Bem-vindo ao 80 Minutos

Nós amamos música e adoramos compartilhar nossas avaliações sobre os álbuns de nossas bandas favoritas.

  • Últimas Notas de Rock Bottom
  • Últimos Álbuns Votados de Robert Wyatt
  • Album Cover
    Rock Bottom (1971)

    5 Por: Tiago Meneses

Resenha: Robert Wyatt - Rock Bottom (1971)

Por: Tiago Meneses

Acessos: 183

Compartilhar:

Facebook Twitter Google +
User Photo
Album Cover
Um dos discos mais importantes da cena de Canterbury
5
22/10/2017

Era dia primeiro de Junho de 1973, uma sexta feira quando o ex baterista da Wild Flowers, Soft Machine e naquele ano fazia parte da Matching Mole, Robert Wyatt, durante uma festa caiu da janela do terceiro andar enquanto estava bêbado. Os ferimentos sofridos por ele foram bastante graves e que fez com que se tornasse paraplégico, fazendo com que ficasse pra sempre ligado a uma cadeira de rodas.

Esse disco foi o resultado de sua recuperação no hospital e é uma obra prima do início ao fim. Tem convidados com nomes de peso como Mike Oldfield, Richard Sinclair e Hugh Hopper. Um disco que poderia ter sido um fracasso, mas passou bastante longe disso, sendo uma grande incisão musical não apenas para o universo progressivo como na música em geral, deixando Robert Wyatt bastante respeitado em todo o mundo.

A primeira faixa é “Sea Song”, uma trilha bastante sentida. A voz de Wyatt (como ao longo de todo o álbum) é de uma sonoridade carregada de desespero e muito delicada, se adaptando perfeitamente ao clima. Tem grandes passagens instrumentais, intercaladas com um piano de estilo bastante vanguardista interpretado pelo próprio Wyatt. Basicamente se apresenta sozinho nessa faixa, com exceção de Richard Sinclair no baixo. Um som extremamente atrativo e que prende do início ao fim.

“A Last Straw” é uma faixa mais jazz, com um som de baixo muito bom e mais uma vez a voz, piano e sintetizador assim como em “Sea Song” são dominantes. Novamente os vocais são lindos e em determinado momento uma guitarra etérea é encaixada ao fundo, aumentando mais as camadas de sons dessa faixa. Possui também um restrito e delicado solo. A música termina apenas com uma sutil descida por teclas de piano, mas é bastante pungente e memorável.

“Little Red Riding Hood Hit the Road” digamos que o que podemos chamar de diversão começa a partir dessa faixa. Inicia-se com uma trombeta que cria um som meio surreal. Tem presença constante de baixo e piano, além em uma boa batida. Como foi uma faixa escrita após o acidente e durante o período hospitalizado, fala sobre o seu tempo nessa condição. É um trabalho bastante único. Com a trombeta continuando no que parece um estranho loop, essa faixa termina de maneira excelente, com um baixo proeminente de Richard Sinclair. Infelizmente o trompetista na faixa, Mongezi Feza, morreu de pneumonia pouco depois do lançamento do disco, deixando essa música ainda mais comovente.

“Alifib” é uma faixa que digamos assim, anda de mãos dadas com “Alife” e é muito simbólica no melhor sentido da palavra. Wyatt no início da faixa chama a Alife de maneira desesperadora e perturbadora, o que claro, é exatamente a intenção. Tem uma ótima introdução no teclado que embora seja simples, constrói a atmosfera exata para o que está por vir. O suave canto continua quando o teclado de Wyatt aparece acompanhado de um solo de baixo simplesmente sensacional por parte de Hugh Hopper, provavelmente o melhor trabalho feito em qualquer música de sua carreira. O solo vai ficando cada vez mais intenso a mediada que a faixa continua, a deixando mais interessante e invasiva ao cérebro. A linha dele segue com alguns vocais perturbadores, teclado muito interessante e baixo lindo. Provavelmente esta e a próxima faixa sejam as mais difíceis para cair nas graças dos não “vacinados” nesse tipo de som. Isto é Wyatt no seu melhor absoluto.

“Alife” continua direto de onde “Alifib” terminou, com o seguimento quase inabalável. Possui uma bateria estilo bongo que é constante durante toda a faixa e o habitual piano. Gary Windo brilha no saxofone criando uma sensação obscura e desesperada, podendo também ser bastante perturbadora se o ouvinte não estiver bem consigo mesmo. Os vocais continuam a partir da faixa anterior, além de possuir letras extravagantes, sem significados, mas pra mim, ainda assim atraentes. Uma das coisas bem engenhosas dessa faixa é o fato de que as letras são exatamente as mesmas da anterior, mas cantadas de uma maneira diferente, algo bastante proposital e importante. A faixa vai se deslocando, atravessando uma grande atmosfera onde um dos principais responsáveis são os viciantes saxofones, tocados com raiva fazendo o ouvinte sentir uma carga bastante pesada em seus ombros. Uma faixa muito emocional e às vezes desoladora, cheia de desespero, raiva e alívio.

"Little Red Robin Hood Hit the Road" tem a participação de Mike Oldfield. Logo no início o multi-instrumentista toca uma guitarra da sua maneira distintiva. Ótimas linhas de baixo e uma bateria que cresce com o tempo também compõem muito bem a faixa. O voz de Wyatt parece está um pouco mais atrás dos instrumentos como nas músicas anteriores, mas é algo que não chega a ser um problema, funciona muito bem e novamente criando uma faixa perturbadora. Tudo por sua vez desacelera e ouvimos o início do concertinho de Ivor Cutler e então começam seus vocais de palavras muito distintas. Fred Frith engrandece a música com um violino sobre a concertina deixando a faixa ainda mais maravilhosa. A faixa e o álbum terminam com uma pequena risada de Cutler.

Um clássico instantâneo 100% recomendado a todos aqueles já familiarizados e cientes da produção de Robert Wyatt com a Soft Machine e Matching Mole, mas também para aqueles interessados em algo diferente. Um disco que uma vez chegado ao fim, às vezes sentimos um pouco vazio por dentro. E para mim em especial, sinto que acabei de testemunhar algo muito especial. 

Um dos discos mais importantes da cena de Canterbury
5
22/10/2017

Era dia primeiro de Junho de 1973, uma sexta feira quando o ex baterista da Wild Flowers, Soft Machine e naquele ano fazia parte da Matching Mole, Robert Wyatt, durante uma festa caiu da janela do terceiro andar enquanto estava bêbado. Os ferimentos sofridos por ele foram bastante graves e que fez com que se tornasse paraplégico, fazendo com que ficasse pra sempre ligado a uma cadeira de rodas.

Esse disco foi o resultado de sua recuperação no hospital e é uma obra prima do início ao fim. Tem convidados com nomes de peso como Mike Oldfield, Richard Sinclair e Hugh Hopper. Um disco que poderia ter sido um fracasso, mas passou bastante longe disso, sendo uma grande incisão musical não apenas para o universo progressivo como na música em geral, deixando Robert Wyatt bastante respeitado em todo o mundo.

A primeira faixa é “Sea Song”, uma trilha bastante sentida. A voz de Wyatt (como ao longo de todo o álbum) é de uma sonoridade carregada de desespero e muito delicada, se adaptando perfeitamente ao clima. Tem grandes passagens instrumentais, intercaladas com um piano de estilo bastante vanguardista interpretado pelo próprio Wyatt. Basicamente se apresenta sozinho nessa faixa, com exceção de Richard Sinclair no baixo. Um som extremamente atrativo e que prende do início ao fim.

“A Last Straw” é uma faixa mais jazz, com um som de baixo muito bom e mais uma vez a voz, piano e sintetizador assim como em “Sea Song” são dominantes. Novamente os vocais são lindos e em determinado momento uma guitarra etérea é encaixada ao fundo, aumentando mais as camadas de sons dessa faixa. Possui também um restrito e delicado solo. A música termina apenas com uma sutil descida por teclas de piano, mas é bastante pungente e memorável.

“Little Red Riding Hood Hit the Road” digamos que o que podemos chamar de diversão começa a partir dessa faixa. Inicia-se com uma trombeta que cria um som meio surreal. Tem presença constante de baixo e piano, além em uma boa batida. Como foi uma faixa escrita após o acidente e durante o período hospitalizado, fala sobre o seu tempo nessa condição. É um trabalho bastante único. Com a trombeta continuando no que parece um estranho loop, essa faixa termina de maneira excelente, com um baixo proeminente de Richard Sinclair. Infelizmente o trompetista na faixa, Mongezi Feza, morreu de pneumonia pouco depois do lançamento do disco, deixando essa música ainda mais comovente.

“Alifib” é uma faixa que digamos assim, anda de mãos dadas com “Alife” e é muito simbólica no melhor sentido da palavra. Wyatt no início da faixa chama a Alife de maneira desesperadora e perturbadora, o que claro, é exatamente a intenção. Tem uma ótima introdução no teclado que embora seja simples, constrói a atmosfera exata para o que está por vir. O suave canto continua quando o teclado de Wyatt aparece acompanhado de um solo de baixo simplesmente sensacional por parte de Hugh Hopper, provavelmente o melhor trabalho feito em qualquer música de sua carreira. O solo vai ficando cada vez mais intenso a mediada que a faixa continua, a deixando mais interessante e invasiva ao cérebro. A linha dele segue com alguns vocais perturbadores, teclado muito interessante e baixo lindo. Provavelmente esta e a próxima faixa sejam as mais difíceis para cair nas graças dos não “vacinados” nesse tipo de som. Isto é Wyatt no seu melhor absoluto.

“Alife” continua direto de onde “Alifib” terminou, com o seguimento quase inabalável. Possui uma bateria estilo bongo que é constante durante toda a faixa e o habitual piano. Gary Windo brilha no saxofone criando uma sensação obscura e desesperada, podendo também ser bastante perturbadora se o ouvinte não estiver bem consigo mesmo. Os vocais continuam a partir da faixa anterior, além de possuir letras extravagantes, sem significados, mas pra mim, ainda assim atraentes. Uma das coisas bem engenhosas dessa faixa é o fato de que as letras são exatamente as mesmas da anterior, mas cantadas de uma maneira diferente, algo bastante proposital e importante. A faixa vai se deslocando, atravessando uma grande atmosfera onde um dos principais responsáveis são os viciantes saxofones, tocados com raiva fazendo o ouvinte sentir uma carga bastante pesada em seus ombros. Uma faixa muito emocional e às vezes desoladora, cheia de desespero, raiva e alívio.

"Little Red Robin Hood Hit the Road" tem a participação de Mike Oldfield. Logo no início o multi-instrumentista toca uma guitarra da sua maneira distintiva. Ótimas linhas de baixo e uma bateria que cresce com o tempo também compõem muito bem a faixa. O voz de Wyatt parece está um pouco mais atrás dos instrumentos como nas músicas anteriores, mas é algo que não chega a ser um problema, funciona muito bem e novamente criando uma faixa perturbadora. Tudo por sua vez desacelera e ouvimos o início do concertinho de Ivor Cutler e então começam seus vocais de palavras muito distintas. Fred Frith engrandece a música com um violino sobre a concertina deixando a faixa ainda mais maravilhosa. A faixa e o álbum terminam com uma pequena risada de Cutler.

Um clássico instantâneo 100% recomendado a todos aqueles já familiarizados e cientes da produção de Robert Wyatt com a Soft Machine e Matching Mole, mas também para aqueles interessados em algo diferente. Um disco que uma vez chegado ao fim, às vezes sentimos um pouco vazio por dentro. E para mim em especial, sinto que acabei de testemunhar algo muito especial. 

Sample photo

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Quer Mais?

Veja as nossas recomendações:

Album Cover

Miles Davis - The Man With The Horn (1981)

Disco que marca a volta de Miles ao cenário musical
3.5
Por: Márcio Chagas
23/06/2018
Album Cover

Return to Forever - Romantic Warrior (1976)

Disco de música forte, bem tocada e que se tornou um clássico instantâneo
5
Por: Tiago Meneses
01/08/2018
Album Cover

Mahavishnu Orchestra - Visions Of The Emerald Beyond (1975)

Beleza mística combinada entre jazz, rock e clássico.
4.5
Por: Tiago Meneses
08/10/2017