Bem-vindo ao 80 Minutos

Nós amamos música e adoramos compartilhar nossas avaliações sobre os álbuns de nossas bandas favoritas.

Resenha: Van Der Graaf Generator - Pawn Hearts (1971)

Por: Tiago Meneses

Acessos: 124

Compartilhar:

Facebook Twitter Google +
User Photo
Album Cover
Perturbador, despretensioso e incrível ao mesmo tempo.
5
08/11/2017

Pawn Hearts é o quarto lançamento da Van der Graaf Generator. Assim como aconteceu com o seu antecessor, o disco apresenta uma sonoridade vanguardista, exigente e ocasionalmente difícil, ainda que de resultado bastante gratificante. Os elementos clássicos da banda como sempre estão em evidência, letras fortes e introspectivas, vocais dinâmicos, exímios trabalhos de piano, órgão, mellotron e sintetizadores, uma bateria precisa, além de um saxofone exclusivo e essencial, além do uso de flautas ocasionais. Para adoçar ainda mais essa mistura, Robert Fripp novamente é o convidado, adicionando o seu toque hábil e inimitável na tela musical do disco.

Este disco é incrível, mas que nem sempre consegue dominar o ouvinte logo pela primeira audição. Peter Hammill está cantando magnificamente. Falar do brilhantismo de suas letras é algo extremamente desnecessário de tão boas que são suas poesias. A instrumentação não convencional também é algo que funciona muito bem. Tudo é bastante sombrio, seja musical quanto lírico. 

A arte da capa do álbum apresenta um grupo de pessoas sobre o que parece ser o céu preenchido por alguns peões. Isso inclusive me faz lembrar muito os antigos mitos sobre os deuses do Olimpo usando os humanos como peões em seus jogos. 

O disco começa através de "Lemmings (Including 'Cog')", uma música apocalíptica psicológica e filosófica, carrega consigo uma espécie de sensação do inevitável. O vocal de Hammill cria incerteza, medo e condenação, às vezes burlando a condenação sem qualquer restrição. Um conjunto de letras brilhantemente escritas transmite uma vida sem um propósito real. Musicalmente é igualmente deslumbrante, com peças acústicas muito bem acentuadas criando uma sensação pessoal. Os teclados, órgãos e outros efeitos assumem um papel proeminente nas seções mais esquizofrênicas e nervosas, entrelaçando com redes de saxofone e lick selvagens distorcidos. O trabalho de bateria e percussão é muito bom, ajudando a faixa a ter uma sensação contínua de interesse. O final é derivado de um desenvolvimento de atmosfera negativa.

"Man Erg" de certa forma é um contraste, mas ao mesmo tempo bastante similar em outros. Peter Hammill canta de uma maneira menos pessoal e emocionante, porém, mais grandiosa e decisiva sobre uma questão filosófica de livre arbítrio. Apresenta melhores progressões de acordes, com sutis e belos órgãos durante toda a música, bem como alguns momentos mais jazzísticos, graças principalmente ao saxofone. No entanto, a música também tem o seu lado mais obscuro, com momentos de órgãos e saxofones poderosos, alguns vocais tenebrosos aqui e ali, ficando inclusive meio dissonante e sombrio, pessoalmente adoro esta energia que a música carrega. Uma das músicas que deve ser citadas em qualquer lista das melhores e brilhantes composições da banda. 

Qual seria exatamente o pico da proeza musical da banda? “A Plague of Lighthouse Keepers” é o primeiro nome que me vem em mente. É inacreditável em todos os aspectos durante todos os seus vinte e três minutos. A música conta a história de uma testemunha ocular que vê o indizível quando sente que seu corpo desaparece em uma tempestade enquanto viaja em um navio condenado. O narrador observa, "eu profetizo o desastre e então eu considero o custo, eu resplandeço, mas resplandeço morrendo, pois eu sei que estou quase perdido". O piano fica mais rápido e parece estar caindo sobre um abismo. Há um breve interlúdio que lembra um navio flutuante em um oceano sem fim, além de ouvirmos explosões solitárias de saxofone. É facilmente de imaginar um navio fantasma navegando através da névoa em um ambiente genuinamente assustador. A música assume uma atmosfera mais obscura e Hammill começa a usar o seu tom único. “Presence of the Night” e “Kosmos Tours” são duas seções onde realmente o saxofone é o instrumento que brilha. Um lindo som de hammond preenche o vazio e o tempo acende-se a um ritmo frenético. Então tudo termina e o piano reverbera para um contemplativo e melancólico Hammill, que pergunta ,“os faróis podem conter a chave, mas posso chegar à porta?”. É um momento bastante encantador da faixa depois de todo o caos que se procedeu. Às vezes o som parece estranhamente fora do lugar, sintonia e ritmo, mas tudo se encaixa perfeitamente na tranquila Land’s End”. “Estrelas cortam o oceano onde as linhas permanecem rígidas, eu sinto que estou afundando...mãos esticadas no escuro”. E termina em uma nota bastante positiva em um sentido em que Hammill acredita que não se sente tão mal agora e talvez o fim é o começo, tudo está separado. O ouvinte pode levar o que quiser de uma letra potente deste tipo, mas tudo é cantado com convicção absoluta, o que faz com que a peça seja mais intrigante. É uma balada de grandeza gótica em todos os sentidos que constantemente surpreende com sua complexidade.

Apenas três faixas, mas sem dúvida alguma, um dos maiores esforços que a banda tem a oferecer. Sempre digo que a voz de Peter Hammill não costuma agradar a todos, mas por outro lado possui emoções que nenhum outro tem. As instrumentações menos convencionais podem demorar a engrenar em quem não é familiarizado, mas são sensacionais. Perturbador, despretensioso e incrível ao mesmo tempo. 

Perturbador, despretensioso e incrível ao mesmo tempo.
5
08/11/2017

Pawn Hearts é o quarto lançamento da Van der Graaf Generator. Assim como aconteceu com o seu antecessor, o disco apresenta uma sonoridade vanguardista, exigente e ocasionalmente difícil, ainda que de resultado bastante gratificante. Os elementos clássicos da banda como sempre estão em evidência, letras fortes e introspectivas, vocais dinâmicos, exímios trabalhos de piano, órgão, mellotron e sintetizadores, uma bateria precisa, além de um saxofone exclusivo e essencial, além do uso de flautas ocasionais. Para adoçar ainda mais essa mistura, Robert Fripp novamente é o convidado, adicionando o seu toque hábil e inimitável na tela musical do disco.

Este disco é incrível, mas que nem sempre consegue dominar o ouvinte logo pela primeira audição. Peter Hammill está cantando magnificamente. Falar do brilhantismo de suas letras é algo extremamente desnecessário de tão boas que são suas poesias. A instrumentação não convencional também é algo que funciona muito bem. Tudo é bastante sombrio, seja musical quanto lírico. 

A arte da capa do álbum apresenta um grupo de pessoas sobre o que parece ser o céu preenchido por alguns peões. Isso inclusive me faz lembrar muito os antigos mitos sobre os deuses do Olimpo usando os humanos como peões em seus jogos. 

O disco começa através de "Lemmings (Including 'Cog')", uma música apocalíptica psicológica e filosófica, carrega consigo uma espécie de sensação do inevitável. O vocal de Hammill cria incerteza, medo e condenação, às vezes burlando a condenação sem qualquer restrição. Um conjunto de letras brilhantemente escritas transmite uma vida sem um propósito real. Musicalmente é igualmente deslumbrante, com peças acústicas muito bem acentuadas criando uma sensação pessoal. Os teclados, órgãos e outros efeitos assumem um papel proeminente nas seções mais esquizofrênicas e nervosas, entrelaçando com redes de saxofone e lick selvagens distorcidos. O trabalho de bateria e percussão é muito bom, ajudando a faixa a ter uma sensação contínua de interesse. O final é derivado de um desenvolvimento de atmosfera negativa.

"Man Erg" de certa forma é um contraste, mas ao mesmo tempo bastante similar em outros. Peter Hammill canta de uma maneira menos pessoal e emocionante, porém, mais grandiosa e decisiva sobre uma questão filosófica de livre arbítrio. Apresenta melhores progressões de acordes, com sutis e belos órgãos durante toda a música, bem como alguns momentos mais jazzísticos, graças principalmente ao saxofone. No entanto, a música também tem o seu lado mais obscuro, com momentos de órgãos e saxofones poderosos, alguns vocais tenebrosos aqui e ali, ficando inclusive meio dissonante e sombrio, pessoalmente adoro esta energia que a música carrega. Uma das músicas que deve ser citadas em qualquer lista das melhores e brilhantes composições da banda. 

Qual seria exatamente o pico da proeza musical da banda? “A Plague of Lighthouse Keepers” é o primeiro nome que me vem em mente. É inacreditável em todos os aspectos durante todos os seus vinte e três minutos. A música conta a história de uma testemunha ocular que vê o indizível quando sente que seu corpo desaparece em uma tempestade enquanto viaja em um navio condenado. O narrador observa, "eu profetizo o desastre e então eu considero o custo, eu resplandeço, mas resplandeço morrendo, pois eu sei que estou quase perdido". O piano fica mais rápido e parece estar caindo sobre um abismo. Há um breve interlúdio que lembra um navio flutuante em um oceano sem fim, além de ouvirmos explosões solitárias de saxofone. É facilmente de imaginar um navio fantasma navegando através da névoa em um ambiente genuinamente assustador. A música assume uma atmosfera mais obscura e Hammill começa a usar o seu tom único. “Presence of the Night” e “Kosmos Tours” são duas seções onde realmente o saxofone é o instrumento que brilha. Um lindo som de hammond preenche o vazio e o tempo acende-se a um ritmo frenético. Então tudo termina e o piano reverbera para um contemplativo e melancólico Hammill, que pergunta ,“os faróis podem conter a chave, mas posso chegar à porta?”. É um momento bastante encantador da faixa depois de todo o caos que se procedeu. Às vezes o som parece estranhamente fora do lugar, sintonia e ritmo, mas tudo se encaixa perfeitamente na tranquila Land’s End”. “Estrelas cortam o oceano onde as linhas permanecem rígidas, eu sinto que estou afundando...mãos esticadas no escuro”. E termina em uma nota bastante positiva em um sentido em que Hammill acredita que não se sente tão mal agora e talvez o fim é o começo, tudo está separado. O ouvinte pode levar o que quiser de uma letra potente deste tipo, mas tudo é cantado com convicção absoluta, o que faz com que a peça seja mais intrigante. É uma balada de grandeza gótica em todos os sentidos que constantemente surpreende com sua complexidade.

Apenas três faixas, mas sem dúvida alguma, um dos maiores esforços que a banda tem a oferecer. Sempre digo que a voz de Peter Hammill não costuma agradar a todos, mas por outro lado possui emoções que nenhum outro tem. As instrumentações menos convencionais podem demorar a engrenar em quem não é familiarizado, mas são sensacionais. Perturbador, despretensioso e incrível ao mesmo tempo. 

Sample photo

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Mais Resenhas de Van Der Graaf Generator

Album Cover

Van Der Graaf Generator - The Least We Can Do Is Wave To Each Other (1970)

O primeiro grande disco da Van der Graaf Generator
4.5
Por: Tiago Meneses
18/04/2018
Album Cover

Van Der Graaf Generator - Godbluff (1975)

O suprassumo da criatividade de Hammill e companhia.
5
Por: Tiago Meneses
04/10/2017
Album Cover

Van Der Graaf Generator - Still Life (1976)

Composições complexas, porém, melódicas e fáceis de serem desfrutadas.
5
Por: Tiago Meneses
23/06/2018

Quer Mais?

Veja as nossas recomendações:

Album Cover

Björk - Biophilia (2011)

Música Como Aplicativo
4.5
Por: Roberto Rillo Bíscaro
30/09/2018
Album Cover

Agitation Free - Malesch (1972)

Um bom disco de esculturas sonoras abstratas, embora razoavelmente acessíveis
3
Por: Tiago Meneses
29/05/2018
Album Cover

Radiohead - OK Computer (1997)

O álbum flui bem, mas sem trilhas memoráveis suficientes para ser um clássico
3
Por: Tiago Meneses
30/01/2019