Resenha

The Hit Factory: The Pete Waterman Story

2001

Direção: Simon Broadley

Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Especialista

07/08/2021



Descartabilidade que permanece na memória

Parte do modo de produção capitalista, a música pop é fenômeno fugaz. A ciranda de artistas e grupos gira rapidamente e o que é in numa temporada, vira out em um par de meses. Concebida dentro dos moldes da obsolescência planejada, parece que a fugacidade dessa indústria cresce.

Entretanto, artistas e ouvintes são seres humanos. Por mais que saibamos da impessoalidade da produção de muito da música pop, ela serve para embalar histórias de vida: noitadas, namoros, casamentos, velórios. Enfim, ela acaba ativando uma série de lembranças. Não é incomum associarmos canções – mesmo as mais “descartáveis” -  com momentos de nossa trajetória. Isso não pode ser desconsiderado.

Durante 3 fugazes anos – entre 1987 e 1990 – as paradas de diversos países foram dominadas por uma trinca de produtores ingleses: Mike Stock, Matt Aitken e Pete Waterman, ou Stock, Aitken e Waterman, ou SAW. Eles “inventaram” Kylie Minogue a Rick Astley. Pronto, qualquer oitentista agora já tem noção do tamanho desses caras na época.

O trio é comparado como uma espécie de Motown inglesa e realmente foi grande. Dezenas de canções nas paradas, zilhões de álbuns vendidos. A linha de produção era fordista mesmo: canções pop grudentas, baratas, tudo meio igual. Uma sucessão de artistas fabricados em estúdio, como Mandy Smith, Sinitta, Sonia, Princess, hoje lembrados apenas por fãs empedernidos dos anos 80.

O poder de SAW era tanto que artistas com a popularidade em baixa entregavam-se a eles para terem respiro extra, como Kim Wilde e Cliff Richard. O exemplo mais notável foi Donna Summer, que se revitalizou temporariamente em 1989, com um álbum produzido pela tríade. Quem esquece pérolas pop como Breakaway, This Time I Know It´s for Real ou I Don’t Wanna Get Hurt?

Às vésperas do adiado concerto que reuniria alguns dos artistas que trabalharam com SAW, a iTV1 exibiu o documentário The Hit Factory: the Stock, Aitken and Waterman Story. Ao assisti-lo, vieram-me à mente aquele tipo de lembranças às quais me referi no início. Dancei muito ao som de Kylie, Rick, Jason Donovan. Até hoje, ouço a versão de Hazel Dean para Turn It Into Love (gosto mais do que da versão de Kylie, sorry...). A sonoridade inconfundível do trio me conforta, no sentido de saber onde estou pisando. 

O documentário reúne diversas celebridades do combo da PWL (gravadora de SAW). Peter Burns, Kim Appleby, Jason Donovan, Sinitta; estão quase todos lá. Atuais poderosos, como Simon Cowell, aparecem para se dizerem influenciados.

Por se tratar de celebração da obra, tudo é edulcorado. O estúdio é retratado como grande festa e os artistas chovem elogios. Sabemos que não é bem assim. SAW eram homens de negócio, que tratavam artistas como mercadoria. Não é à toa que o álbum pós-PWL de Rick Astley chamou-se Free.

Como o fenômeno pop é fugaz, a fábrica de sucessos deu defeito em 90 e não produziu mais nada bem-sucedido, até se desfazer em 1993. O programa explica alguns dos motivos, embora evite as batalhas judiciais subsequentes, que fizeram SAW não se olharem mais nos olhos.

Viagem deliciosa ao final dos anos 80. Pop descartável? Eu não o descartei e conheço muita gente que também não!


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Nível: Colaborador Especialista

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Sobre o filme

The Hit Factory: The Pete Waterman Story

Ano: 2001

Direção: Simon Broadley

Avaliação geral: 3 - 1 voto

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