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Resenha: Raul Seixas - O Dia Em Que A Terra Parou (1977)

Por: Marcel Z. Dio

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Lucidez travestida de loucura
5
09/04/2019

Em 1977 Raul Seixas alcançava o auge criativo, concebendo um disco bem diferente em relação à fase mistica compreendida entre 1973 - 1976, mudança marcada pela separação do parceiro Paulo Coelho. As letras estão mais "pé no chão", embora a qualidade e a mensagem libertária esteja intacta. Não podemos esquecer da colaboração do amigo e compositor Cláudio Roberto de Andrade, a outra metade pensante.
Interessante olhar os créditos do encarte e descobrir que os músicos da Black Rio estavam presentes, junto com outras feras, como o maestro Miguel Cidras, Lee Ritenour e o baterista Mamão.

E com o aporte dos cariocas da Black Rio, o funk levanta defunto de "Tapanacara" começa em alto astral. O baixão nervoso de Jamil Joanes ditava as regras, dando um ensinamento de condução aos adeptos do instrumento.
Se a letra de "Tapanacara" é uma resposta a Caetano Veloso e a turma bicho Grilo da Tropicália, isso é o de menos, ouça-a e divirta-se. Alias, a picuinha era direcionada ao Caetano mesmo, tendo em vista a participação de Gilberto Gil nos violões de "Que Luz é Essa".

É chover no molhado reforçar que "Maluco Beleza" não tem nada com substancias ilícitas. Tirando isso, cada um capture a mensagem a seu modo. Raul não era uma equação exata, pelo menos nesse caso.
Os arranjos são formidáveis. Desde o teclado com preenchimento inigualável, as guitarras em steel, ou a sutileza dos pianos. Tudo embalado por uma produção impecável (a melhor até então).

A canção título é uma boa reflexão, e nos dias atuais se faz mais presente. Raul Seixas pede desesperadamente que as máquinas parem, que o sistema pare, pelo menos por um mísero dia !!. E conta as causas de um efeito cascata, caso a ideia utópica fosse realizada. O final é tomado por um crescente instrumental, e a "puxada vocal" que o cantor dá no refrão final, arrepia do pé a orelha !!. Ouvindo e resenhando ao mesmo tempo, um cisco cai em meu olho, seguido de uma lagrima. Em tempos de Anitta e cia, agora percebo que o futuro é vortex.

Pulando para "Sapato 36" - outra que está na boca do povo, me espanto novamente com os licks iniciais de guitarra. Raul tinha uma banda dos sonhos a sua disposição, o fato é que suas letras são tão fortes, que o instrumental fica automaticamente em segundo plano. 
A palavra "Sapato" em referência ao pai, pode ser substituída por DITADURA - e os métodos que a mesma impunha sobre os indivíduos. Artistas na década de setenta tornariam-se mestres em driblar a censura com metáforas, se bem que a imbecilidade ou vista grossa de alguns censores ajudou muito o processo.

Com um ritmo latino e bem no clima balada, "Você" - é um puxão de orelha sobre o conformismo do povo, tecla sempre batida pelo cantor.
Na parte instrumental, a cama maciça dos strings, as guitarras de Lee Ritenoir e a marcação do güiro (instrumento de percussão) dão uma cadencia e suavidade bem agradável a canção. Aos que pagam pau para gravações gringas, é bom ouvir o disco e aprender um pouco sobre produção com um tal de Mazola.

"Que Luz é Essa" como foi dito acima, tem colaboração de Gilberto Gil no violão, e trás um baião agitado com uma pitadinha psicodélica. 
O desfecho fica com com "Cidade De Cabeça pra Baixo", faixa irmã de Tapanacara - pelo suingue, ponto forte nos trumpetes e precisão da "cozinha".
Eis um trecho da letra :

"É na cidade de cabeça prá baixo
A gente usa o teto como capacho
Ninguém precisa morrer
Prá conseguir o Paraíso no alto
O céu já está no asfalto
Na cidade de cabeça prá baixo
Dinheiro é fruta que apodrece no cacho
Ninguém precisa correr
Nem tem ideia do que é calendário
Num tem problema de horário
Na cidade de cabeça prá baixo
É tão bonito ver o sorriso do povo
Que habita o lugar
Olhar prá cima e ver a espuma das ondas
Se quebrando no ar".

Não citei "No Fundo Do Quintal Da Escola", Eu Quero Mesmo", e "Sim" - para não alongar mais o texto, porem, a quem não conhece o disco, adivirto que são tão essenciais quanto as citadas. Por isso, escute a obra por completo. E toca Raul !!.

Lucidez travestida de loucura
5
09/04/2019

Em 1977 Raul Seixas alcançava o auge criativo, concebendo um disco bem diferente em relação à fase mistica compreendida entre 1973 - 1976, mudança marcada pela separação do parceiro Paulo Coelho. As letras estão mais "pé no chão", embora a qualidade e a mensagem libertária esteja intacta. Não podemos esquecer da colaboração do amigo e compositor Cláudio Roberto de Andrade, a outra metade pensante.
Interessante olhar os créditos do encarte e descobrir que os músicos da Black Rio estavam presentes, junto com outras feras, como o maestro Miguel Cidras, Lee Ritenour e o baterista Mamão.

E com o aporte dos cariocas da Black Rio, o funk levanta defunto de "Tapanacara" começa em alto astral. O baixão nervoso de Jamil Joanes ditava as regras, dando um ensinamento de condução aos adeptos do instrumento.
Se a letra de "Tapanacara" é uma resposta a Caetano Veloso e a turma bicho Grilo da Tropicália, isso é o de menos, ouça-a e divirta-se. Alias, a picuinha era direcionada ao Caetano mesmo, tendo em vista a participação de Gilberto Gil nos violões de "Que Luz é Essa".

É chover no molhado reforçar que "Maluco Beleza" não tem nada com substancias ilícitas. Tirando isso, cada um capture a mensagem a seu modo. Raul não era uma equação exata, pelo menos nesse caso.
Os arranjos são formidáveis. Desde o teclado com preenchimento inigualável, as guitarras em steel, ou a sutileza dos pianos. Tudo embalado por uma produção impecável (a melhor até então).

A canção título é uma boa reflexão, e nos dias atuais se faz mais presente. Raul Seixas pede desesperadamente que as máquinas parem, que o sistema pare, pelo menos por um mísero dia !!. E conta as causas de um efeito cascata, caso a ideia utópica fosse realizada. O final é tomado por um crescente instrumental, e a "puxada vocal" que o cantor dá no refrão final, arrepia do pé a orelha !!. Ouvindo e resenhando ao mesmo tempo, um cisco cai em meu olho, seguido de uma lagrima. Em tempos de Anitta e cia, agora percebo que o futuro é vortex.

Pulando para "Sapato 36" - outra que está na boca do povo, me espanto novamente com os licks iniciais de guitarra. Raul tinha uma banda dos sonhos a sua disposição, o fato é que suas letras são tão fortes, que o instrumental fica automaticamente em segundo plano. 
A palavra "Sapato" em referência ao pai, pode ser substituída por DITADURA - e os métodos que a mesma impunha sobre os indivíduos. Artistas na década de setenta tornariam-se mestres em driblar a censura com metáforas, se bem que a imbecilidade ou vista grossa de alguns censores ajudou muito o processo.

Com um ritmo latino e bem no clima balada, "Você" - é um puxão de orelha sobre o conformismo do povo, tecla sempre batida pelo cantor.
Na parte instrumental, a cama maciça dos strings, as guitarras de Lee Ritenoir e a marcação do güiro (instrumento de percussão) dão uma cadencia e suavidade bem agradável a canção. Aos que pagam pau para gravações gringas, é bom ouvir o disco e aprender um pouco sobre produção com um tal de Mazola.

"Que Luz é Essa" como foi dito acima, tem colaboração de Gilberto Gil no violão, e trás um baião agitado com uma pitadinha psicodélica. 
O desfecho fica com com "Cidade De Cabeça pra Baixo", faixa irmã de Tapanacara - pelo suingue, ponto forte nos trumpetes e precisão da "cozinha".
Eis um trecho da letra :

"É na cidade de cabeça prá baixo
A gente usa o teto como capacho
Ninguém precisa morrer
Prá conseguir o Paraíso no alto
O céu já está no asfalto
Na cidade de cabeça prá baixo
Dinheiro é fruta que apodrece no cacho
Ninguém precisa correr
Nem tem ideia do que é calendário
Num tem problema de horário
Na cidade de cabeça prá baixo
É tão bonito ver o sorriso do povo
Que habita o lugar
Olhar prá cima e ver a espuma das ondas
Se quebrando no ar".

Não citei "No Fundo Do Quintal Da Escola", Eu Quero Mesmo", e "Sim" - para não alongar mais o texto, porem, a quem não conhece o disco, adivirto que são tão essenciais quanto as citadas. Por isso, escute a obra por completo. E toca Raul !!.

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