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Entrevista: Renan Zonta e Ben Hur

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Autor: Diogo Franco

19/09/2020

É sempre bom ver a nova safra mantendo acesa a chama do rock n´roll. Mais bacana ainda é ver que tem uma galera que não soa pretensiosa querendo reinventar a roda, resvalando numa tentativa de soar excessivamente original, acabando por soar como uma piada mal compreendida ou se tornando caricato e como já dito, pretensioso. Não é o caso do Electric Mob, que faz um som coeso, dinâmico, que lembra em muito os grandes medalhões do hard setentista, e ao mesmo tempo soando original e moderno, sem perder as características das bandas consagradas.

O 80 Minutos conversou com o vocalista Renan Zonta(RZ) e o guitarrista Ben Hur (BH) , e eles nos contaram várias histórias sobre gravação, inspiração, influências e tudo mais. Entrevista perfeita pro tiozão que acha que o "róqui morrel" e que não há nada de interessante na atualidade.

Ao ouvir músicas como Devil You Know imediatamente percebe-se a influência do Led Zeppelin. Além das bandas dos anos 70, quais outros sons influenciam o som da Electric Mob?

BH: O Electric Mob é uma mistura das principais influências de cada membro. Temos mais de 60 anos de rock n roll pra ouvir, digerir e por pra fora, mas no final tudo é rock. Mas com tantas vertentes, sempre temos as que acabam tendo preferencia individual de cada um. Se fosse colocar em palavras, acho que desde os 70 aos 90 são as principais influencias, mas não únicas.

Far Off mostra muita versatilidade , com um início rápido e avassalador com inserções mais lentas e riffs á la Sabbath no fim. Como decidem o formato de cada canção, pra que não soe desconexo?

BH: O tema do álbum foi “não ter tema” (risos). Assim a gente ficou realmente livre pra compor e simplesmente por pra fora nossas influências. Se algo soa desconexo, a meu ver soa errado. Então a gente simplesmente foi compondo e finalizando as músicas com o que a gente sentia que era o caminho certo pra cada uma. Isso dar certo já são outros 500 (risos)

Os timbres dos instrumentos são espetaculares, com a bateria coesa e precisa, baixo “gorduroso” e guitarras na cara, sem medo de soar ora pesado, ora melódico. Que equipamentos foram utilizados?

BH: A gente tinha todos os sons na cabeça e sabíamos como deveriam soar, agora conseguir executar esse som cheio de “requeijão e carne moída” é mérito do nosso produtor Amadeus de Marchi, a estrutura do Nico’s Studio em Curitiba e a mixagem do Vinicius Braganholo. Ter uma equipe capacitada e disposta a tirar o melhor da banda é primordial. Quanto a equipamentos, temos um making of completão no nosso canal do YouTube onde falamos de tudo! Mas basicamente foram amps Orange tanto de baixo quanto de guitarra, bateria Pearl com diversos pratos e muitas (mas muitas mesmo) caixas diferentes, e pra voz um Shure SM7B.

A voz de Renan Zonta é um show à parte, lembrando os grandes mestres como Sammy Hagar ou até mesmo artistas da nova safra como Nathan James (Inglorious). Quais suas maiores inspirações e influências no vocal?

RZ: muito obrigado! Louco isso porque o Nathan é meu amigo pessoal, hahaha! Mas, vamos lá. Meu top 3 influências vocais da vida são Paul Rodgers, David Coverdale e Ronnie James Dio. Comecei a cantar por causa desses caras. Agora, depois vem uma pancada de gente de todos os estilos possíveis. Sou muito influenciado, também, por soul music, funk e blues, principalmente ali do começo da motown. Sempre surge alguém pra somar na minha lista.

Já que começamos a falar de influências, quais são as influências principais e pessoais de cada um?

BH: O Renan nos vocais puxa muito da escola dos 70. Eu na guitarra sou muito mais do hard rock dos anos 80. Já a cozinha com o Yuri no baixo e o André na batera, são mais os anos 90 e grooves mais modernos de 2000 pra frente.

Se pudessem escolher apenas um disco para ouvir o resto da vida, que disco escolheriam?

BH: Pra mim ter que escolher só um configura tortura (risos). Se eu tivesse o “Appetite For Destruction” do Guns N’ Roses e o “These Days” do Bon Jovi talvez sobreviveria.
RZ: essa é impossível de responder. Se fosse essa semana, “Macro” do Jinjer, ou talvez o “Dark Side of The Moon” do Pink Floyd. Se você me perguntar semana que vem, com certeza será outro.

Hoje é cada vez mais raro vermos o público em geral comentando sobre discos inteiros. Por conta disso muitas bandas optaram por lançar apenas músicas como singles, fazendo uso das plataformas digitais mais conhecidas. Apesar de vocês também utilizarem essas plataformas resolveram lançar um álbum completo. Na opinião de vocês ainda existe público que escutam álbuns inteiros ou existe a tendência desse hábito cair em desuso?

RZ: acho que a cultura do full album não se mistura com o lance de singles ou EP. O disco cheio nunca vai morrer. Penso que muitas das bandas do underground que lançam EP ou singles são pela questão financeira. Gravar disco cheio é caro. A gente é um exemplo. Precisávamos e queríamos muito lançar um material, mas não tínhamos condições de financiar um álbum. Tivemos que optar pelo EP (“Leave a Scar”, de 2017). Agora temos a sorte de ter uma grande gravadora nos dando suporte pra finalmente lançarmos o “Discharge”. Outro fato que desmistifica essa do “ou álbum ou single” é a simples liberdade de você compor e gravar uma música nada a ver com o que tem no seu álbum e lançar como single. Acho isso maravilhoso! Às vezes, o single dá mais espaço pro artista pirar do que o álbum.

Como foi o processo de composição, produção e gravação de Discharge?

RZ: foi “tranquilo”. Ficamos dois meses compondo MUITO, em conjunto, na garagem, literalmente. Quando tínhamos um número relevante de músicas, gravamos as demos e mostramos pra gravadora pra definir o repertório do disco. Depois disso veio o momento divertido de entrar no estúdio com o nosso produtor Amadeus De Marchi pra tirar os timbres e desempenhar o melhor que podíamos na gravação. Tudo foi gravado, mixado e masterizado no Nico’s Studio em Curitiba-PR.

Como tem sido a recepção do público e da crítica ao disco?

RZ: que é impossível agradar a todos a gente já sabia. Só não sabíamos que agradaríamos tanta gente, hahaha! A recepção tem sido incrível, do mundo todo. Centenas de reviews superpositivos, e, principalmente, olhares diferentes pro rock feito no Brasil. Os gringos tão bem curiosos sobre a água que a gente bebe, hahaha!

Muitas bandas optaram por adiar seus lançamentos devido a pandemia. Porque decidiram lançar o disco mesmo assim e não adiar?

RZ: na verdade, foi adiado. Era pro “Discharge” ter sido lançado em março, mas o boom da pandemia fez a gravadora adiar todos os lançamentos, incluindo a gente. A escolha de lançar independente do momento que enfrentamos veio diretamente da gravadora, pelo material já estar pronto e também pra não estragar – muito – o calendário de lançamentos.

Até que ponto essa pandemia alterou os planos da banda para esse ano?

RZ: 100%. Lançar neste momento não era uma preocupação nossa, mas sim não poder fazer as turnês que estavam planejadas pra divulgação do disco. Tudo o que já estava certo se tornou dúvida ou caiu por terra. Agora é o momento de se reestruturar.

King’s Ale tem um riff muito bacana, que lembra Joe Perry, com um refrão meio Uriah Heep. Your Ghost é uma balada meio Purple encontra o Scorpions. Como decidem o que usar em determinadas canções de modo que não soem exageradas?

BH: Ah, a gente tem já um “noise gate” no cérebro pra evitar exageros, pelo menos pra esse primeiro álbum. Mas sobre como as músicas devem soar é como havia dito, é bem natural. Aconteceu de a gente conhecer muita coisa, ter muita referência e influências distintas. Na hora de por em prática, a gente vai só adicionando o que cada um acha que a música pede.

123 Burn tem uns tempos bem malucos, fugindo da estrutura convencional e rítmica do hard rock em si. Que influências fora da área do rock n’ roll fazem parte da banda?

BH: Essas “doideiras” de tempo bizarro é tudo obra da mente perversa do nosso baixista Yuri com a ousadia do nosso batera André. Eles são menos convencionais que eu e o Renan e menos apegados aos clássicos, então na hora de inovar eles sempre são a mente criminosa por trás (risos)

Quais os planos da banda para o futuro?

RZ: estamos usando deste momento pra compor o máximo que conseguimos e nos reestruturando para o futuro, enquanto o covid-19 não nos permite sair pra tocar. Acho que até o fim do ano já teremos um material incrível para o próximo disco e, assim que tudo melhorar, vamos passar por todos os lugares espalhando a palavra, hahaha!

Que conselhos dariam a quem quer viver de música e ter uma carreira no nosso país? Quais as principais dificuldades ao se fazer rock cantado em inglês no Brasil?

RZ: A gente não tem moral nenhuma pra dar conselho, hahaha! Não existe fórmula a não ser trabalho duro, profissionalismo, sinceridade, honestidade, um bom visual, um bom trabalho de marketing e, PRINCIPALMENTE, músicas boas. São as músicas que conquistam as pessoas. Sobre as dificuldades de de fazer rock em inglês no Brasil, acho que hoje essas barreiras já foram quebradas. Nós somos do underground e aqui não existe barreira de idioma. Tem banda que eu gosto que nem letra tem, hahaha!

Muito obrigado pelo papo. Deixem uma mensagem para os leitores do site.

RZ: A gente que agradece ao espaço concedido e ao papo massa! Muito obrigado a todos que nos apoiam e torcem pelo nosso crescimento e, se tiver alguém que passou por aqui sem nos conhecer, dá uma moralzinha pra nós aí e ouve o que a gente tem a dizer. Valeu!!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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