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Resenha: Punk: The Early Years (2003)

Direção: Piers Bedford

Acessos: 73


Energético como o punk-rock

Por: Roberto Rillo Bíscaro

22/06/2021

O punk chocou muito pelos adereços como alfinetes, calças rasgadas e maquiagem pesada, além dos cabelos moicanos espetados. Não demorou para essa rebelião virar de butique e estilistas lançarem caras calças, que já davam impressão de surradas. 
 
No Brasil, a novela Champagne (1983-4) popularizou um penduricalho “punk”. Quando eu tinha uns 16 anos, metade dos jovens e adolescentes comprou um colar feito com fio de telefone e um cadeado como pingente. Copiado da personagem Greg, filhinho de papai revoltado, que passara anos em Londres e voltara punk. Dei-me o trabalho de investigar qual era sua canção na trilha do folhetim e descobri que era All Night Long, do Lionel Ritchie. Realmente superpunk! 

Se nos idos de 77, os jovens punks culpavam os hippies por sua “revolução” ter dado em nada, os filhotes dos anos 70 devem ter feito o mesmo. Modismo e consumo à parte, o punk mudou a música jovem, tirando-a do reino dos peritos pop stars para colocá-la nas mãos de uma molecada que sequer sabia tocar.

Para dar uma sacada em parte dessa moçada, à época em que tudo fervia na Inglaterra, indispensável assistir a Raw Energy: The Early Years of Punk. Produzido em 78, a proximidade com a explosão de 77 e a contemporaneidade das questões tratadas torna o material inestimável. 

Narradora muito discreta e entrevistas pincelam temas como a perseguição policial, proibição de se apresentar em muitos lugares na Inglaterra, o sensacionalismo dos tabloides, o costume punk de demonstrar apreciação nos shows com cusparadas de cerveja (argh!) e, muito reveladoramente, o quanto de tudo isso não passava de moda, entretenimento, zuação amplificada pela mídia sedenta de escândalos para vender jornais.

Muita gente com a cara colorida e cabelo armado reclama de como os anos 70 eram entediantes até a chegada do punk.

Interessante escutar um executivo de grande corporação dizer que as letras rebeldes não ofereciam perigo; a “mensagem” era a própria música, diz. Esses caras são espertos.

O muso glam Marc Bolan – já falecido quando o documentário foi lançado – vaticina: a explosão de 77 foi a ponta de lança, o melhor estava por vir com a irradiação do ideário punk para outras áreas e sua espatifação em miríade de subgêneros. Antenado Bolan: Siouxsie and the Banshees, X Ray Specs, The Cure e tantos outros já faziam isso.
Também mito legal ver o pessoal jovenzinho, fresquinho. Siouxsie Sioux, Johnny Rotten e Billy Idol, que depois viraria pop star profissional, morando em Los Angeles.

Punk the Early Years está recheado de números ao vivo. Dá pra ver como as meninas do The Slits eram mesmo toscas ao vivo (superpunk!), como Eddie and the Hot Rods era bem pouco punk; parecia algo dos anos 50 que tivesse tomado ácido; como o Idol tinha carisma pra estrela pop.

Os documentaristas seguiram a estética da colagem na edição e na confecção dos créditos, assim, o programa é formalmente fiel ao tema abordado.

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