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Resenha: Peter Gabriel - Peter Gabriel (Melt) (1980)

Por: Tiago Meneses

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Um clássico sem gênero definido e de beleza concreta.
5
01/03/2018

A minha relação com a carreira do Peter Gabriel em trabalho solo começou com o disco So, provavelmente seu álbum mais popular, porém, apesar de ter gostado do disco, foi quando me aprofundei mais no seu universo discográfico que descobri sua obra musical mais rica, seu terceiro disco, popularmente conhecido como Melt. Foi instantaneamente memorável, emocionante, interessante e deslumbrante. Confesso que existem poucos álbuns em que a música me tocou de maneira tão profunda como esse. A diversidade, a experimentação e a proeza de arranjo do álbum inteiro o tornam uma peça essencial em qualquer coleção de discos. 

Sem dúvida que se trata de uma grande ruptura na carreira de Gabriel, ele finalmente encontrava o seu próprio som, sua voz e o seu estilo. O disco trata-se de uma paisagem sonora estranha e ao mesmo tempo bela que combina a utilização de instrumentos primitivos com os modernos da época. As letras são perturbadoras, inteligentes e inspiradas, falando sobre racismo, preconceito, guerra, psicopatologia e desajustes gerais. Muito bem elaborado e complexo, mas bastante acessível ao mesmo tempo, uma verdadeira obra de arte. 

O disco abre com “Intruder” e logo de cara exibe todos os méritos do álbum. Os primeiros sons que ouvimos é o da bateria de Phil Collins, inclusive uma sonoridade bastante nova pra época. Uma letra mais elaborada e um vocal assustador anunciam que o último álbum está sendo deixado pra trás. Peter Gabriel mostra-se armado com uma nova energia e pula de cabeça em um campo experimental, o que de fato era o que se esperava dele desde o disco de estreia, mas que não havia sido feito. Apesar do assobio que existe na faixa próximo ao seu final fazer com que o ouvinte lembre de Genesis, o desenvolvimento de Gabriel como artista foi muito além de tudo o que ele fez com sua antiga banda. 

“No Self Control” possui uma produção ainda mais estranha, digamos assim, que a primeira faixa, porém, todos os sons aqui são cuidadosamente bem organizados. A maneira com que Collins executa a bateria nesta faixa certamente estimulou a mudança de estilo de Jerry Marotta. Trata-se de uma obra-prima textural. Kate Bush oferece vozes de apoio sutilmente como um recurso de ritmo extra e harmonizado para cortar os vocais maníacos do "coro" de Gabriel. Mais uma vez, Gabriel consegue transmitir de forma muito breve e efetiva uma emoção complexa, com todo tipo de florescimento engenhoso. O trabalho de guitarra de Robert Fripp é soberbo, assim como as linhas de baixo fretless de John Giblin que são incríveis e cheias de dinâmica. 

“Start” é uma faixa instrumental bastante breve e que serve principalmente como uma transição entre duas músicas extremamente intensas. Um saxofone jazzístico e um baixo ocasional com um som de sintetizador que se torna dissonante quando o saxofone atinge uma maior altura. Curta e muito bonita. 

“I Don't Remember” é o primeiro momento mais pop e direto no disco. Ainda assim, a letra e o tom são bastante obscuros. Conta com a performance sempre valiosíssima do inconfundível Tony Levin no Chapman Stick que fornece um trabalho fenomenal de baixo e que atua como acompanhamento primário. Os vocais são brilhantes, os breves momentos eletrônicos, bem como as estranhas linhas distorcidas e melódicas. Se você é uma das pessoas que costumam torcer o nariz pra boa parte da música dos anos 80 como inclusive eu costumo fazer, faixas assim mostram que também existe ouro naquela década. 

Em um disco que é todo nivelado por cima, “Family Snapshot” consegue voar mais alto que o padrão das demais músicas. Uma faixa sem gênero, contendo um discreto momento de piano e voz, rajadas de rock e uma parte de metal sintetizado. A falta de címbalo aqui, em particular, exige uma percussão inventiva a tornando inclusive mais eficaz. “Family Snapshot” é um exemplo perfeito do quanto Gabriel evoluiu de um disco para o outro. Ainda que alguns dos temas básicos sejam semelhantes a faixa de abertura de Scratch, aqui a sofisticação foi aprofundada em cerca de quatro ou cinco camadas. Mas apesar da natureza musical de alto nível, os vocais e letras devem receber uma ênfase também, uma declaração mais universal sobre a necessidade de encontrar significado e reconhecimento. A metáfora tem alguns limites, mas a performance vocal de Gabriel (talvez o melhor de sua carreira) faz com que essa música goteie com significado e emoção.

“And Through the Wire” faz com que haja um retorno ao estilo do segundo álbum, embora seja muito melhor executada do que qualquer música dele. Começa com um riff de guitarra cativante, baixo bem legal e uma bateria incomum. As letras e os vocais são divertidos, porém, o refrão enjoa um pouco, fato que não acontece em nenhum outro momento do disco. Mesmo assim, não deixa de ser audível. É apenas um pequeno soluço em um álbum que se desenvolve de maneira impecável. 

"Games Without Frontiers" é mais um dos momentos  pop do álbum. Não posso afirmar com toda certeza, mas imagino que foi o single que trouxe para Peter Gabriel à atenção de um novo público. As letras são peculiares, embora ainda inteligentes e os vocais novamente são muito bons. O trabalho de sintetizador é inspirador e de grande nitidez, assim como o baixo de sintetizador e a incrivelmente bem organizada seção eletrônica do final da música. Kate Bush novamente empresta sua voz para servir de apoio de maneira sedosa e suave. Uma música de ótimas melodias e evidências de que o pop pode ser também progressivo, caso alguém ainda tenha dúvida sobre isso. 

Se eu falar que “Not One Of Us” é a música mais fraca do álbum, não entendam como sendo uma música ruim, pois mesmo eu a nomeando assim, ainda consegue ser uma faixa extremamente interessante e muito bem executada, porém, acaba sendo mais admirável por sua inteligência e não pela emoção que transmite. Os vocais novamente são excelentes e os tons de sintetizadores são desafiadores, interessantes e criativos, inclusive três palavras que poderiam definir rapidamente este álbum. Como eu já disse, apesar de não ser tão emocionante como o resto do álbum, não atrapalha ou diminui a qualidade final. 

“Lead a Normal Life” é belíssima e talvez a música nitidamente mais experimental do disco. Uma atmosfera criada pelo piano desenha perfeitamente um paciente mental em um asilo pastoral. Os vocais breves e bastante assombrosos se encontram entre uma linha melódica dolorosa. Arrepiante. 

O disco chega ao fim através de “Biko”, música em homenagem a Steve Biko, ativista que chamou a atenção para o apartheid. Começa com algumas firmes batidas de percussão antes de uma gaita de fole muito interessante feita por Larry Fast juntar-se a música. O arranjo é simples, as melodias óbvias, as performances soam relativamente simples em comparação a boa parte das apresentadas do álbum até aqui, mas ainda causa efeito no ouvinte e mostra poder. As letras de Gabriel tomam uma ironia amarga, enquanto os vocais dão uma resposta direta e unidimensional. Simultaneamente bonita e obscura esta música encarna tudo o que fez este disco funcionar e o que o fez anterior falhar. 

Gabriel certamente assumiu grandes riscos nesse álbum, e no final forneceu aos fãs a melhor música que ele criaria em toda a sua carreira solo. Por mais que os álbuns posteriores continuaram a incluir sempre músicas fenomenais no estilo estabelecido aqui, nunca mais foram capturadas da mesma forma. Sempre achei o termo “art rock” algo pretensioso e desnecessário, porém, aqui ele se faz necessário, um trabalho que combina rock and roll com música eletrônica e experimental, além de influências instrumentais de várias partes do mundo pra criar um disco projetado pra atrair todos os aficionados por música da “alta cultura”. Um clássico sem gênero definido e de beleza concreta. 

Um clássico sem gênero definido e de beleza concreta.
5
01/03/2018

A minha relação com a carreira do Peter Gabriel em trabalho solo começou com o disco So, provavelmente seu álbum mais popular, porém, apesar de ter gostado do disco, foi quando me aprofundei mais no seu universo discográfico que descobri sua obra musical mais rica, seu terceiro disco, popularmente conhecido como Melt. Foi instantaneamente memorável, emocionante, interessante e deslumbrante. Confesso que existem poucos álbuns em que a música me tocou de maneira tão profunda como esse. A diversidade, a experimentação e a proeza de arranjo do álbum inteiro o tornam uma peça essencial em qualquer coleção de discos. 

Sem dúvida que se trata de uma grande ruptura na carreira de Gabriel, ele finalmente encontrava o seu próprio som, sua voz e o seu estilo. O disco trata-se de uma paisagem sonora estranha e ao mesmo tempo bela que combina a utilização de instrumentos primitivos com os modernos da época. As letras são perturbadoras, inteligentes e inspiradas, falando sobre racismo, preconceito, guerra, psicopatologia e desajustes gerais. Muito bem elaborado e complexo, mas bastante acessível ao mesmo tempo, uma verdadeira obra de arte. 

O disco abre com “Intruder” e logo de cara exibe todos os méritos do álbum. Os primeiros sons que ouvimos é o da bateria de Phil Collins, inclusive uma sonoridade bastante nova pra época. Uma letra mais elaborada e um vocal assustador anunciam que o último álbum está sendo deixado pra trás. Peter Gabriel mostra-se armado com uma nova energia e pula de cabeça em um campo experimental, o que de fato era o que se esperava dele desde o disco de estreia, mas que não havia sido feito. Apesar do assobio que existe na faixa próximo ao seu final fazer com que o ouvinte lembre de Genesis, o desenvolvimento de Gabriel como artista foi muito além de tudo o que ele fez com sua antiga banda. 

“No Self Control” possui uma produção ainda mais estranha, digamos assim, que a primeira faixa, porém, todos os sons aqui são cuidadosamente bem organizados. A maneira com que Collins executa a bateria nesta faixa certamente estimulou a mudança de estilo de Jerry Marotta. Trata-se de uma obra-prima textural. Kate Bush oferece vozes de apoio sutilmente como um recurso de ritmo extra e harmonizado para cortar os vocais maníacos do "coro" de Gabriel. Mais uma vez, Gabriel consegue transmitir de forma muito breve e efetiva uma emoção complexa, com todo tipo de florescimento engenhoso. O trabalho de guitarra de Robert Fripp é soberbo, assim como as linhas de baixo fretless de John Giblin que são incríveis e cheias de dinâmica. 

“Start” é uma faixa instrumental bastante breve e que serve principalmente como uma transição entre duas músicas extremamente intensas. Um saxofone jazzístico e um baixo ocasional com um som de sintetizador que se torna dissonante quando o saxofone atinge uma maior altura. Curta e muito bonita. 

“I Don't Remember” é o primeiro momento mais pop e direto no disco. Ainda assim, a letra e o tom são bastante obscuros. Conta com a performance sempre valiosíssima do inconfundível Tony Levin no Chapman Stick que fornece um trabalho fenomenal de baixo e que atua como acompanhamento primário. Os vocais são brilhantes, os breves momentos eletrônicos, bem como as estranhas linhas distorcidas e melódicas. Se você é uma das pessoas que costumam torcer o nariz pra boa parte da música dos anos 80 como inclusive eu costumo fazer, faixas assim mostram que também existe ouro naquela década. 

Em um disco que é todo nivelado por cima, “Family Snapshot” consegue voar mais alto que o padrão das demais músicas. Uma faixa sem gênero, contendo um discreto momento de piano e voz, rajadas de rock e uma parte de metal sintetizado. A falta de címbalo aqui, em particular, exige uma percussão inventiva a tornando inclusive mais eficaz. “Family Snapshot” é um exemplo perfeito do quanto Gabriel evoluiu de um disco para o outro. Ainda que alguns dos temas básicos sejam semelhantes a faixa de abertura de Scratch, aqui a sofisticação foi aprofundada em cerca de quatro ou cinco camadas. Mas apesar da natureza musical de alto nível, os vocais e letras devem receber uma ênfase também, uma declaração mais universal sobre a necessidade de encontrar significado e reconhecimento. A metáfora tem alguns limites, mas a performance vocal de Gabriel (talvez o melhor de sua carreira) faz com que essa música goteie com significado e emoção.

“And Through the Wire” faz com que haja um retorno ao estilo do segundo álbum, embora seja muito melhor executada do que qualquer música dele. Começa com um riff de guitarra cativante, baixo bem legal e uma bateria incomum. As letras e os vocais são divertidos, porém, o refrão enjoa um pouco, fato que não acontece em nenhum outro momento do disco. Mesmo assim, não deixa de ser audível. É apenas um pequeno soluço em um álbum que se desenvolve de maneira impecável. 

"Games Without Frontiers" é mais um dos momentos  pop do álbum. Não posso afirmar com toda certeza, mas imagino que foi o single que trouxe para Peter Gabriel à atenção de um novo público. As letras são peculiares, embora ainda inteligentes e os vocais novamente são muito bons. O trabalho de sintetizador é inspirador e de grande nitidez, assim como o baixo de sintetizador e a incrivelmente bem organizada seção eletrônica do final da música. Kate Bush novamente empresta sua voz para servir de apoio de maneira sedosa e suave. Uma música de ótimas melodias e evidências de que o pop pode ser também progressivo, caso alguém ainda tenha dúvida sobre isso. 

Se eu falar que “Not One Of Us” é a música mais fraca do álbum, não entendam como sendo uma música ruim, pois mesmo eu a nomeando assim, ainda consegue ser uma faixa extremamente interessante e muito bem executada, porém, acaba sendo mais admirável por sua inteligência e não pela emoção que transmite. Os vocais novamente são excelentes e os tons de sintetizadores são desafiadores, interessantes e criativos, inclusive três palavras que poderiam definir rapidamente este álbum. Como eu já disse, apesar de não ser tão emocionante como o resto do álbum, não atrapalha ou diminui a qualidade final. 

“Lead a Normal Life” é belíssima e talvez a música nitidamente mais experimental do disco. Uma atmosfera criada pelo piano desenha perfeitamente um paciente mental em um asilo pastoral. Os vocais breves e bastante assombrosos se encontram entre uma linha melódica dolorosa. Arrepiante. 

O disco chega ao fim através de “Biko”, música em homenagem a Steve Biko, ativista que chamou a atenção para o apartheid. Começa com algumas firmes batidas de percussão antes de uma gaita de fole muito interessante feita por Larry Fast juntar-se a música. O arranjo é simples, as melodias óbvias, as performances soam relativamente simples em comparação a boa parte das apresentadas do álbum até aqui, mas ainda causa efeito no ouvinte e mostra poder. As letras de Gabriel tomam uma ironia amarga, enquanto os vocais dão uma resposta direta e unidimensional. Simultaneamente bonita e obscura esta música encarna tudo o que fez este disco funcionar e o que o fez anterior falhar. 

Gabriel certamente assumiu grandes riscos nesse álbum, e no final forneceu aos fãs a melhor música que ele criaria em toda a sua carreira solo. Por mais que os álbuns posteriores continuaram a incluir sempre músicas fenomenais no estilo estabelecido aqui, nunca mais foram capturadas da mesma forma. Sempre achei o termo “art rock” algo pretensioso e desnecessário, porém, aqui ele se faz necessário, um trabalho que combina rock and roll com música eletrônica e experimental, além de influências instrumentais de várias partes do mundo pra criar um disco projetado pra atrair todos os aficionados por música da “alta cultura”. Um clássico sem gênero definido e de beleza concreta. 

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