Para os que respiram música assim como nós


Entrevista: Mauro PJ

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Por: Diogo Franco

27/11/2020

O cenário carioca, especialmente  baixada fluminense, sempre foi celeiros de grandes bandas de rock. E o heavy metal segue sendo muito bem representado por bandas como o Fruto Letal, que mantém viva a chama com músicas autorais e com um diferencial: Cantado em português. Confira agora o papo que tive com Mauro PJ, guitarrista da banda e corra atrás do material dos caras se você é fã de heavy metal. 

Boa leitura!

Facebook: frutoletal

Como se deu o início da banda?

Em 2014 me reaproximei de um amigo de longa data e resolvemos conversar sobre a formação de uma banda.
Em dois anos de convivência musical a gente descobriu que pensava muito diferente sobre o caminho a seguir.
Hector (baixista) já tocava com a gente e Anthony estava em processo de substituição do antigo baterista. Saímos dessa banda e formamos o Fruto Letal em 2016.

Quais as principais influências pessoais de cada integrante?

Temos muitas influências que quando somadas resultam em uma sonoridade diferente das próprias inspirações. 
Algumas dessas influências pessoais são até curiosas. Além de Maiden, Judas Priest, Kiss, Metallica e outras bandas no universo hard e metal, ouvimos também coisas muito distantes disso como bandas de metal industrial, pop punk, metal nórdico etc.

Como foi o processo de gravação do álbum Purgatório?

Foi brabo.
Tínhamos alguns ingredientes complicados de serem combinados. Poucas músicas prontas, falta de tempo, pouca grana e muita inexperiência. Mas um ingrediente a gente tinha em maior quantidade que era um tesão grande de gravarmos o que havíamos produzido. Assim foi na garra mesmo. Encontramos um estúdio que nos deu todo o suporte (Ricardo Pardal) e mesmo lidando com fatores desfavoráveis o trabalho saiu. Ao final já não tínhamos vontade alguma de refinar nada. 
Até hoje quando ouvimos o que fizemos e as diversas críticas positivas quanto as letras e outros elementos, a gente tem certeza que o trabalho foi feito da melhor forma possível.

Quais discos vocês consideram essenciais para sonoridade da Fruto Letal?

Essa é uma pergunta difícil de responder. Nunca tivemos um disco norteador apesar de buscarmos referências em alguns álbuns tidos como conceituais. Essa busca por referências nos ajudaram a organizar as canções e ordena-las na sequência disposta em Purgatório, mas não tivemos um álbum específico como ponto de apoio.

Como a pandemia afetou os planos da banda para esse ano?

A pandemia atingiu o Brasil justamente quando Tony, antigo cantor se desligou do FL.
Começamos então a enfrentar dois problemas que era o distanciamento social e ao mesmo tempo a necessidade de buscarmos outro front.
Em 15 de março nos encontramos em estúdio com alguns candidatos. Mesmo em distanciamento tivemos 19 interessados na vaga, mas nesse dia a gente recebeu apenas dois e ficamos com o Luciano Silva. Ele está, inclusive, anunciado como novo vocal do FL na fan page. Resolvemos não apagar a publicação e a surpresa virá quando a gente publicar o primeiro single da nova fase da banda. Luciano saiu por questões particulares, mas é um cara que escreve muito bem e chegou a esboçar algum material para o FL. 
Durante a pandemia a gente se utilizou da tecnologia para produzir e produzimos bastante coisa que agora está sendo reformatada. Mesmo em distanciamento social a gente continuou escrevendo e agora estamos dando materialidade às músicas escritas nessa fase readequando-as ao timbre do Jefferson que substituiu o Luciano no vocal.
Os planos sofreram apenas algum retardo, mas pelo que já sentimos, recuperaremos o tempo em poucos meses.  Engraçado que antes da pandemia eu estava ouvindo direto The Great Cull do Killing Joke e parece que o grande abate realmente veio, de outra forma, mas está aí e temos que nos cuidar. O trabalho nunca parou e continua firme.

Quais os planos para o próximo ano?

Para 2021 a gente pretende investir na gravação de nosso segundo trabalho e estamos muito ansiosos pela nova sonoridade do FL. Tem bastante coisa interessante.
Estamos na final de um concurso de bandas e a ideia é levar para o palco uma apresentação com peso e algumas melhorias cenográficas também 
Queremos também colocar o pé na estrada, porém isso depende muito da situação sanitária 
Havendo segurança a gente vai investir nas apresentações ao vivo que é momento onde sentimos a energia do nosso trabalho com força total.

Qual o motivo da saída dos integrantes Tony Crazz e Vinicius Correa?

Temos um histórico de desligamentos de forma harmônica. Todos que passaram pelo FL se tornaram amigos e até colaboradores indiretos.
Vinícius Correa é um guitarrista com extremo bom gosto. Apreciador de Pink Floyd, trouxe para o som do FL uma doçura com momentos de muito feeling. Os solos do Vinícius são notáveis em Purgatório. Cabe ressaltar que ele tem uns 40% da audição normal e por conta disso, sua sensibilidade às vibrações é algo surreal. Sua saída se deu a pedido. Desafios no trabalho, estudos e planos pessoais.
Tony é um camarada muito bom de trabalhar. A gente cobrava muito dele e ele sempre aceitou de boa os direcionamentos que a gente achava serem os ideais. Ao vivo o cara crescia e a cada apresentação a gente saía com um "Puta que pariu. Tony mandou muito bem". Também saiu da banda por projetos pessoais e trabalho. 
Ambos até hoje são amigos queridos. O que deixaram gravado está eternizado.

Como a entrada de Jefferson Santos e Raphael Duarte afetaram a sonoridade da banda?

Raphael é parte do FL há 2 anos, mas ainda não tivemos a oportunidade de gravamos oficialmente juntos. 
Sua pegada é diferente do guitarrista anterior. Mais ácido e isso influenciou sim numa mudança perceptível. Ele assumiu a guitarra solo principal e sua personalidade poderá ser conferida nas músicas que gravaremos. Foi uma substituição bem madura sem exigência alguma de que o trabalho anterior fosse continuado. Raphael tem liberdade total para imprimir sua identidade musical, escolha de timbres e tem feito isso com muita naturalidade.
Jefferson chegou ao FL agora em novembro de 2020, mas é um amigo já conhecido, pois sempre que possível, franqueou parte das apresentações de sua banda Mastermind ao Fruto Letal. 
Ele tem uma experiência muito madura com o palco, com a liderança e condução da banda ao vivo. Além disso, tem imprimido uma marca que há muito vínhamos buscando que é a força vocal. Seu timbre caiu como luva e nos proporcionou retomarmos as ideias originais de músicas que haviam sido modificadas para atender a tessitura dos cantores anteriores.
Estamos muito empolgados com sua chegada.

Se pudessem escolher apenas um disco para ouvirem pelo resto da vida qual seria?

Purgatório (risos).

Como é o processo de composição da banda?

O processo de composição segue apenas duas regras: tem que ser aderente aos objetivos vigentes do FL: canto em português e ainda que elementos distintos sejam utilizados, nossa órbita nunca deve se afastar do heavy metal.
Parece estranho dizer que uma banda de metal deva ter isso como regra básica para as composições, mas não é não. A banda é uma sociedade voluntária. Não vivemos do que ela gera. Algumas vezes parece tentador aplicar puxadinhos e a gente tem que ter bom senso no uso desses elementos. Feito isso, todos têm plena liberdade para se expressarem conforme queiram. 
Como até o momento temos apenas dois letristas, priorizamos compor músicas individuais para conseguirmos o maior número de músicas possível e a partir dai fazermos uma triagem do que vai para a frente e o que deve ficar na gaveta. 
Não combinamos os temas, a interação entre melodias etc. Compomos, apresentamos, aprimoramos e pronto. Tem funcionado dessa forma.
Mas já temos conversado sobre a possibilidade de outros membros do FL escreverem também o que achamos vai enriquecer muito o trabalho 
Todas as músicas são registradas em nome dos autores e o direito sobre a obra o acompanha mesmo saindo da banda que, por sua vez, detém o direito de execução através do ISRC 
Basicamente é isso.

Como foi a recepção do público ao álbum?

Foi melhor do que esperávamos. Como disse, o processo de gravação se estendeu por tempo demasiado e isso foi muito desgastante. Sair do trabalho e correr para o estúdio e ter que fazer pouca coisa porque no dia seguinte teríamos que acordar cedo novamente para trabalhar foi algo muito ruim. A ansiedade aumentava devido a demora em concluirmos e graças ao técnico de gravação a gente fez o que deveria ser feito e gostamos do resultado.
Ao final a gente se perguntou "e agora?". Partimos para a publicação digital e o retorno foi bem bacana. Pessoas que ouviram nosso som em diferentes lugares dando feedback positivo foi muito foda e serviu para a gente concluir que o caminho é esse. É isso que queríamos ter feito e fizemos. Recebemos também algumas ofertas comerciais de Portugal e Espanha, mas nada que interessasse realmente. 
Fomos encontrados nas mídias sociais por várias rádios, web rádios e sites especializados em rock e isso não tem preço. Muitas vezes também corremos atrás de parcerias e sempre fomos muito bem recebidos.

Nos conte uma história curiosa ou engraçada de algum show ou ensaio da banda?

Certamente há, pelo menos uma. Em nossa primeira apresentação que ocorreu na Lona Cultural de Guadalupe o baterista caiu da banqueta e quase trouxe consigo a cortina do fundo do palco ao tentar se agarrar nela. Mas no geral nossas apresentações são bem controladas e imprevistos quase não ocorrem. Já em ensaios é outro mundo.
Certa vez blefei que havia escrito uma música e o blefe deu ruim, pois o pessoal pediu para eu mostrar a música ali na hora. Saíram alguns acordes, um riff e No Ar, segunda faixa do álbum, estava pronta.

Quais as vantagens e desvantagens de se fazer heavy metal em português?

A maior vantagem, na minha opinião, é que a língua pátria nos proporciona um menu enorme de palavras que podemos usar para dizer com a profundidade exata o que queremos expressar. Uma espécie de taxonomia. Essa diversificação também ajuda muito em relação à métrica que é o grande calo quando se pensa em cantar metal em português.
Um ponto positivo a favor do inglês é a fluidez que a língua inglesa tem sobre as línguas latinas. Fora isso, só mesmo a questão da audiência já que o inglês é a língua tida como universal. Para quem procura o mercado externo, realmente é essencial 
Para nós, por ora não.

Acha que o fato de cantar em português causa estranheza ao público headbanger, que geralmente é bem conservador com o estilo?

Não percebo muito esse bloqueio não.
Vamos colocar as coisas às claras. Somos uma banda brasileira que tem como alvo prioritário o público brasileiro. Para quê cantar em inglês para um público que muitas vezes não compreende? Não faz muito sentido. Quando a banda tem pretensões de atingir um público internacional com maior entrada em outros países, aí sim, faz todo sentido. Mas no nosso caso a gente quer trazer uma mensagem inteligível para quem vive aqui e o público tem respondido positivamente. Até porque esse conservadorismo musical é muito questionado ultimamente. 
A energia de uma música cuja composição tende trabalhar a métrica de forma fluída é a mesma de uma música cantada em inglês ou outra língua qualquer. O segredo está na atenção sonora que a banda consegue atrair para si.

Como imaginam o cenário assim que os shows voltarem a acontecer?

Cara, sinceramente imagino uma porteira sendo aberta e uma manada de búfalos derrubando o que estiver pela frente. Está todo mundo represado. Bandas paradas, energia sendo acumulada. O momento de abertura deverá ser celebrado como o retorno à liberdade. 
Até me veio à mente uma multidão correndo em campo aberto sob o brado "Freedom" de The Clansman (risos) 
Imagino que as casas de rock investirão muito na retomada e as bandas terão muito espaço. Mas é aquilo, haverá concorrência e o momento de se preparar é agora. Não dá para ficar parado esperando a vacina. Há muito trabalho para hoje.

Como é fazer rock em português em um país que não valoriza o estilo?

Extremamente difícil. Fazer a gente faz, mas fazer escoar é muito complicado. Há uma crescente onda de oferecer ao público coisas pastosas de fácil digestão, que as pessoas apenas devem consumir sem pensar muito. 
O rock no Brasil nunca foi o estilo preferido da massa, salvo o BRock nos anos 80 onde o rock pop, talvez até embalado pelo movimento pós-punk, conseguiu notório destaque. Antes, pelo que lembro, apenas a Jovem Guarda havia conseguido invadir espaços. 
Depois disso só me vem à mente um grande hiato onde tivemos pouca coisa interessante, ao meu ver. 
Hoje não é diferente. O cenário só se sustenta por tesão ao que se faz. Nós temos muito tesão pelo que fazemos. Vocês, por exemplo, também têm tesão pela publicidade e essas parcerias é que mantém o rock vivo. 
Agora você imagina escrever metal em português num cenário inóspito como esse? Só por tesão mesmo. Mas isso nunca nos soou como desanimador não. Ao contrário, a gente está no front e com muito gás ainda.

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Grande abraço a todos

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