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Resenha: The Dirt (2019)

Direção: Jeff Tremaine

Relacionado com: Mötley Crüe

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Peruca, atuações sofríveis e muita farofa

Autor: Marcio Alexandre

23/10/2019

Confesso não ser o maior apreciador dessa cena “farofa” dos anos 80 de onde surgiram mais e mais bandas fazendo esse tipo de som, com certo exageros tanto na sonoridade quanto na sua imagem. Um dos maiores fenômenos que surgiram nesse período foi o “Mötley Crüe“, banda que conquistou público com clássicos como “Shout at the Devil” e “Live Wire“. Assumo que jamais pensaria na banda como propensa à ganhar seu próprio filme e eis que agora, após termos o estouro de “Bohemian Rhapsody – (2018)“, chega as telas em escala menor na sua distribuição, já que se trata de um produto direto para streaming, “The Dirt – Confissões do Mötley Crüe” direto para a mãezona atual dos filmes renegados, a Netflix.

O filme dirigido por Jeff Tremaine, o mesmo cara responsável por levar os doidos do “Jackass” para as telas grandes, tem como proposta contar a história da banda em pouco mais de uma hora e meia, tendo início lá atrás quando o baixista Nikki Sixx ainda era uma criança chamada Frank Feranna Jr., com sua relação familiar conturbada e onde assume a nova alcunha e sai atrás do sonho de ser o rockstar.

O elenco é composto por Douglas Booth, que interpreta o próprio Sixx, que já deu vida a Boy George , em sua também cinebiografia “Boy George: A Vida é Meu Palco – (2010)“, Machine Gun Kelly (de outra grande produção da Netflix, o filme “Bird Box – (2018)”, na pele do baterista Tommy Lee, Iwan Rheon, mais conhecido por seu papel em “Game of Thrones”, na pele do vilão Ramsay e aqui encarna o estranho guitarrista Mick Mars, e ainda temos Daniel Webber que da vida ao vocalista Vince Neil. Assim temos formado o Crüe do filme, que confesso em certos momentos mais pareciam um bando de adolescentes numa espécie de banda cover do que propriamente um elenco de filme, eles não se parecem de forma alguma com os membros originais, mesmo cobertos de maquiagens e muita progressiva no cabelo de Booth(sua caracterização fica entre algo como o próprio Sixx, hora como Synyster Gates do A7x e ainda uma pitada de Guilherme de Sá da banda nacional Rosa de Saron). Quando os quatro se juntam e batizam a banda, daí em diante temos o desenrolar do que foi a história já contada em livro dos jovens rapazes querendo ser famosos e toda sua insanidade conforme sua fama ia aumentando.

Temos um filme com tom mais leve em seu início, uma espécie de comédia indireta, mostrando os primeiros percalços da banda, sua trajetória para se fazerem de loucos e chamarem atenção a todo custo, além da música pesada e que incomodava devido à seu conteúdo, inclusive incomodando a comunidade cristã por algumas letras. E é aí que o longa nos traz momentos divertidos, como as relações com as namoradas do baterista Lee, um encontro um tanto inusitado com Ozyy Osbourne (interpretado por Tony Cavalero, numa caracterização que de imediato pensei ser o próprio Ozzy), regado a drogas e bebidas não menos inusitadas. Assim se desenrola a primeira parte e ela flui muito bem.

Os garotos conseguem pegar os trejeitos de seus respectivos personagens e o fazem muito bem quando é a hora de encarnar o Motlëy em ação no palco, principalmente ao se tratar de Tommy Lee e o próprio baixista. As recriações dos clipes são bem feitas, lembrando de fato as gravações originais. O problema está no out of stage.

Porém é em sua segunda metade que as coisas desandam de certo modo. Temos aqui a queda dos garotos, Sixx com seus sérios problemas de vícios, brigas internas entre os membros, atrasos com lançamentos, a saída de Neil da banda e um grande drama em sua vida particular envolvendo sua filha. Esse momento do filme deveria ser de fato lugares para se desenvolver a parte dramática, porém devido a caricatura dada até ali, não consegui de fato me sentir envolvido por nenhum desses momentos, passando por cima sem maiores expressões, coisa que parece faltar no elenco, onde as vezes coadjuvantes parecem ter mais variações do que o elenco principal que muitas vezes soam um tanto automáticos parecendo bonequinhos de massa, principalmente o vocalista, que mesmo em um momento tão chave como o da filha ele não consegue passar nada além do olho do gatinho do Shrek e uma boca semicerrada.

A direção é hora acertada, hora perdida. Como já dito tem um bom começo na sua primeira metade, mas quando é a hora de realmente se entrar na história, as coisas começam a soarem arrastadas parecendo uma forma de ganhar tempo, para em seu final tudo soar atropelado e acabar tudo bonitinho como já é previsto. Talvez seja efeito da falta de experiencia do diretor em lidar com um material do tipo, já que vem de uma série de filmes sem muito conteúdo.

“The Dirt” teve boa repercussão entre os fãs da banda, o que de fato é o ponto principal num filme desses, mas se avaliado como um longa a parte, acaba por não ser tão atrativo como em outros casos que já aconteceram. Longe de ser ruim, porém se avaliado com um pouco mais de cuidado, vemos que acabou caindo numa caricatura meio novelística. Diverte, mas não enche os olhos, é uma realmente um filme de biografia e não vai além disso e nem muito além de seu público alvo.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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