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Resenha: Yes - Tales From Topographic Oceans (1973)

Por: Tiago Meneses

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Excessivo, exagerado, longo, mas musicalmente agradável.
3.5
25/10/2017

Ambicioso? Pretensioso? Controverso? Qualquer pessoa que tenha lido resenhas ou mesmo comentários envolvendo este disco já deve ter visto estes e mais alguns outros predicados o acompanhando. Mas se o disco consegue dividir até mesmo membros da banda entre gostar ou não (um dos motivos da saída de Rick Wakeman após esse álbum é justamente as tendências musicais que a banda estava seguindo), imagina os fãs. Realmente se trata de um disco excessivo, exagerado, longo e tudo mais, mas ainda assim, consegue ser musicalmente bastante agradável.

O disco é conceitual e gira entorno do autoconhecimento como meio para se chegar à plenitude espiritual. A ideia de Anderson surgiu com base em uma longa nota de roda pé do livro, “Autobiografia de um Iogue”, escrito pelo iogue e guru Paramahansa Yogananda no ano de 1946 e que diz:

“Pertencente aos shastras, literalmente, “livros sagrados”, compreendendo quatro classes de escrituras: “shrútí, smáti, purâna e tântra. Estes tratados abrangem todos os aspectos da vida religiosa e social, os campos do direito, medicina, arquitetura, arte, etc. Os shrútis são os Vedas, escrituras “diretamente ouvidas” ou “reveladas”. Smátis ou lendas “rememoradas”vieram a ser escritas num passado remoto, sob a forma do mais longo dos poemas épicos, o Mnhábhárata e o Ramayâna. Os dezoito Purânas são, ao pé da letra, “alegorias antigas”; tântras literalmente significam “ritos”ou “rituais”: estes tratados transmitem verdades profundas sob o véu de um minucioso simbolismo.”

O livro é facilmente encontrado na internet para ser lido online. A ideia é cada uma das faixas simbolizar uma destas quatro escrituras. Suas letras não são fáceis assim como sua música é desafiadora. Tales From Topographic Oceans é um disco que requer um pouco mais de tempo que os demais discos da banda para formar uma opinião a respeito, com isso, muitas vezes a falta de paciência e do estado de espirito certo de muitos o fazem larga-lo precocemente. É muita coisa apenas pra ouvir um disco? Sim, mas às vezes é assim que as coisas funcionam. 

Não sei exatamente se a palavra acessível seja a mais apropriada, mas se for dar esse título a uma música, sem dúvida alguma seria para a faixa de abertura, “The Revealing Science Of God”. Interessante também é adquirir a edição expandida e remasterizada do álbum, pois traz uma versão com dois minutos a mais que não apareceu na versão original do álbum. “The Revealing Science Of God” possui muitas seções diferentes que variam entre suave e mais agitadas, belas e inesquecíveis melodias, Jon explora alguns conceitos líricos selvagens, mas se você usar uma mente aberta, você pode desenvolver o seu próprio significado em suas palavras. É uma espécie de letra de vanguarda capaz de capturar o ouvinte através da imaginação. Steve Howe faz um exímio trabalho de guitarra e Rick Wakeman cria uma maravilhosa atmosfera de apoio antes de “atacar” com um dos seus mais bem feitos trabalhos de sintetizadores. Uma música de clímax fantástico. 

A segunda faixa é “The Remembering”. Eu a considero certamente uma das mais complexas músicas do progressivo 70’s. Possui uma estrutura incrível, tecnicidade e letras lindamente trabalhadas que me faz imaginar uma linda paisagem como a que estampa a capa do disco. Curioso como enquanto Wakeman diz abertamente que não gostou deste álbum, algumas de suas melhores ideias estão aqui. Existem alguns sons muito bons de teclados em oposição a outros de certa forma cafona encontrado em discos posteriores. A faixa leva um pouco de tempo para engrenar, mas depois ganha impulso. Raramente o Yes empregou um som medieval como Gentle Giant ou Genesis com tanta frequência, mas os sintetizadores semelhantes a instrumentos de sopro e a guitarra elétrica de doze cordas de Howe dão exatamente essa sensação. Algumas progressões de acordes lembram-me um pouco de “And You and I”. O meio do épico é composto por um arranjo de guitarra acústica otimizado e em sua maior parte, Howe assume o papel de apoio, mas ainda assim conseguindo se destacar. As linhas de baixo também são magnificas e Alan White segura a bateria durante toda a faixa de maneira precisa.

“The Ancient” é sem dúvida alguma a faixa mais vanguardista não apenas do disco, mas da banda em geral. O começo bastante caótico através de uma percussão primitiva, o mellotron é excelente e acrescenta muito a música. Às vezes mais parece que estamos ouvindo King Crimson do que Yes. Depois dessa “confusão”, Anderson entra com os primeiros vocais em que começa a contar os diferentes nomes dados ao sol por civilizações antigas. A faixa começa a parecer uma sinfonia. Mais difícil que as demais, as ideias instrumentais são muito boas e possui uma colagem de guitarra de vanguarda excelente. Teclados, baixo e bateria também fazem seus papeis dignamente, mas o que de fato aumenta a qualidade desta música é a parte acústica que se inicia nos seus seis minutos finais e que é acompanhada pelos vocais de Anderson e Squire que cantam em harmonia. 

“The Ritual” é a faixa mais tipicamente com a cara da banda entre os quatro épicos do disco. No que diz respeito a contribuição de Squire é onde ela é mais forte. Mas toda a banda trabalha de maneira não menos que incrível e toda a instrumentação é feita com perfeição. Um pequeno solo de guitarra por volta de 4:25 nos remete ao mesmo encontrado na introdução de Close to the Edge por volta de 2:59. Seus primeiros dez minutos ao mesmo tempo em que são obscuros também conseguem ser bastante claros. Costumo não gostar de solo de bateria, mas aqui Alan White não o executa necessariamente de forma 100% isolada, mas sobre uma atmosfera meio orquestral que não faz o ouvinte sentir tédio e agrega perfeitamente no conceito da música. Uma faixa de emoções forte que se encerra com mais um brilhante solo de Howe em uma instrumentação extremamente pesada. 

Costumo definir Tales From Topographic Oceans de uma maneira curiosa, digo que se trata de uma obra-prima defeituosa, afinal, se para carregar tal “patente” o álbum necessita ser perfeito, ele falha miseravelmente, mas se a intenção da arte é a de ser ambiciosa a ponto de chegar além do alcance natural, então o resultado não poderia ter sido melhor. Não creio que uma obra desta proporção tenha que receber em um comentário algo inferior a muito bom, unicamente por conta de ser de certa forma um disco com mais avidez que os demais. 

Excessivo, exagerado, longo, mas musicalmente agradável.
3.5
25/10/2017

Ambicioso? Pretensioso? Controverso? Qualquer pessoa que tenha lido resenhas ou mesmo comentários envolvendo este disco já deve ter visto estes e mais alguns outros predicados o acompanhando. Mas se o disco consegue dividir até mesmo membros da banda entre gostar ou não (um dos motivos da saída de Rick Wakeman após esse álbum é justamente as tendências musicais que a banda estava seguindo), imagina os fãs. Realmente se trata de um disco excessivo, exagerado, longo e tudo mais, mas ainda assim, consegue ser musicalmente bastante agradável.

O disco é conceitual e gira entorno do autoconhecimento como meio para se chegar à plenitude espiritual. A ideia de Anderson surgiu com base em uma longa nota de roda pé do livro, “Autobiografia de um Iogue”, escrito pelo iogue e guru Paramahansa Yogananda no ano de 1946 e que diz:

“Pertencente aos shastras, literalmente, “livros sagrados”, compreendendo quatro classes de escrituras: “shrútí, smáti, purâna e tântra. Estes tratados abrangem todos os aspectos da vida religiosa e social, os campos do direito, medicina, arquitetura, arte, etc. Os shrútis são os Vedas, escrituras “diretamente ouvidas” ou “reveladas”. Smátis ou lendas “rememoradas”vieram a ser escritas num passado remoto, sob a forma do mais longo dos poemas épicos, o Mnhábhárata e o Ramayâna. Os dezoito Purânas são, ao pé da letra, “alegorias antigas”; tântras literalmente significam “ritos”ou “rituais”: estes tratados transmitem verdades profundas sob o véu de um minucioso simbolismo.”

O livro é facilmente encontrado na internet para ser lido online. A ideia é cada uma das faixas simbolizar uma destas quatro escrituras. Suas letras não são fáceis assim como sua música é desafiadora. Tales From Topographic Oceans é um disco que requer um pouco mais de tempo que os demais discos da banda para formar uma opinião a respeito, com isso, muitas vezes a falta de paciência e do estado de espirito certo de muitos o fazem larga-lo precocemente. É muita coisa apenas pra ouvir um disco? Sim, mas às vezes é assim que as coisas funcionam. 

Não sei exatamente se a palavra acessível seja a mais apropriada, mas se for dar esse título a uma música, sem dúvida alguma seria para a faixa de abertura, “The Revealing Science Of God”. Interessante também é adquirir a edição expandida e remasterizada do álbum, pois traz uma versão com dois minutos a mais que não apareceu na versão original do álbum. “The Revealing Science Of God” possui muitas seções diferentes que variam entre suave e mais agitadas, belas e inesquecíveis melodias, Jon explora alguns conceitos líricos selvagens, mas se você usar uma mente aberta, você pode desenvolver o seu próprio significado em suas palavras. É uma espécie de letra de vanguarda capaz de capturar o ouvinte através da imaginação. Steve Howe faz um exímio trabalho de guitarra e Rick Wakeman cria uma maravilhosa atmosfera de apoio antes de “atacar” com um dos seus mais bem feitos trabalhos de sintetizadores. Uma música de clímax fantástico. 

A segunda faixa é “The Remembering”. Eu a considero certamente uma das mais complexas músicas do progressivo 70’s. Possui uma estrutura incrível, tecnicidade e letras lindamente trabalhadas que me faz imaginar uma linda paisagem como a que estampa a capa do disco. Curioso como enquanto Wakeman diz abertamente que não gostou deste álbum, algumas de suas melhores ideias estão aqui. Existem alguns sons muito bons de teclados em oposição a outros de certa forma cafona encontrado em discos posteriores. A faixa leva um pouco de tempo para engrenar, mas depois ganha impulso. Raramente o Yes empregou um som medieval como Gentle Giant ou Genesis com tanta frequência, mas os sintetizadores semelhantes a instrumentos de sopro e a guitarra elétrica de doze cordas de Howe dão exatamente essa sensação. Algumas progressões de acordes lembram-me um pouco de “And You and I”. O meio do épico é composto por um arranjo de guitarra acústica otimizado e em sua maior parte, Howe assume o papel de apoio, mas ainda assim conseguindo se destacar. As linhas de baixo também são magnificas e Alan White segura a bateria durante toda a faixa de maneira precisa.

“The Ancient” é sem dúvida alguma a faixa mais vanguardista não apenas do disco, mas da banda em geral. O começo bastante caótico através de uma percussão primitiva, o mellotron é excelente e acrescenta muito a música. Às vezes mais parece que estamos ouvindo King Crimson do que Yes. Depois dessa “confusão”, Anderson entra com os primeiros vocais em que começa a contar os diferentes nomes dados ao sol por civilizações antigas. A faixa começa a parecer uma sinfonia. Mais difícil que as demais, as ideias instrumentais são muito boas e possui uma colagem de guitarra de vanguarda excelente. Teclados, baixo e bateria também fazem seus papeis dignamente, mas o que de fato aumenta a qualidade desta música é a parte acústica que se inicia nos seus seis minutos finais e que é acompanhada pelos vocais de Anderson e Squire que cantam em harmonia. 

“The Ritual” é a faixa mais tipicamente com a cara da banda entre os quatro épicos do disco. No que diz respeito a contribuição de Squire é onde ela é mais forte. Mas toda a banda trabalha de maneira não menos que incrível e toda a instrumentação é feita com perfeição. Um pequeno solo de guitarra por volta de 4:25 nos remete ao mesmo encontrado na introdução de Close to the Edge por volta de 2:59. Seus primeiros dez minutos ao mesmo tempo em que são obscuros também conseguem ser bastante claros. Costumo não gostar de solo de bateria, mas aqui Alan White não o executa necessariamente de forma 100% isolada, mas sobre uma atmosfera meio orquestral que não faz o ouvinte sentir tédio e agrega perfeitamente no conceito da música. Uma faixa de emoções forte que se encerra com mais um brilhante solo de Howe em uma instrumentação extremamente pesada. 

Costumo definir Tales From Topographic Oceans de uma maneira curiosa, digo que se trata de uma obra-prima defeituosa, afinal, se para carregar tal “patente” o álbum necessita ser perfeito, ele falha miseravelmente, mas se a intenção da arte é a de ser ambiciosa a ponto de chegar além do alcance natural, então o resultado não poderia ter sido melhor. Não creio que uma obra desta proporção tenha que receber em um comentário algo inferior a muito bom, unicamente por conta de ser de certa forma um disco com mais avidez que os demais. 

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