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Resenha: Genesis - Foxtrot (1972)

Por: Tiago Meneses

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A formação clássica em uma interação poderosa.
5
15/10/2017

Uma obra prima e um dos discos mais significativos da história de um dos nomes com mais peso do rock progressivo. Foxtrot foi um dos principais responsáveis em ampliar meu gosto musical além do hard rock. Ainda que não possa ser visto como o disco mais importante, contém a música mais importante da história da banda. A formação clássica em uma interação poderosa fazendo músicas que definem um gênero. 

Existe uma variedade no conceito encontrado no álbum que vão entre as linhas de letras medievais se intercalando com músicas de temáticas futuristas. Mas tem o seu auge na suíte final que é dividida em sete seções e conta a história de dois amantes que viajam para mundos estranhos, eventualmente retornando ao seu mundo apenas para testemunhar o Apocalipse. Essencialmente, é uma história de bem versus mal, com algumas partes surrealistas e muitas referências bíblicas e literárias.

Para a banda era muito importante saber como seria recebido o álbum que sucederia Nursery Cryme. Ao tocar regularmente em clubes e outros locais menores, a banda conseguiu construir um pequeno grupo de seguidores na Inglaterra, seu país de origem. Especialmente quando tocavam no Friar's Club em Aylesbury, onde se sentiam como se estivesse em casa. Curiosamente, porém, essa atenção que obtiveram não foi nada em comparação com sua popularidade em países como a Bélgica e Itália, tanto que sem nunca ter tocado lá, a banda alcançou a primeira posição com um hit do seu segundo álbum, Trespass, enquanto que Nursery Cryme alcançou o número quatro nas paradas italianas. Quando eles finalmente viajaram por esses países para fazer alguns shows, a banda ficou surpresa ao descobrir o quanto eram reverenciados. Esta experiência aumentou suficientemente a confiança do grupo quando posteriormente foram ao estúdio para gravar o Foxtrot.

Em relação à capa, eu sempre senti que Nursery Cryme e Foxtrot, tinham de certa forma uma ligação. A atmosfera similar que esses dois álbuns têm, é refletida na semelhança entre suas capas e até mesmo amplificada pelo fato de que a capa de Nursery Cryme pode ser vista na parte de trás do Foxtrot. Os dois apresentam pinturas surrealistas de Paul Whitehead, que também foi responsável pela capa de Trespass, e ambos são pintados no mesmo estilo. Ainda assim, os produtores e engenheiros envolvidos na criação dos dois registros não são os mesmos, por isso, essa impressão de ligação deve ter sido mais pela química especial entre os membros da banda e obviamente responsáveis por esse som semelhante.

O álbum começa com a faixa, “Watcher of the Skies”. Logo de cara a banda vai agraciando o ouvinte com um poder majestoso do mellotron de Tony Banks, seguido por um órgão que dá um clima existente em catedral e que é servido como cama para que a bateria de Collins deite e vá subindo o tom, trazendo consigo, os primeiros acordes do baixo de Rutherford. A guitarra elétrica de Steve Hackett sempre soando de maneira inimitável, acrescenta os elementos basicamente essenciais da canção. Peter Gabriel aborda apaixonadamente um Deus obsoleto cuja criação humana o ultrapassou e não precisa mais dele.

A segunda faixa é “Table Time”, oferece um excelente piano de Banks, letras verdadeiramente poéticas e se cadencia como uma espécie de interlúdio em relação ao “mini épico” que vem em seguida através de “Get 'Em Out by Friday”. Esta se trata de uma mini “opera prog”, um verdadeiro exemplo do porque do Genesis ser de um dos suprassumos em relação ao gênero e ainda hoje influencia infinitas bandas da vertente sinfônica que vão surgindo. Gabriel encarna mais de um papel pra contar um conto de um futuro orwelliano sombrio onde um governo todo poderoso controla todos os aspectos em que seus cidadãos vivem. Tudo isso sobre uma peça instrumental que é um verdadeiro deleite.

Provavelmente a faixa mais esquecida entre até mesmo os amantes de Foxtrot trata-se da belíssima, “Can-Utility and the Coastliners”. A letra conta a história do rei medieval inglês, Canuto, que, a lenda diz, tentou comandar as marés, só para aprender os limites de seu poder terreno, e a loucura de seu orgulho. É impressionante como que em pouco menos de seis minutos uma música consegue mudar de maneira tão suave tantas vezes a sua forma. Exímios trabalhos de guitarra e teclado, bateria e baixo em um casamento soberbo. Uma canção de atmosfera fantástica. O que vem em seguida através de “Horizons” pode ser visto somente como uma pequena ponta de menos de dois minutos antes do épico que irá fechar o álbum, mas ainda assim não tem como passar despercebida a atmosfera criada pelo bom gosto das notas da guitarra de Steve Hackett.

“Supper's Ready” marca o ponto final de Foxtrot  e que é considerada por muitos o ápice criativo musical da banda. Esse épico de 23 minutos traz letras inteligentes e desafiadoras, todos os músicos executando suas funções de maneira inspiradora e nunca vistas antes, nos fazendo viajar por emoções variadas por cada um dos capítulos da faixa. Como dito inicialmente, a música é dividida em sete partes. Trata-se de uma das suítes mais auditivas de sempre, nunca ficando chata ou repetitiva para o ouvinte, mesmo a ouvindo seguidamente e várias vezes. Na verdade, novos elementos, sons e referências são encontrados em cada nova audição. A mistura de virtuosismo instrumental, imprevisibilidade e melodias cativantes é absolutamente surpreendente. Se você procura o rock progressivo oferecendo tudo que existe nele em apenas uma música, “Supper's Ready” é provavelmente a melhor opção . Passagens rápidas, lentas, pesadas, suaves, movimentos acústico e elétricos, folk, balada, utilização de tempos incomuns e instrumentais de alta energia, sim, essa música consegue ter tudo isso. A música encapsula tudo que de maior a banda tinha a oferecer durante esta era, uma espécie de obra labiríntica. Capítulo por capítulo, nunca faz algo que não vale completa atenção. É fato que o Genesis certamente dominou a arte de contar histórias com música, embora muitas das letras sejam claramente mais próximas da poesia do que da prosa. Dentro de toda a suíte, há várias seções que poderiam ter sido arrancadas e apresentadas como singles, mas felizmente isso não foi feito. "Suppers Ready" precisava ser criada com toda a sua grandeza pra ser saboreada na forma de um épico histórico. Falando de dois momentos em especial, não houveram tantos na história do rock que vejo de maneira tão tensa e emocionante como a seção "Apocalipse in 9/8", ou como a imaginativa e excêntrica "Willow Farm". Uma música perfeita e ainda hoje emblemática. 

Foxtrot é um disco que prova o porquê do Genesis ser uma das bandas mais influentes da história do rock progressivo sinfônico e não parar de servir de inspiração pra outras infinitas que surgem todos os anos.

A formação clássica em uma interação poderosa.
5
15/10/2017

Uma obra prima e um dos discos mais significativos da história de um dos nomes com mais peso do rock progressivo. Foxtrot foi um dos principais responsáveis em ampliar meu gosto musical além do hard rock. Ainda que não possa ser visto como o disco mais importante, contém a música mais importante da história da banda. A formação clássica em uma interação poderosa fazendo músicas que definem um gênero. 

Existe uma variedade no conceito encontrado no álbum que vão entre as linhas de letras medievais se intercalando com músicas de temáticas futuristas. Mas tem o seu auge na suíte final que é dividida em sete seções e conta a história de dois amantes que viajam para mundos estranhos, eventualmente retornando ao seu mundo apenas para testemunhar o Apocalipse. Essencialmente, é uma história de bem versus mal, com algumas partes surrealistas e muitas referências bíblicas e literárias.

Para a banda era muito importante saber como seria recebido o álbum que sucederia Nursery Cryme. Ao tocar regularmente em clubes e outros locais menores, a banda conseguiu construir um pequeno grupo de seguidores na Inglaterra, seu país de origem. Especialmente quando tocavam no Friar's Club em Aylesbury, onde se sentiam como se estivesse em casa. Curiosamente, porém, essa atenção que obtiveram não foi nada em comparação com sua popularidade em países como a Bélgica e Itália, tanto que sem nunca ter tocado lá, a banda alcançou a primeira posição com um hit do seu segundo álbum, Trespass, enquanto que Nursery Cryme alcançou o número quatro nas paradas italianas. Quando eles finalmente viajaram por esses países para fazer alguns shows, a banda ficou surpresa ao descobrir o quanto eram reverenciados. Esta experiência aumentou suficientemente a confiança do grupo quando posteriormente foram ao estúdio para gravar o Foxtrot.

Em relação à capa, eu sempre senti que Nursery Cryme e Foxtrot, tinham de certa forma uma ligação. A atmosfera similar que esses dois álbuns têm, é refletida na semelhança entre suas capas e até mesmo amplificada pelo fato de que a capa de Nursery Cryme pode ser vista na parte de trás do Foxtrot. Os dois apresentam pinturas surrealistas de Paul Whitehead, que também foi responsável pela capa de Trespass, e ambos são pintados no mesmo estilo. Ainda assim, os produtores e engenheiros envolvidos na criação dos dois registros não são os mesmos, por isso, essa impressão de ligação deve ter sido mais pela química especial entre os membros da banda e obviamente responsáveis por esse som semelhante.

O álbum começa com a faixa, “Watcher of the Skies”. Logo de cara a banda vai agraciando o ouvinte com um poder majestoso do mellotron de Tony Banks, seguido por um órgão que dá um clima existente em catedral e que é servido como cama para que a bateria de Collins deite e vá subindo o tom, trazendo consigo, os primeiros acordes do baixo de Rutherford. A guitarra elétrica de Steve Hackett sempre soando de maneira inimitável, acrescenta os elementos basicamente essenciais da canção. Peter Gabriel aborda apaixonadamente um Deus obsoleto cuja criação humana o ultrapassou e não precisa mais dele.

A segunda faixa é “Table Time”, oferece um excelente piano de Banks, letras verdadeiramente poéticas e se cadencia como uma espécie de interlúdio em relação ao “mini épico” que vem em seguida através de “Get 'Em Out by Friday”. Esta se trata de uma mini “opera prog”, um verdadeiro exemplo do porque do Genesis ser de um dos suprassumos em relação ao gênero e ainda hoje influencia infinitas bandas da vertente sinfônica que vão surgindo. Gabriel encarna mais de um papel pra contar um conto de um futuro orwelliano sombrio onde um governo todo poderoso controla todos os aspectos em que seus cidadãos vivem. Tudo isso sobre uma peça instrumental que é um verdadeiro deleite.

Provavelmente a faixa mais esquecida entre até mesmo os amantes de Foxtrot trata-se da belíssima, “Can-Utility and the Coastliners”. A letra conta a história do rei medieval inglês, Canuto, que, a lenda diz, tentou comandar as marés, só para aprender os limites de seu poder terreno, e a loucura de seu orgulho. É impressionante como que em pouco menos de seis minutos uma música consegue mudar de maneira tão suave tantas vezes a sua forma. Exímios trabalhos de guitarra e teclado, bateria e baixo em um casamento soberbo. Uma canção de atmosfera fantástica. O que vem em seguida através de “Horizons” pode ser visto somente como uma pequena ponta de menos de dois minutos antes do épico que irá fechar o álbum, mas ainda assim não tem como passar despercebida a atmosfera criada pelo bom gosto das notas da guitarra de Steve Hackett.

“Supper's Ready” marca o ponto final de Foxtrot  e que é considerada por muitos o ápice criativo musical da banda. Esse épico de 23 minutos traz letras inteligentes e desafiadoras, todos os músicos executando suas funções de maneira inspiradora e nunca vistas antes, nos fazendo viajar por emoções variadas por cada um dos capítulos da faixa. Como dito inicialmente, a música é dividida em sete partes. Trata-se de uma das suítes mais auditivas de sempre, nunca ficando chata ou repetitiva para o ouvinte, mesmo a ouvindo seguidamente e várias vezes. Na verdade, novos elementos, sons e referências são encontrados em cada nova audição. A mistura de virtuosismo instrumental, imprevisibilidade e melodias cativantes é absolutamente surpreendente. Se você procura o rock progressivo oferecendo tudo que existe nele em apenas uma música, “Supper's Ready” é provavelmente a melhor opção . Passagens rápidas, lentas, pesadas, suaves, movimentos acústico e elétricos, folk, balada, utilização de tempos incomuns e instrumentais de alta energia, sim, essa música consegue ter tudo isso. A música encapsula tudo que de maior a banda tinha a oferecer durante esta era, uma espécie de obra labiríntica. Capítulo por capítulo, nunca faz algo que não vale completa atenção. É fato que o Genesis certamente dominou a arte de contar histórias com música, embora muitas das letras sejam claramente mais próximas da poesia do que da prosa. Dentro de toda a suíte, há várias seções que poderiam ter sido arrancadas e apresentadas como singles, mas felizmente isso não foi feito. "Suppers Ready" precisava ser criada com toda a sua grandeza pra ser saboreada na forma de um épico histórico. Falando de dois momentos em especial, não houveram tantos na história do rock que vejo de maneira tão tensa e emocionante como a seção "Apocalipse in 9/8", ou como a imaginativa e excêntrica "Willow Farm". Uma música perfeita e ainda hoje emblemática. 

Foxtrot é um disco que prova o porquê do Genesis ser uma das bandas mais influentes da história do rock progressivo sinfônico e não parar de servir de inspiração pra outras infinitas que surgem todos os anos.

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