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Resenha: Rock Brasília: Era de Ouro (2011)

Direção: Vladimir Carvalho

Relacionado com: Bee Gees

Acessos: 74


Quando o concreto rachou em Brasília

Por: Roberto Rillo Bíscaro

18/07/2021

Lá por meados dos anos 80, começamos a ouvir/ler sobre as bandas de Brasília. Depois do estouro dos paulistas e cariocas Titãs, Ultraje a Rigor, Kid Abelha, sopraram ventos pós-punk do Planalto Central. Os Paralamas do Sucesso vieram de lá, mas soavam mais caribenhos, mais ska. O som de Brasilia vinha com fama de mais politizado; a sonoridade angulosa do punk e da cold wave britânicas, tipo Sex Pistols, The Clash, Siouxsie & the Banshees, Gang of Four (que muitos de nós, sem grana e/ou no interior não conhecíamos, mas amávamos porque a Bizz jurava que eram bons e “sérios”).

O documentário Rock Brasília – Era de Ouro (2011), do diretor Vladimir Carvalho, apresenta parte da história da cena roqueira brasiliense do final dos 70’s em diante. O cineasta escolheu o grupo Aborto Elétrico como ponto de partida e suas bandas-filhote (Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial) para representarem esse período dourado (nos termos do título). Se por um lado essa escolha implica no apagamento de bandas como Finis Africae, Detrito Federal, Escola de Escândalos e Arte no Escuro (surgidas depois da pioneira Aborto), por outro, permite aprofundamento nas trajetórias daqueles grupos, sem dúvida, os comercialmente mais bem sucedidos da cidade. Surgidas em famílias de classe-média intelectualizada, Legião, Capital e Plebe tomaram o sul-maravilha de assalto, e, consequentemente, fizeram sucesso em todo o país.

As quase 2 horas de documentário são compostas de entrevistas e imagens de arquivo, que deleitarão as testemunhas dos anos 80, mas também quem veio depois. Optando por não trilhar o caminho da caça às influências de cada banda, Carvalho buscou familiares, amigos, (ex)integrantes, produtores e gente como Caetano Veloso e o antropólogo Hermano “irmão-do-Herbert” Vianna. O mentor Renato Russo não poderia ficar fora e aparece em entrevistas antigas, muito bem adequadas. Claro que há menções ao The Cure e aos Pistols, mas o enfoque é mesmo na história e nas curiosidades sobre cada formação musical.

Conhecemos a construção da iconicidade de Russo, habilmente burilada pelo próprio desde bem cedo; divertimo-nos com a perplexidade de Chico Buarque de Holanda perante os passos de dança do vocalista da Legião Urbana, quando de sua apresentação no programa global Chico e Caetano (imagine que o Velho Chico sabia quem era a inspiração Ian Curtis!); somos informados da decadência e ressurreição do Capital Inicial.

Rock Brasília – Era de Ouro não cansa ou entedia, porque os depoimentos não são mecânicos e cheios de informações técnicas sobre gravações ou instrumentos musicais. É gente narrando sua história ou a de seus filhos, amigos, irmãos.

E que venham mais projetos do tipo, para eternizar parte da história de nossa juventude, ora 50tona.

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