpo, com qualidade ressonante e é liricamente dominada por uma interessante e inteligente evocação de escolha. A maior parte do conteúdo instrumental encontrado aqui está no violão e no baixo, embora o saxofone pincele a música de vez em quando. Como a maioria das músicas de Hammill deste período de sua carreira, focar no conteúdo lírico garante um crescimento significativo de como a música deve ser encarada no fim das contas. 

O disco chega ao fim com “A Louse Is Not A Home”. Não costumo falar esse tipo de coisa, mas dificilmente eu faria uma lista de dez melhores músicas de todos os tempos e não a colocaria. Possui sax em estilhaços, bateria em cascatas e um órgão sutil ao lado de uma linha obscura e potente de piano. Um rock poderoso e de ritmo acelerado que encontra intervalos mais suaves, assombrosos e cheio de tensão. Partes vocais rápidas o suficiente para dificultar o processo de cantar junto. Todas essas características extremamente variadas são mescladas em um todo inteiramente coerente. Liricamente impressionante, tanto em termos de sua conexão pessoal e natureza levemente didática como em temas recorrentes e inteligentes que se tornam claros a partir de um pouco mais de exame, entrega e originalidade estilística. Uma música impressionante em qualquer ótica, essencial a qualquer pessoa que mais do que ouvir algo, queira se desafiar. 

Se você por alguma razão você se encontra meio na dúvida em relação a este álbum, digo apenas que não importa que tipo de razão seja, apenas a ignore, pois independente de quais sejam as suas preferências musicais dentro do universo progressivo, é provável que você encontre algo aqui que vai ao menos apreciar. Um disco onde sempre haverá algo novo a ser descoberto a cada audição de cada uma de suas músicas. The Silent Corner And The Empty Stage contém sete faixas onde cada uma delas possui o seu próprio mundo e sua própria mensagem, mas que de alguma forma ainda consegue ser um disco fortemente unificado em uma das coleções de músicas mais belas e coesas que eu já tive o prazer de ouvir. 

Vocais apaixonados e controlados, músicas dinâmicas e letras poéticas.
5
23/03/2018

Como eu acho gratificante falar sobre os discos do Peter Hammill, embora nem sempre me ache inspirado o suficiente pra conseguir as mínimas palavras que sejam merecedoras. The Silent Corner and the Empty Stage não é muito diferente do que há de melhor na Van Der Graaf Generator, trazendo coisas como raiva, leveza, uma atmosfera obscura e poderosa. Obviamente que é mais pessoal e mais emocional do começo ao fim, mas também possui uma maior diversidade em sua instrumentação e uma postura mais agressiva que seu disco anterior. 

Algo que sempre tem que ser evidenciado nos discos solos de Hammill é que ele era muito mais do que apenas o vocalista da Van der Graaf Generator, era também a força criativa por trás da banda. Costuma possuir músicas mais curtas, mas sempre viajantes, além de poéticas e cheias de sentimentos. Com participações de todos os membros da Van der Graaf, nesse disco há muitos motivos para deixar felizes os fãs do grupo, além de poder ouvir canções mais pessoais de Hammill.

A capa original do álbum foi a segunda a ter a insígnia única de Hammill, mas foi a primeira a conter letras manuscritas na folha interna. Estas letras manuscritas dão ao álbum um toque realmente pessoal, tornando a audição um assunto muito mais íntimo.

A voz de Hammill tem uma qualidade distinta de um contador de histórias, qualidade que o tornou um ícone popular da cena progressiva por muitos anos. Vários dos seus álbuns solo se tornaram tesouros reverenciados e The Silent Corner and the Empty Stage é definitivamente o mais valioso de todos. A contribuição de Jackson, Banton e Evan é, obviamente, a principal razão para os sons de Van der Graa parecer tão mais presente aqui. A qualidade consistente das músicas é outra razão para o alto status deste álbum, enquanto muitos álbuns de Hammill se misturam em um estilo, este, assim como, por exemplo, o seu disco In Camera, lança uma infinidade de estilos e mantém o interesse em repetir as audições. 

O disco inicia através de “Modern” em uma estranha pegada acústica antes que entrem os vocais de maneira clara e ao mesmo tempo obscura. O segundo verso apresenta uma entrega muito mais marcante e mais agressiva para combinar com o aumento da intensidade das letras. O saxofone apresenta uma sonoridade cavernosa, a guitarra elétrica é pulsante e o baixo muito bem dirigido é quase mecânico. Uma seção intermediária de atmosfera desolada apresenta um órgão mais suave antes de entrar novamente uma guitarra acústica. A música vai ganhando mais corpo e ficando extremamente sombria, altamente eclética e poderosa. Hammill como de costume é impressionante com suas características líricas que combinam de maneira brilhante com a construção musical. Um disco que tira o fôlego logo no seu início. 

“Wilhelmina” é um contraste com a intensidade de “Modern”, com o começo através de um  piano e vocal básico sendo complementada gradualmente por um baixo e depois com algo que soa como um cravo. O mellotron faz uma aparição em momento bem apropriado. Todas as performances são excelentes, piano, vocais, partes acústicas e a peça final é uma música muito pessoal e comovente. Praticamente uma ode a uma garota, um conselho de como a vida poderá ser dura conforme os anos forem passando. 

“The Lie (Bernini's Saint Theresa)” da ao ouvinte uma sensação parecida com a faixa de abertura, embora ela atinja uma obscuridade e intensidade de um modo muito diferente. É construída em basicamente um piano extremamente afiado, vocais incrivelmente poderosos e um sintetizador ao redor. Em determinado momento um órgão ao estilo catedral faz uma aparição. As duas últimas frases são muito bem manipuladas, passando do otimismo para a rejeição em instantes. Brilhante e liricamente enigmática onde não faltam possibilidades a aqueles que adoram se desafiar em letras pouco convencionais. 

“Forsaken Gardens” é a primeira música didática do disco, tendo como tema o livro "O Fim da Infância", escrito por Arthur C. Clarke e publicado em 1953. A música começa com Peter Hammill cantando a capela, então que o piano e o baixo aparecem novamente com grande destaque. A percussão de Guy Evans e a flauta de David Jackson são adicionadas habilmente a esta mistura, junto com o sax e um vocal mais harmonizado. Um argumento muito convincente para a comunidade e para uma vida mais aberta é apresentado por vocais emocionais com um apoio musical sensacional, conseguindo ser persuasivo e mantendo-se sempre em uma energia rock and roll.

“Red Shift” traz o álbum novamente ao experimentalismo puro, mais uma vez apresentando Guy Evans com uma estranha bateria. O baixo é bastante pesado e a guitarra usa bons recursos, além de ter um solo maravilhoso. Os vocais seguem uma linha entre muito fortes e proeminentes e outros momentos mais discretos. A incoerência e a alienação são transmitidas musicalmente e ingenuamente, mas sem fazer com que o ouvinte a sinta desconectada ou alienante. Maravilhosa, mas neste caso tenho que confessar que demorou algumas boas e atentas audições até que eu conseguisse segurar na calda do cometa de ideias de Hammill e pudesse voar junto. 

“Rubicon” começa de maneira acústica e um vocal limpo, com qualidade ressonante e é liricamente dominada por uma interessante e inteligente evocação de escolha. A maior parte do conteúdo instrumental encontrado aqui está no violão e no baixo, embora o saxofone pincele a música de vez em quando. Como a maioria das músicas de Hammill deste período de sua carreira, focar no conteúdo lírico garante um crescimento significativo de como a música deve ser encarada no fim das contas. 

O disco chega ao fim com “A Louse Is Not A Home”. Não costumo falar esse tipo de coisa, mas dificilmente eu faria uma lista de dez melhores músicas de todos os tempos e não a colocaria. Possui sax em estilhaços, bateria em cascatas e um órgão sutil ao lado de uma linha obscura e potente de piano. Um rock poderoso e de ritmo acelerado que encontra intervalos mais suaves, assombrosos e cheio de tensão. Partes vocais rápidas o suficiente para dificultar o processo de cantar junto. Todas essas características extremamente variadas são mescladas em um todo inteiramente coerente. Liricamente impressionante, tanto em termos de sua conexão pessoal e natureza levemente didática como em temas recorrentes e inteligentes que se tornam claros a partir de um pouco mais de exame, entrega e originalidade estilística. Uma música impressionante em qualquer ótica, essencial a qualquer pessoa que mais do que ouvir algo, queira se desafiar. 

Se você por alguma razão você se encontra meio na dúvida em relação a este álbum, digo apenas que não importa que tipo de razão seja, apenas a ignore, pois independente de quais sejam as suas preferências musicais dentro do universo progressivo, é provável que você encontre algo aqui que vai ao menos apreciar. Um disco onde sempre haverá algo novo a ser descoberto a cada audição de cada uma de suas músicas. The Silent Corner And The Empty Stage contém sete faixas onde cada uma delas possui o seu próprio mundo e sua própria mensagem, mas que de alguma forma ainda consegue ser um disco fortemente unificado em uma das coleções de músicas mais belas e coesas que eu já tive o prazer de ouvir. 

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