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Resenha: Peter Gabriel - Peter Gabriel (Scratch) (1978)

Por: Márcio Chagas

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O álbum mais obscuro, depressivo e genial de Mr. Gabriel.
4.5
09/09/2019

O segundo álbum de Peter Gabriel é diferente de todos os grandes trabalhos lançados pelo músico até os dias de hoje, motivo de debates calorosos entre os fãs do grupo. 

O cantor havia lançado seu primeiro álbum que ficou conhecido como “Car”, onde investiu em uma linha melódica bastante similar a sua antiga banda, embora optasse por canções mais diretas com menos passagens instrumentais. Veio dele o single “Solsbury Hill”, que contribuiu para catapultar o álbum e deixar em evidencia a carreira solo de Gabriel. 

O segundo álbum é sempre uma prova de fogo para qualquer artista, pois é nele que determinado músico consolida seu trabalho e prova que tem fôlego para consolidar uma longa carreira. De volta aos estúdios em 1978, o cantor contou com vários músicos que participaram do primeiro álbum como o baixista Tony Levin e o tecladista Larry Fast. Porém, houve ainda uma maior proximidade entre Peter e Robert Fripp que aparece com sua guitarra em maior destaque, produzindo o álbum e trazendo muito do som de sua banda king Crimson Para para o universo de Gabriel, deixando o trabalho com uma sonoridade mais compacta, claustrofóbica e completamente singular, se distanciado da linha melódica adotada em seu primeiro disco.

Os vocais aparecem mais rasgados e depressivos, sendo que nenhuma canção foi concebida para se tornar um hit ou single como no trabalho anterior, criando uma obra obscura e lúgubre, que é inclusive refletida na capa do disco.

Peter Gabriel leva sua arte para além da música, pensando em todos os detalhes que cercam o álbum a começar pela capa que nunca é aleatória. Por isso, a Hipgnosis, conhecida por seus inúmeros trabalhos ao lado do Pink Floyd, idealizou uma capa que se encaixasse nas temáticas explorada por Gabriel, como solidão, desamparo, perda, desalento e outros sentimentos que transparecem nas canções. Assim, a frente do álbum mostra Gabriel arranhando uma foto sua com as unhas, em um misto de fúria e desespero. Já a parte posterior traz uma cena sombria típica da cidade de inverno, com alguém está andando debaixo de uma ponte, congelando e a procura de abrigo quente. Por conta da imagem frontal, o disco ficou conhecido entre os fãs como “scratch” (em inglês, arranhar).

A gensiana "On the Air" abre o disco em cima do riff da guitarra de Fripp.  A canção lembra principalmente os primeiros trabalhos de seu antigo grupo, embora sua voz aparenta estar mais “suja’ e rasgada;

A curta ."D I Y" tem uma forte base construída  por  Levin em seu stick bass. Possui  interpretação passional de Gabriel, embora seja mais leve que o restante dos temas do disco. É um pop obscuro e estranho com a letra onde o cantor fala sobre fazer suas próprias coisas e não cumprir cegamente o que sempre esperam de você. Pela sua acessibilidade, o tema foi lançado como single, mas nem de longe conseguiu o sucesso do disco anterior;

 "Mother of Violence" é uma singela balada calcada no piano de Roy Bittan. Gabriel apresenta uma fragilidade quase palpável ao falar sobre medos e anseios de uma mãe com toda violência que assola nosso mundo. Um tema depressivo, mas muito marcante;
.
"A Wonderful Day In A One-Way World." tem um andamento cadenciado e contagiante, além de bons vocais de apoio. É uma canção encharcada de sarcasmo: “Sábado é dia de ir  ao shopping / eu dirijo meu carro, mas não há lugar pra estacionar”, canta Gabriel em tom irônico satirizando a sociedade consumista ainda nos anos 70;

Em "White Shadow" encontramos um andamento mais linear, calcado no pop 80's. O mago Larry Fast comanda os sintetizadores. É uma canção mais simples, privilegiando a melodia e com um bom solo de guitarra em seu final;

"Indigo" é soturna e complacente. Gabriel canta com a voz encharcada de teatralidade como em sua época do Genesis. A letra tocante fala sobre a morte, sobre deixar a vida se esvair;

O clima é mais animado em "Animal Magic",  um pop calcado nos teclados de Fast, com  uma boa base ao fundo, cortesia da dupla Levin / Marotta.

 " Exposure" é uma canção retirada do primeiro álbum solo de Robert Fripp. Um tema sincopado e esquizoide, com uma bela linha de baixo e Fripp abusando de seu Frippertronics ( instrumento inventado por ele que consistia em passar sua guitarra para uma mesa de efeitos). Gabriel repete incessantemente o titulo do tema com uma voz distorcida e esdrúxula;

A breve  "Flotsan and Jetsan" é um tema midi tempo com Gabriel cantando em cima da base amparado pelo piano. O titulo é uma expressão inglesa usada para nomear objetos jogados ao mar pelos náufragos intencionalmente ou não. Gabriel faz uma ponte entre esses objetos e a esperança que sempre pode surgir no oceano de nossas vidas;

"Perspective" tem andamento dinâmico e um solo de sax de Timmy Capello. Talvez seja a canção mais dinâmica e alto astral do disco, com sua letra sobre a perspectiva de ver o planeta terra e suas belezas naturais;

“Home Sweet Home" encerra o álbum de mantendo a linha prog depressiva com o próprio Gabriel tocando órgão. Apesar de um tema belo, possui uma das letras mais tristes e perturbadoras compostas pelo músico. Conta a história de um casal que gasta seu dinheiro comprando um apartamento luxuoso que se torna a prisão de sua família, levando sua mulher ao suicídio juntamente com o filho. Não é exagero dizer que este tema foi perfeito para encerrar o disco.

Pouquíssimos fãs colocariam esse álbum entre seus favoritos, mas me incluo entre o seleto time que soube apreciar esta obra tão perturbadora, distinta e quase conceitual, que ajudou Gabriel a se conhecer melhor como artista e a lançar futuramente trabalhos recheados de novos experimentalismos, deixando o legado de ser um dos precursores da chamada world music.

O álbum mais obscuro, depressivo e genial de Mr. Gabriel.
4.5
09/09/2019

O segundo álbum de Peter Gabriel é diferente de todos os grandes trabalhos lançados pelo músico até os dias de hoje, motivo de debates calorosos entre os fãs do grupo. 

O cantor havia lançado seu primeiro álbum que ficou conhecido como “Car”, onde investiu em uma linha melódica bastante similar a sua antiga banda, embora optasse por canções mais diretas com menos passagens instrumentais. Veio dele o single “Solsbury Hill”, que contribuiu para catapultar o álbum e deixar em evidencia a carreira solo de Gabriel. 

O segundo álbum é sempre uma prova de fogo para qualquer artista, pois é nele que determinado músico consolida seu trabalho e prova que tem fôlego para consolidar uma longa carreira. De volta aos estúdios em 1978, o cantor contou com vários músicos que participaram do primeiro álbum como o baixista Tony Levin e o tecladista Larry Fast. Porém, houve ainda uma maior proximidade entre Peter e Robert Fripp que aparece com sua guitarra em maior destaque, produzindo o álbum e trazendo muito do som de sua banda king Crimson Para para o universo de Gabriel, deixando o trabalho com uma sonoridade mais compacta, claustrofóbica e completamente singular, se distanciado da linha melódica adotada em seu primeiro disco.

Os vocais aparecem mais rasgados e depressivos, sendo que nenhuma canção foi concebida para se tornar um hit ou single como no trabalho anterior, criando uma obra obscura e lúgubre, que é inclusive refletida na capa do disco.

Peter Gabriel leva sua arte para além da música, pensando em todos os detalhes que cercam o álbum a começar pela capa que nunca é aleatória. Por isso, a Hipgnosis, conhecida por seus inúmeros trabalhos ao lado do Pink Floyd, idealizou uma capa que se encaixasse nas temáticas explorada por Gabriel, como solidão, desamparo, perda, desalento e outros sentimentos que transparecem nas canções. Assim, a frente do álbum mostra Gabriel arranhando uma foto sua com as unhas, em um misto de fúria e desespero. Já a parte posterior traz uma cena sombria típica da cidade de inverno, com alguém está andando debaixo de uma ponte, congelando e a procura de abrigo quente. Por conta da imagem frontal, o disco ficou conhecido entre os fãs como “scratch” (em inglês, arranhar).

A gensiana "On the Air" abre o disco em cima do riff da guitarra de Fripp.  A canção lembra principalmente os primeiros trabalhos de seu antigo grupo, embora sua voz aparenta estar mais “suja’ e rasgada;

A curta ."D I Y" tem uma forte base construída  por  Levin em seu stick bass. Possui  interpretação passional de Gabriel, embora seja mais leve que o restante dos temas do disco. É um pop obscuro e estranho com a letra onde o cantor fala sobre fazer suas próprias coisas e não cumprir cegamente o que sempre esperam de você. Pela sua acessibilidade, o tema foi lançado como single, mas nem de longe conseguiu o sucesso do disco anterior;

 "Mother of Violence" é uma singela balada calcada no piano de Roy Bittan. Gabriel apresenta uma fragilidade quase palpável ao falar sobre medos e anseios de uma mãe com toda violência que assola nosso mundo. Um tema depressivo, mas muito marcante;
.
"A Wonderful Day In A One-Way World." tem um andamento cadenciado e contagiante, além de bons vocais de apoio. É uma canção encharcada de sarcasmo: “Sábado é dia de ir  ao shopping / eu dirijo meu carro, mas não há lugar pra estacionar”, canta Gabriel em tom irônico satirizando a sociedade consumista ainda nos anos 70;

Em "White Shadow" encontramos um andamento mais linear, calcado no pop 80's. O mago Larry Fast comanda os sintetizadores. É uma canção mais simples, privilegiando a melodia e com um bom solo de guitarra em seu final;

"Indigo" é soturna e complacente. Gabriel canta com a voz encharcada de teatralidade como em sua época do Genesis. A letra tocante fala sobre a morte, sobre deixar a vida se esvair;

O clima é mais animado em "Animal Magic",  um pop calcado nos teclados de Fast, com  uma boa base ao fundo, cortesia da dupla Levin / Marotta.

 " Exposure" é uma canção retirada do primeiro álbum solo de Robert Fripp. Um tema sincopado e esquizoide, com uma bela linha de baixo e Fripp abusando de seu Frippertronics ( instrumento inventado por ele que consistia em passar sua guitarra para uma mesa de efeitos). Gabriel repete incessantemente o titulo do tema com uma voz distorcida e esdrúxula;

A breve  "Flotsan and Jetsan" é um tema midi tempo com Gabriel cantando em cima da base amparado pelo piano. O titulo é uma expressão inglesa usada para nomear objetos jogados ao mar pelos náufragos intencionalmente ou não. Gabriel faz uma ponte entre esses objetos e a esperança que sempre pode surgir no oceano de nossas vidas;

"Perspective" tem andamento dinâmico e um solo de sax de Timmy Capello. Talvez seja a canção mais dinâmica e alto astral do disco, com sua letra sobre a perspectiva de ver o planeta terra e suas belezas naturais;

“Home Sweet Home" encerra o álbum de mantendo a linha prog depressiva com o próprio Gabriel tocando órgão. Apesar de um tema belo, possui uma das letras mais tristes e perturbadoras compostas pelo músico. Conta a história de um casal que gasta seu dinheiro comprando um apartamento luxuoso que se torna a prisão de sua família, levando sua mulher ao suicídio juntamente com o filho. Não é exagero dizer que este tema foi perfeito para encerrar o disco.

Pouquíssimos fãs colocariam esse álbum entre seus favoritos, mas me incluo entre o seleto time que soube apreciar esta obra tão perturbadora, distinta e quase conceitual, que ajudou Gabriel a se conhecer melhor como artista e a lançar futuramente trabalhos recheados de novos experimentalismos, deixando o legado de ser um dos precursores da chamada world music.

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