Bem-vindo ao 80 Minutos

Nós amamos música e adoramos compartilhar nossas avaliações sobre os álbuns de nossas bandas favoritas.

Resenha: Peter Hammill - In Camera (1974)

Por: Tiago Meneses

Acessos: 154

Compartilhar:

Facebook Twitter
User Photo
Album Cover
Beleza e diversidades equilibradas a bastante experimentalismo.
5
24/01/2018

Quando se trata da carreira solo de Peter Hammill é fácil de notar que a cada álbum ele tem um toque peculiar, sendo tudo dentro de um padrão que eu não considero nada inferior a pelo menos bom. In Camera certamente é o seu disco mais diversificado, onde encontramos desde baladas idiossincráticas até verdadeiras obras-primas do rock progressivo, tudo complementado sempre com a sua poesia. 

Mas toda a gama do material, a sua complexidade e profundidade não é a única coisa admirável aqui. Cada uma das faixas consegue ser sem nenhum esforço uma experiência de vanguarda, onde juntas conseguem produzir um disco bastante coeso. Não menos importante em mencionar é a voz de Hammill, com certeza está no seu auge, onde cada passagem é belíssima e nitidamente bem pensada. É notável a sutileza como tudo soa intelectual sem ser pretensioso e a forma que os desfiles de diversidade musical se completam. 

A faixa que abre o disco é “Ferret and the Featherbird”, lentamente com guitarras acústicas, de doze cordas e um piano triste. O vocabulário é assustadoramente lindo, com linhas expansivas e ainda assim imediatas que contam a história de dois amantes se separando e depois se reconciliando. Uma música absolutamente encantadora, doce e desarmante. Vale ressaltar que se trata de uma das faixas de destaque do disco Arosol Grey Machine da Van der Graaf Generator, porém, a atmosfera aqui é diferente o que pra mim também deixou um pouco melhor. 

“(No More) the Sub-mariner” já é completamente diferente. Não carrega o charme, digamos assim, da faixa anterior, apenas um homem cantando sua alma, gritando de maneira escarnecedora sobre seus sonhos de infância e sua existência atual, tudo isso apoiado por linhas instrumentais ameaçadoras e sinuosas, que se espalham em cada mudança de humor e partes de baixo e piano incisivos que ressoam sob este vazio sintetizado. A severa confiança na composição e no desempenho é refletida pelo controle vocal de Hammill, ele é imediatamente confortável com o efeito aquoso de sua voz e seus vocais naturais. Não menos sólido é o seu controle sobre o humor da música, ele pode colocar a incerteza em uma única palavra, mesmo com esse efeito ameaçador em sua voz, e a mais obscura variedade de humor, medo, ressentimento, enganação e auto- lisonjeiro, são intercaladas com momentos de esperança, de arrependimento e introspecção, e a seção de corações lentamente ascendente está bem organizada, com a sua neblina cintilante que reflete as vozes internas da juventude dirigindo a personalidade em grande parte escondida da idade adulta. Um dos inúmeros exemplos que fazem com que Hammill seja visto como um dos mais geniais compositores da história do rock progressivo. 

A próxima faixa é “Tapeworm”, que logo de cara mostra uma sonoridade trovejante. Todos os instrumentos se cadenciam cheio de vigor. Mais ou menos no meio a música sofre uma ruptura de estilo à capela apresentando um humor distintamente musical mostrando quão sofisticadas suas composições estavam se tornando. Impressionante ver essa quebra, o preenchimento musical, o número de ideias de guitarras diferente e a coesão de toda a faixa. Bom, estou falando de uma música de quatro minutos e meio, mas que nos faz sentir como se fosse uma de dez. “Tapeworm” é certamente de um conteúdo musical rico e apesar de letras um pouco menos inspiradas e soando ligeiramente autoparódicas, as linhas vocais de Hammill são surpreendentes e o esquema de rima bastante inspirado. 

“Again” é uma balada “simples”, baseada em uma sonoridade acústica e melodiosa, de baixo lúgubre e piano dramático, embora com uma composição pouco convencional e discreta no meio da seção. Novamente o vocal de Hammill brilha com sua riqueza, criatividade, fluência e beleza, complementando perfeitamente suas letras igualmente tocantes mesmo com uma ideia emocional básica, uma música de amor perdido. Possui uma conclusão eletrônica ameaçadora. 

“Faint-Heart and the Sermon” é a minha música menos preferida no álbum e que logo de cara tive uma antipatia, porém, se ainda hoje minha primeira afirmação segue verdadeira, a segunda não existe mais, pois consegui entende-la melhor e ver uma excelente música (apesar de realmente continuar a ser a minha menos preferida). O violão sintetizado, ou baixo que finge ser cello é bastante surpreendente, assim como o resto da instrumentação que é muito bem pensada e interessante. Linhas vocais maravilhosas e uso brilhante de mellotrons. Impressionante como a primeira impressão nem sempre é a que fica, pois caso contrário eu jamais estaria falando desta música da maneira que estou fazendo agora. 

Em “The Comet, the Course, the Tail” você vai se deparar com algo que não é muito comum de se ver no rock progressivo, um quarteto de guitarras (baixo, acústico, doze cordas e elétrica). Este conjunto bastante incomum de instrumentação é complementado com uma metáfora filosófica inteligente e interessante. Mais uma vez existem algumas harmonias vocais magistrais, mas que ao mesmo tempo não soam fortes a ponto de obscurecer as forças dos vocais individuais de Hammill, estes sempre belos, limpos e ecléticos. As melodias são memoráveis com destaque para as linhas de baixo, mas tudo é lindo e flutua pela música sem muito esforço. A conclusão mais abatida oferece um ponto de partida bastante interessante para a sonoridade visceral da próxima faixa. 

Existem aquelas músicas que tem uma atmosfera obscura, mas também existem as que vão além e soam aterrorizantes, pois “Gog” é exatamente este tipo de música. A ameaça sufocante do harmônio, as baterias tribais, selvagens e intrincadas, os pratos trovejantes e os ritmos primitivos, o vocal rancoroso, arrogante e odioso de Hammill, cheio de desdém, escárnio e violência em um fluxo de frases vocais cada vez mais irregulares e viciosas. A ruptura instrumental não dá nenhum alívio, mergulhando o ouvinte ainda mais dentro de um universo caótico. Uma batalha instrumental feita sob uma interpretação vocal sensacional de Hammill, impregnada de agonia, desolação, vazio e sofrimento. Maravilhosamente perturbadora. 

O disco finaliza com “Magog (In Bromine Chambers)”, onde pra ser mais exato não chego a classificar como uma música. Mas não por isso ela deixa de ser marcante com seus cânticos medonhos, linha triste de percussão e violoncelo torturante, conduzindo o ouvinte a um nada distante, misturando-se ocasionalmente e depois desaparecendo em um fundo sonoro de cinzas dispersas. Não possui nenhuma melodia edificante ou sinal de esperança, nada além da sombria coleção de medo. Outro momento perturbador pra fechar as cortinas de uma obra genial. 

In Camera contém certamente alguns dos melhores momentos da carreira solo de Peter Hammill ou mesmo músicas que superam ou igualam o que de melhor tem no material da Van Der Graaf Generator. A beleza e o experimentalismo são bastante equilibrados, o que torna o álbum muito agradável, diversificado e o mantém sempre interessante. Uma obra-prima. 

Beleza e diversidades equilibradas a bastante experimentalismo.
5
24/01/2018

Quando se trata da carreira solo de Peter Hammill é fácil de notar que a cada álbum ele tem um toque peculiar, sendo tudo dentro de um padrão que eu não considero nada inferior a pelo menos bom. In Camera certamente é o seu disco mais diversificado, onde encontramos desde baladas idiossincráticas até verdadeiras obras-primas do rock progressivo, tudo complementado sempre com a sua poesia. 

Mas toda a gama do material, a sua complexidade e profundidade não é a única coisa admirável aqui. Cada uma das faixas consegue ser sem nenhum esforço uma experiência de vanguarda, onde juntas conseguem produzir um disco bastante coeso. Não menos importante em mencionar é a voz de Hammill, com certeza está no seu auge, onde cada passagem é belíssima e nitidamente bem pensada. É notável a sutileza como tudo soa intelectual sem ser pretensioso e a forma que os desfiles de diversidade musical se completam. 

A faixa que abre o disco é “Ferret and the Featherbird”, lentamente com guitarras acústicas, de doze cordas e um piano triste. O vocabulário é assustadoramente lindo, com linhas expansivas e ainda assim imediatas que contam a história de dois amantes se separando e depois se reconciliando. Uma música absolutamente encantadora, doce e desarmante. Vale ressaltar que se trata de uma das faixas de destaque do disco Arosol Grey Machine da Van der Graaf Generator, porém, a atmosfera aqui é diferente o que pra mim também deixou um pouco melhor. 

“(No More) the Sub-mariner” já é completamente diferente. Não carrega o charme, digamos assim, da faixa anterior, apenas um homem cantando sua alma, gritando de maneira escarnecedora sobre seus sonhos de infância e sua existência atual, tudo isso apoiado por linhas instrumentais ameaçadoras e sinuosas, que se espalham em cada mudança de humor e partes de baixo e piano incisivos que ressoam sob este vazio sintetizado. A severa confiança na composição e no desempenho é refletida pelo controle vocal de Hammill, ele é imediatamente confortável com o efeito aquoso de sua voz e seus vocais naturais. Não menos sólido é o seu controle sobre o humor da música, ele pode colocar a incerteza em uma única palavra, mesmo com esse efeito ameaçador em sua voz, e a mais obscura variedade de humor, medo, ressentimento, enganação e auto- lisonjeiro, são intercaladas com momentos de esperança, de arrependimento e introspecção, e a seção de corações lentamente ascendente está bem organizada, com a sua neblina cintilante que reflete as vozes internas da juventude dirigindo a personalidade em grande parte escondida da idade adulta. Um dos inúmeros exemplos que fazem com que Hammill seja visto como um dos mais geniais compositores da história do rock progressivo. 

A próxima faixa é “Tapeworm”, que logo de cara mostra uma sonoridade trovejante. Todos os instrumentos se cadenciam cheio de vigor. Mais ou menos no meio a música sofre uma ruptura de estilo à capela apresentando um humor distintamente musical mostrando quão sofisticadas suas composições estavam se tornando. Impressionante ver essa quebra, o preenchimento musical, o número de ideias de guitarras diferente e a coesão de toda a faixa. Bom, estou falando de uma música de quatro minutos e meio, mas que nos faz sentir como se fosse uma de dez. “Tapeworm” é certamente de um conteúdo musical rico e apesar de letras um pouco menos inspiradas e soando ligeiramente autoparódicas, as linhas vocais de Hammill são surpreendentes e o esquema de rima bastante inspirado. 

“Again” é uma balada “simples”, baseada em uma sonoridade acústica e melodiosa, de baixo lúgubre e piano dramático, embora com uma composição pouco convencional e discreta no meio da seção. Novamente o vocal de Hammill brilha com sua riqueza, criatividade, fluência e beleza, complementando perfeitamente suas letras igualmente tocantes mesmo com uma ideia emocional básica, uma música de amor perdido. Possui uma conclusão eletrônica ameaçadora. 

“Faint-Heart and the Sermon” é a minha música menos preferida no álbum e que logo de cara tive uma antipatia, porém, se ainda hoje minha primeira afirmação segue verdadeira, a segunda não existe mais, pois consegui entende-la melhor e ver uma excelente música (apesar de realmente continuar a ser a minha menos preferida). O violão sintetizado, ou baixo que finge ser cello é bastante surpreendente, assim como o resto da instrumentação que é muito bem pensada e interessante. Linhas vocais maravilhosas e uso brilhante de mellotrons. Impressionante como a primeira impressão nem sempre é a que fica, pois caso contrário eu jamais estaria falando desta música da maneira que estou fazendo agora. 

Em “The Comet, the Course, the Tail” você vai se deparar com algo que não é muito comum de se ver no rock progressivo, um quarteto de guitarras (baixo, acústico, doze cordas e elétrica). Este conjunto bastante incomum de instrumentação é complementado com uma metáfora filosófica inteligente e interessante. Mais uma vez existem algumas harmonias vocais magistrais, mas que ao mesmo tempo não soam fortes a ponto de obscurecer as forças dos vocais individuais de Hammill, estes sempre belos, limpos e ecléticos. As melodias são memoráveis com destaque para as linhas de baixo, mas tudo é lindo e flutua pela música sem muito esforço. A conclusão mais abatida oferece um ponto de partida bastante interessante para a sonoridade visceral da próxima faixa. 

Existem aquelas músicas que tem uma atmosfera obscura, mas também existem as que vão além e soam aterrorizantes, pois “Gog” é exatamente este tipo de música. A ameaça sufocante do harmônio, as baterias tribais, selvagens e intrincadas, os pratos trovejantes e os ritmos primitivos, o vocal rancoroso, arrogante e odioso de Hammill, cheio de desdém, escárnio e violência em um fluxo de frases vocais cada vez mais irregulares e viciosas. A ruptura instrumental não dá nenhum alívio, mergulhando o ouvinte ainda mais dentro de um universo caótico. Uma batalha instrumental feita sob uma interpretação vocal sensacional de Hammill, impregnada de agonia, desolação, vazio e sofrimento. Maravilhosamente perturbadora. 

O disco finaliza com “Magog (In Bromine Chambers)”, onde pra ser mais exato não chego a classificar como uma música. Mas não por isso ela deixa de ser marcante com seus cânticos medonhos, linha triste de percussão e violoncelo torturante, conduzindo o ouvinte a um nada distante, misturando-se ocasionalmente e depois desaparecendo em um fundo sonoro de cinzas dispersas. Não possui nenhuma melodia edificante ou sinal de esperança, nada além da sombria coleção de medo. Outro momento perturbador pra fechar as cortinas de uma obra genial. 

In Camera contém certamente alguns dos melhores momentos da carreira solo de Peter Hammill ou mesmo músicas que superam ou igualam o que de melhor tem no material da Van Der Graaf Generator. A beleza e o experimentalismo são bastante equilibrados, o que torna o álbum muito agradável, diversificado e o mantém sempre interessante. Uma obra-prima. 

Sample photo

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Mais Resenhas de Peter Hammill

Album Cover

Peter Hammill - Nadir's Big Chance (1975)

Nadir's Big Chance é cheio de méritos artísticos musicalmente e liricamente
4
Por: Tiago Meneses
07/06/2018
Album Cover

Peter Hammill - The Silent Corner and the Empty Stage (1974)

Vocais apaixonados e controlados, músicas dinâmicas e letras poéticas.
5
Por: Tiago Meneses
23/03/2018
Album Cover

Peter Hammill - Chameleon in the Shadow of the Night (1973)

Extremamente temperamental e expressivo.
5
Por: Tiago Meneses
05/10/2017

Quer Mais?

Veja as nossas recomendações:

Album Cover

Yes - 90125 (1983)

A obra que reciclou o Yes
4.5
Por: Marcel Z. Dio
26/03/2018
Album Cover

Eloy - Ocean (1977)

Uma obra-prima e de fácil acesso a qualquer ouvido.
5
Por: Tiago Meneses
14/10/2017
Album Cover

Magenta - We Are Legend (2017)

Apesar dos problemas extras, um disco muito bom.
3.5
Por: Tiago Meneses
27/10/2017