Resenha

The Joy of Disco

2012

Direção: Benjamin Whalley

Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Especialista

06/07/2021



Um documentário muito prazeroso e educativo

Uma das primeiras modas de que me recordo foi a febre das discotecas, por volta de 78, quando da novela Dancin’ Days. Para ser tema de folhetim o fenômeno tinha que ser avassalador. E foi. Contava eu 11 anos e à parte poucas canções, não gostava muito de discotheque. Achava repetitivo e longo demais. Demorei pra respeitar o movimento.

Conforme mergulhava no mundo do (synth) pop oitentista, e depois, da electronica, percebi a importância da tendência. A maior idade também influenciou: a sonoridade disco – a vertente mais pop, digamos, não tão repetitivamente longa – remete-me à juventude e deflagra memórias, por vezes idealizadas.

Tudo isso me levou a desejar conhecer um pouco mais sobre a história da disco music, daí a motivação para ver o documentário The Joy of Disco, da BBC.

A revolução sexual dos anos 1960 foi basicamente heterossexual. Gays continuavam perigosos doentes mentais capazes de corromper a “boa sociedade”. Em 1969, a polícia nova-iorquina fez costumeira batida no bar gay Stonewall, mas tiveram bela surpresa. A costumeira passividade dos frequentadores (sem intenção irônica, juro!) foi substituída por revide na porrada. Boa parte da historiografia considera esse incidente a gênese da liberação gay, que pronto se espalhou pelo mundo ocidental. Leis punitivas foram revogadas, a homossexualidade deixou de ser considerada patologia e o orgulho gay aumentava. Concomitante a essa fresca liberdade (sem intenção irônica!), proliferavam festas em locais alternativos da então falida Nova York.

Esses eventos atraiam toda sorte de espíritos livres e outsiders, muito particularmente outros grupos meio alienados do sonho americano, como porto-riquenhos e negros. A música nesses locais era suprida por artistas negros da Grande Maçã e da Philadelphia. Essa última cidade, nos 70’s, tirou o cetro da Motown como rainha da black music. 

A conjunção das liberações feminina, negra e gay dos anos 70 serviu como luva ao florescimento de uma sub-cultura que valorizava a sexualidade, que queria se divertir e achar locais onde pudesse se expressar sem constrangimentos.

Formava-se a cena clubber, que desde então serviu de celeiro de ideias e correntes que se tornariam mainstream nas mãos de antenados como David Bowie, Boy George, Madonna, Lady Gaga. Há quem argumente tratar-se de rapinagem ou oportunismo pra re/dessignificar toda uma subcultura ao inseri-la num meio que por princípio lhe é hostil. Tal discussão deixo aos acadêmicos.

Não deixa de ser pândego ver incautos homofóbicos e/ou racistas se esbaldando com práticas de grupos que odeiam, sem a mínima suspeita! Quando farejam a queda na armadilha, os caretas contra-atacam. Não foi diferente com a disco music, vide o implacável movimento Disco Sucks (será que perceberam o duplo sentido?) 

A BBC tenta dar alguma importância à Inglaterra na constituição do movimento, mas a matriz é norte-americana e o grande desenvolvimento veio da Itália e da Alemanha. Quando Giorgio Moroder kraftwerkizou Donna Summer, praticamente inventou europop, eurodance e ítalo disco. E supriu a raiz norte-americana com seiva eletrificada, que resultou na explosão febril da disco, que no final dos 70’s conquistou parte do globo.

Os Bee Gees, Travoltas e Júlia Matos com sua versão carioca do exclusivo Studio 54, que povoaram meu fim de infância e pré-adolescência, são heterossexualizações, embranquecimentos e burguezificações de um movimento que em parte reagia contra essas hegemonias. The Joy of Disco não os despreza – embora não cite Dancin’ Days, claro! – e nem eu jamais o farei, afinal, são parte de mim.
Aproveitando a tradução do título em inglês, foi um prazer a história da disco!


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Sobre Roberto Rillo Bíscaro

Nível: Colaborador Especialista

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Sobre o filme

The Joy of Disco

Ano: 2012

Direção: Benjamin Whalley

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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