Resenha

Metallica: Some Kind of Monster

2004

Direção: Joe Berlinger, Bruce Sinofsky

Por: Marcel Dio

Colaborador Sênior

15/11/2021



O monstro da vaidade

Esse é o documentário que remete a sensações dúbias, por hora, interessante pela construção e desenrolar, no entanto, não podemos descartar se todas a brigas contidas são verdadeiras ou encenações para dar a impressão de ser o filme mais sincero já feito nos bastidores de uma banda. Quando acontece com grupos como o Kiss ou Metallica, a dúvida é maior ainda, por motivos que não carecem detalhes. 
Some Kind of Monster tem o poder de prender a atenção, algo acertado sobre a ótica de entender como funciona uma banda empresa prestes a conceber um álbum. E o trabalho foi árduo para finalizar seu pior disco: o St. Anger. 

No aspecto humano só espelha o quanto Lars Ulrich e James Hetfield são toscos e egocêntricos, numa medida que aos olhos é surreal.
Bob Rock deve ter pensado: -" Oh Deus, onde amarrei meu burrinho!", nem toda grana e exposição valeriam a convivência com os citados. Lars é o mais mimado, aquele adolescente pentelho e rico, que a vida injustamente livrou-o de tomar uma surra das boas e descontinuar com sua mania de querer ser o centro do universo. James não fica por menos, até compreensível bater de frente com o baterista para frear aquele que seria um ditadorzinho burguês.
Para piorar contrataram um terapeuta, intermediador das infantilidades dos coadjuvantes, ao qual parecia um paraquedista que sem querer pegou uma fenda no tempo e caiu na guerra do Vietnã, tentando contornar uma situação de briga frequente. Fosse a moda antiga, mais forte, despojado da profissão e dos dólares na conta, deveria pegar uma cinta, ameaçando-os a ficarem de castigo.
Por outro lado temos um Kirk Hammett centrado e olhando a situação como funcionário de luxo. Kirk realmente foi o ponto mais importante que o produtor e terapeuta juntos, seu bom senso permitiu que o circo de horrores tivesse desfecho menos patético.
James ficou um ano fora, para tratar-se do alcoolismo. Quando voltou, as coisas pioraram, ainda mais pela regra de trabalhar só quatro horas por dia, imposta para seu próprio bem.

Jason Newsted abandonou pouco antes essa bomba insuportável de egos, descartando todo status e grana que o Metallica lhe deu, entendendo que nem o dinheiro compra paciência e desgaste extremo. Quem sabe se o papo do Echobrain foi usado como pretexto a sua saída e alívio imediato? Não sabemos. Com o documentário fica claro que o bullying do passado dirigidos ao baixista, foram até piores do que se conta. 
Nessa linha temos uma das cenas mais patéticas e invejosas da história do rock, quando Lars faz questão de ir ao show do "amigo", pensando que ele estaria tocando num bar de beira de estrada, e se depara com um show organizado (para seu desgosto). Entrando no evento com Kirk e Bob Rock, veem o companheiro em ação com uma banda formada por jovens músicos. Por fim, quando vão ao backstage encontram todos, menos o antigo baixista. Jason sumiu por motivos óbvios, qualquer um faria. 
Então o estarrecido Lars percebe ou não ... o quanto sua presença é desagradável. Fazendo inúmeras piadas sem graça com o ex companheiro. No "ápice" lança a frase mais idiota do documentário: "Metallica é passado, Jason é o futuro".
Trujillo pega a bucha e "passa" nos testes. Legal, testes são feitos, alguns por brincadeiras, outros sérios e por fim .., creio que o baixista foi escolhido antes. Contudo, a título de preencher o documentário, foi agradável ver anônimos ou conhecidos tocando com o Metallica.
 
A parte das declarações de Dave Mustaine sobre sua saída não deixa de ser curiosa, pelo dialogo do ruivo com Lars. Creio realmente que Lars nem imaginasse o quanto feriu o "coraçãozinho" de Mustaine. Incrível que o pouco tempo de convivência e a demissão tenham afetado tanto o líder do Megadeth, até porque permitiu-o ter uma banda própria e de sucesso, mas ... como disse, queria ser o primeiro e não admitia o sucesso do Metallica. 
Nesse ponto fica escancarado o quanto esses roqueiros são uns malas sem alça na vida real. 
Dessa forma, Some Kind of Monster vai escorregando em brigas e na construção de St. Anger, com Bob Rock tocando junto e aguentando tudo como monge budista. 
Óbvio que brigas existem quanto a criações de canções, nesse aspecto o Metallica briga mesmo, assim como outros grupos fazem, o problema é o exagero.
Diverte mais a visão dos membros e da imprensa baba ovos, como se o Metallica fosse a salvação do mundo, também a seriedade que Lars e James colocam sobre os próprios ombros. A forma e os trejeitos como traduzem a real importância da banda chegam ao ponto circense, não como os caras do Rush que tiram sarro de si mesmo usando o humor britânico ou um grupo que apenas quer deixar um legado e divertir-se no palco, assim como o Deep Purple.
A verdade é que o Metallica se acha mesmo a última bolacha do pacote, e St. Anger é a prova cabal que perderam a espontaneidade e esqueceram que era preciso abandonar o estrelismo e focar apenas em fazer um álbum. Podem julgar-se semi deuses? Ok, venceram na vida, fizeram grana e influenciaram muita gente, nesse ponto são competentes ao extremo. O lance é não propagar tanto e aprender com a humildade de Kirk Hammett e até mesmo Robert Trujillo, aprender que bandas e músicas, são entretenimento.

O documentário é ótimo para ver o quão patético uma banda pode ser quando exposta a realidade, mesmo forçada no jogo da indústria fonográfica. Fizeram o seu BBB exclusivo e jogaram aos fãs. 
Com tanta preocupação em torno de riffs, produção, horas de trabalho e briguinhas infantis, desdenharam de observar coisas simples, como o timbre de lata na bateria de Lars Ulrich.
É isso, um Metallica preocupado demais com o resto, sem a mesma diversão e simplicidade, que são a tônica do rock. Assim como eles provaram no passado com discos de estúdios feitos de forma rápida e voraz. Thrash metal é isso, meus caros! 
Com todos o ranços e chiliques, Some Kind Of Monster é atiçador e passa num piscar de olhos, só não deve ser seguido como exemplo para futuros músicos, que por ventura venham achar-se a última última coca cola do deserto. Forem espelhar-se em alguém, fiquem com Kirk Hammett, Jason Newsted e Robert Trujillo, são de caras assim que a música precisa, falando profissionalmente ou humanamente.


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Sobre Marcel Dio

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Sobre o filme

Metallica: Some Kind of Monster

Relacionado com: Metallica

Ano: 2004

Direção: Joe Berlinger, Bruce Sinofsky

Avaliação geral: 3,5 - 1 voto

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