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Entrevista: Roosevelt Bala

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Autor: Diogo Franco

19/09/2020

Roosevelt Bala pode ser considerado o pioneiro do heavy metal brasileiro. Diretamente do Pará, sob o comando do Stress, esse ícone brasileiro alcançou o mundo ao ter sua banda citada em documentários sobre o estilo, ao lado de nomes como Iron Maiden e Judas Priest. Se você achava que no Pará só havia a Banda Calypso, prepare-se, pois essa entrevista reveladora vai te mostrar que há muito mais do que a mídia divulga por aí.

Em 1977 o cenário de rock era praticamente inexistente em nosso país. Se tratando de Heavy Metal, a coisa era ainda mais complicada, visto que ninguém havia feito som pesado por aqui. O que você ouvia na época em que a banda foi formada?

No início as influências não eram tão pesadas, costumávamos ouvir Beatles, Stones, Creedence, Nazareth, Bad Company e outros, não tão pesados. Já por volta de 74/75, conhecemos Sweet, Led, Purple e Sabbath. Foi aí que a banda deu uma boa guinada do Hard para o Pauleira, esse era o termo, não havia pra nós o Heavy Metal, ainda.

O primeiro disco foi concebido mais ou menos numa “atmosfera Black Sabbath”, no sentido de que tiveram pouco tempo pra gravar e um orçamento apertado. Esse tipo de situação se repetiu depois ou as dificuldades foram diminuindo a partir desse ponto?

Só a história desse primeiro disco daria um livro, rsrs. Bem no começo nós tocávamos só covers, fizemos alguns shows assim. Em 79 começamos as primeiras composições, que naquele momento já tinham uma pegada mais pesada. Queríamos ser a banda mais pesada e rápida do planeta... e acho que conseguimos, rsrs. As músicas vieram pau a pau com as bandas Inglesas, como Judas, Saxon e Maiden, sem soar parecidas, pois já tínhamos o estilo Stress, fácil de reconhecer hoje em dia, rápido, pesado, melódico e bem trabalhado. O bolo da cereja são as letras em Português, todas com excelentes temas e conteúdos. A maior dificuldade dessa gravação foi o estúdio – Sonoviso (RJ) - , cujos técnicos não tinham a menor noção de gravar Rock Pauleira, chegaram até a propor que nós gravássemos as guitarras sem distorção, limpas, alegando que aquele som pesado era um “defeito”, rsrsrs. Depois de muitos perrengues durante as 16 horas de estúdio, saímos de lá com uma fita K7, nem quisemos a máster, tamanha era a decepção com o resultado final. Queríamos um som tipo Judas e saímos de lá com um som Hardcore. Pra não perder tudo que investimos, resolvemos prensar 1000 cópias. Sorte nossa, pois aquele seria o álbum pioneiro do metal BR. Sobre os demais discos eu conto logo em seguida.

O disco Flor Atômica está completando 35 anos e continua sendo uma das maiores referências no metal nacional. Conte-nos um pouco sobre o processo de composição e gravação desse disco?

Em 84 o André Chamon mudou-se para o Rio, eu fui logo em seguida, janeiro de 85, após largar o emprego concursado na Petrobrás. Parecia insanidade, e foi, mesmo, rsrs. O Rock in Rio estava na porta, foi realmente um divisor de águas para o movimento pesado no nosso país. Vimos super bandas pela primeira vez, um encanto pra todos. Quando tudo terminou, algumas gravadoras estavam em busca de um representante brasileiro no segmento metal (o termo já era esse). Por indicação da produtora do Rock Voador (Circo Voador), Maria Juçá, a Polygram nos procurou para conversar. João Augusto, hoje presidente da Warner, marcou um ensaio/audiência, pra conhecer a banda, um teste na verdade. Depois de tocarmos algumas músicas, com a maior vontade possível, ele parou o ensaio e disse: Vocês tem 10 músicas? ... Nós respondemos que sim – na verdade não tínhamos nem 4-. rsrs... Ele disse: “Vamos gravar!”... Foi a maior alegria naquele momento. Tínhamos recebido muitas propostas para coletâneas, inclusive SP Metal foi ventilada. Porém sonhávamos com um LP só nosso. Fizemos alguns ensaios emergenciais, pra chegarmos às 10 músicas. Conseguimos 8, resolvemos acrescentar duas do primeiro disco: “Sodoma e Gomorra” e “Mate o Réu”. O produtor concordou.
As seções de gravação foram bem melhores desta vez, mas ainda assim não foram tão tranquilas. Tivemos problemas com o AMP de Guitarra, que estava com auto falantes defeituosos, não permitindo um timbre de distorção pesado, como gostaríamos, tipo Sabbath. Ficou apenas uma saturação, a lá AC/DC. Não havia tempo para trocas, acabou ficando do jeito que todos conhecem no disco. Não tão pesada, mas não comprometeu o resultado. Outro problema foi que a música “Forças do Mal” que foi para o disco foi a versão sem voz, um erro grotesco. Tivemos de aceitar, pois já havia 10 mil cópias prensadas, não tinha como descartar, o prejuízo seria enorme. A promessa de que consertariam noutras prensagens, nunca aconteceu. No final, é um excelente álbum, um dos grandes da história da banda e do Metal Brazuca.

O Stress surgiu causando algumas polêmicas, principalmente por conta de letras como Lixo Humano (transformada em Lixo Mano) e Oráculo do Judas, que originalmente se chamava Corpus Christi. Isso foi proposital ou vocês apenas escreviam aquilo que acreditavam na época?

Compúnhamos sem nenhum receio, o que vinha do coração, sem pensar que poderiam ser vetadas pelos censores. Praticamente, todas as músicas do primeiro álbum foram censuradas. Era preciso refazer as letras, driblando os avaliadores, com jogo e troca de palavras, a gente quase sempre conseguia. Quando não tinha jeito, a letra era reconstruída do zero, mesmo. Foi assim durante os anos 70 e início dos 80.

Temos presenciado um fenômeno curioso, que é um aumento da influência das redes sociais em todos os aspectos, principalmente político e musical. Até que ponto você acha isso benéfico para novos artistas e também para os da velha escola?

A internet veio ajudar na divulgação dos trabalhos dos artistas, é fato. Antes, ou você pagava “jabá” nas rádios ou ficava a mercê de um milagre, de sua música quebrar as barreiras e chegar por si só nos veículos de comunicação. A grana falava mais alto. Entretanto, por outro lado, a internet deu voz a um filão de pseudo rockers, que em nada somam ao movimento, tem a discórdia como objetivo. São uma versão atualizada dos Radicais dos anos 80, o Netbanger Tr00zão, uma praga que corrói a cena. Mas, esses não merecem menção nem Ibope, espero que fiquem no seu submundo da Treta, que é o que lhes é prioridade. Só faço música pra eles, me divirto com isso, rsrs.

No início de carreira, vocês eram divulgados como o Judas Priest brasileiro. Analisando sua voz e os discos do Stress vemos que Rob Halford é uma grande referência pra você. Essas comparações o incomodam?

Não tenho pudores de dizer que Halford foi meu mestre, junto com Robert Plant. Aprendi muito cantando suas canções, são influência direta nas minhas composições e melodias, sem cópias, obviamente, apenas referência, pois são os meus ídolos.

Quais as maiores influências da banda, além do Judas? Que vocalistas você considera indispensável pro seu estilo?

Temos muita influência do The Sweet, Saxon e Iron. Mas, eu nasci nos anos 60, ouvi o supra sumo da boa música, tudo está na minha cabeça, os detalhes e as sonoridades afloram na hora de compor, tenho muita facilidade de criar, boas melodias e bom Riffs, é um dom que vem do Criador Mor.

Na sua opinião o que falta para que as bandas de hoje deem continuidade ao legado deixado pelo Stress?

Não precisam copiar os Velhinhos, a influência é natural, eu mesmo sei disso.  Precisam criar sempre, compor, registrar e divulgar suas obras, sempre dando o melhor, seu suor e sangue nos olhos. Toque aquilo que vc gostaria de ouvir, seja verdadeiro consigo e com seus fãs!

Há alguma previsão de comemoração do aniversário de 35 anos do lançamento de Flor Atômica após o fim dessa pandemia?

Essa comemoração deve ser adiada para o ano que vem, não pode passar em branco. Espero fazer essa celebração em São Paulo, cidade onde somos muito bem recebidos, e depois levar para os 4 cantos do país, não conhecemos quase nada, ainda, quero me divertir com os Headbangers de todo o Brasil.

Se tivesse que escolher uma música sua pra indicar a uma pessoa que não conhece seu trabalho, qual seria a canção que melhor define seu estilo?

Acredito que o nosso maior hit é “Brasil Heavy Metal”, eu quase nem canto mais nos shows, vira Karaokê Metal, rsrs... Essa música tem todos os elementos de um Metal Raiz, clássico, pesado, rápido, melódico, com uma letra emocionante... Já nasceu hino!

Como foi abrir o show do Iron Maiden na sua cidade natal, onde tudo começou?

Quando garoto, eu ficava ouvindo os discos do Iron, revirando as capas , de ponta a cabeça, lendo tudo, imaginado como seriam os caras em movimento (não havia nem vídeo). Então, roda a fita, 35 anos depois eu estou no mesmo palco que eles, com a banda me assistindo no backstage, meus conterrâneos cantando nossas músicas a plenos pulmões, tão orgulhosos quanto nós... Foi surreal... sonho difícil de acreditar...Mas, aconteceu!

Em 2007, a banda foi escolhida pra estar ao lado de grandes nomes do metal, como Alice Cooper, Iron Maiden, entre outros, no filme Global Metal. Qual a importância real dessa escolha visto que no Brasil a grande mídia ignora os artistas que fazem um som mais pesado?

Quase ninguém sabe disso, mas é verdade. Os pioneiros do metal no Brasil, antes de Sepultura, despertaram esse interesse no produtor do Global Metal, Sun Dunn. O cara nos entrevistou por mais de 2 horas, pouco tempo foi para o Doc, mas já valeu. Estar nesse meio de Estralas Imortais do Rock já é um prêmio. Me senti muito feliz com esse reconhecimento internacional, fizemos história, estamos nela.

Que bandas chamam a sua atenção no rock hoje em dia?

Confesso que eu tento conhecer bandas novas, as que mais me atraem são as que tem uma Raiz Oitentista. Embora eu respeite todos os estilos do metal, meu coração bate forte pela simplicidade de um Status Quo ou pela técnica - sem exageros - de um Judas. Gosto de ouvir e ver bons vocalistas e bandas que, com 3 notas, conseguem mover montanhas de rockers, tipo AC/DC, rsrs... Sei que resumi um bocado, mas tem muita coisa legal nesse intervalo do Rock ‘n’ roll... Hard Rock... Heavy Metal.

Se pudesse escolher apenas um disco pra ouvir pelo resto da vida, qual seria?

“Sweet Fanny Adams” , do Sweet ... Provavelmente foi o que mais eu ouvi na vida.

Como você analisa a carreira do Stress desde o primeiro disco até Devastação de 2018? O que a entrada de Emmerson Lopes mudou no estilo da banda?

É notório que evoluímos muito com o tempo, cada disco mostra uma técnica melhor, composições e execuções subindo de nível, culminado com o Devastação, um trabalho primoroso. Não à toa foi eleito o melhor disco de metal nacional em 2019, um dos 10 melhores do mundo. Estamos muito satisfeitos com o nível que atingimos, todos reconhecem que o Stress está melhor que nunca, isso nos é gratificante... Emerson é um batalhador, muito talento, vontade e determinação. Sua entrada para a banda foi premeditada pelas estrelas, rsrs. Começou tocando no meu show de 40 anos de carreira (2017), entrou para a minha banda local, e um mês depois estava gravando com o Stress, pela impossibilidade do Paulinho Gui, naquele momento. Ele se dedicou bastante nos riffs, bases e solos, deu seu melhor, acabou ficando também entre os melhores guitarristas de 2019.

Pra finalizar, conte-nos uma história curiosa ou engraçada nas turnês do Stress.

Primeiro show do Stress no Circo Voador, Rio, 4 de abril de 83... Final do show, aquele “espalha merda” de final de música, eu olho pro André e ele está de pé lá na bateria, bateu a adrenalina nos dois. Ele saiu chutando a batera e eu entrei com o Baixo no meio dela... Derrubamos tudo...Dei uma pedrada com o Baixo no chão... ai, um silêncio total no Circo... De repente, a plateia invade o palco, pensei que fossemos apanhar, pois não haveria mais nenhuma apresentação possível depois daquilo... Para minha surpresa, fomos carregados nos ombros do público, como final de campeonato, todos vibrando muito eufóricos... Foi então, que eu ouvi pela primeira vez alguém dizer: “É a primeira banda de Heavy Metal do Brasil!!!!” ... Uauuu!! ... Na hora não acreditei e nem entendi direito... Mas, o tempo viria a confirmar aquela frase!.

Obrigado pela entrevista. Deixe uma mensagem para os seus fãs e aqueles que ainda não conheceram o metal do Stress.

Agradeço pela oportunidade de contar um pouco dessa história dos pioneiros e peço as Rockers/Headbangers da nova safra, que nunca deixem que as diferenças de pensamento e gostos pessoais os impeçam de seguirem juntos, cada vez mais fortes, honrando a luta e o legado dos Velhinhos Pioneiros... Agora, tudo isso que foi plantado lá atrás está nas suas mãos... Segurem umas nas outras e façam, também, as suas histórias!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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