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Resenha: O Barato de Iacanga (2019)

Direção: Thiago Mattar

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Woodstock à brasileira

Autor: Marcel Z. Dio

10/02/2020

O Barato de Iacanga - conhecido por festival de Águas Claras, foi um evento com quatro edições, praticado em uma fazenda no interior de São Paulo. Nasceu com o sonho do jovem Leivinha em colaboração de irmãos e amigos. Criou-se como algo não tão pretensioso em 1975, puxando algumas bandas conhecidas no cenário progressivo, como Mutantes, Som Nosso de Cada Dia, Terreno Baldio e algumas que permaneceram na obscuridade e hoje são denominadas cult, como o Rock da Mortalha e Apokalypsis.
O documentário dirigido por Thiago Mattar, tem material escasso sobre a primeira versão em 1975, mesmo assim, aos poucos vai instigando quem assiste e mostra a ousadia de se peitar a ditadura.
Com um palco de madeira feitos as pressas, um mundaréu de barracas e público constituído em sua maioria por hippies, podemos entende-lo como o Woodstock tupiniquim.
Evidentemente os censores não passaram o "pano", principalmente sobre a questões de substancias ilícitas e o viés anárquico compartilhado entre artista / público. E justamente por isso, o evento só voltou na década seguinte.

Os dois festivais que se deram em 1981 e 1983, foram puxados na pluralidade musical para amenizar as garras da censura, agora com artistas da MPB, tais como : Alceu Valença, Gilberto Gil, o bruxo Hermeto Pascoal e Luiz Gonzaga. Interessante a fala desse ultimo sobre a canção Sociedade Alternativa de Raul Seixas, dizendo que estava tornando-se um alternativo. Dava para perceber Gonzaga curtindo a interação com aqueles jovens. E por falar em Raul, o maluco beleza pediu para tocar no festival, e obviamente teve o desejo atendido. Também é cômico observar um trecho dele tocando uma canção que a certa altura se transforma em Garota de Ipanema, Raul senta-se ao palco abrindo a mão com os famosos acordes em posição de "aranha", tudo para tirar um sarro da Bossa Nova.
E a brincadeira de Raul Seixas, que na verdade era uma contestação, tornou-se sonho ou pesadelo para alguns, pois numa tacada ousada, o gestor do projeto chamou João Gilberto no festival seguinte, conseguindo o que muitos apenas tentaram, pois Gilberto odiava participar de shows e afins.
A ultima edição de Iacanga em 1984, contou com patrocinadores, maior divulgação da mídia, melhor estrutura, porem, foi um fiasco. Chuvas com vento, difícil acesso aos carros - devido a lama (muitos puxados por tratores) alagamento do palco, e por isso, a falta de boa parte dos artistas, fizeram Leivinha repensar sobre tudo e acabar com o festival, citando no documentário que o prejuízo pelo último, foi enorme.
O filme também serve para repensar que as melhores coisas da vida e até mesmo da música, nasceram como combustão espontânea. A exemplo de que as grandes obras do rock foram concebidas dessa forma, e assim o evento de Iacanga teve um papel importante na música brasileira.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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