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Entrevista: João Eduardo Faria Filho

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Autor: Mário Pescada

31/08/2020

Cogumelo Records: 40 anos de história contados em entrevista

Fundada em 12/08/1980 pelo casal João Eduardo Faria Filho e Creusa Pereira de Faria (a Pat), a Cogumelo Records completou agora em agosto 40 anos (!) dedicados ao underground, abraçando toda a diversidade do rock, sobretudo nos estilos mais pesados: heavy metal, thrash metal, death metal, black metal, splatter, punk, hardcore, grindcore, etc.

A Cogumelo Records tem mais tempo de estrada do que outras conhecidas gravadoras do rock/metal mundial, como a Nuclear Blast (1987), Century Media (1988) e Relapse Records (1990). E mais: foi fundada em um certo país tropical que estava saindo da ditadura, atravessando (mais uma) crise econômica e sediada em uma das cidades mais tradicionais do país. Tinha tudo para dar errado, mas não deu.

Graças a ela, o metal “Made In Minas” conquistou seu espaço não só nacional, mas mundial. Apresentou ao mundo registros de bandas de todas as partes do nosso país, bandas como SEPULTURA, OVERDOSE, SARCÓFAGO, RATOS DE PORÃO, CHAKAL, HOLOCAUSTO, MUTILATOR, PSYCHIC POSSESSOR, SEXTRASH, THE MIST, WITCHHAMMER, HEADHUNTER D.C, STOMACHAL CORROSION, DROWNED, SAGRADO INFERNO, DORSAL ATLÂNTICA, AMEN CORNER, CALVARY DEATH, ATACK EPILÉPTICO, IMPURITY, VULCANO, D.F.C., HAMMURABI, KAMIKAZE, LOBOTOMIA, P.U.S., TIANASTÁCIA e muitas, muitas outras.
Para contar mais dessa história, das comemorações dos 40 anos, os efeitos da pandemia nos negócios e o que esperar do futuro, conversamos com o João Eduardo. Confira!

Acompanhe também as novidades da Cogumelo Records, apoie o metal nacional e prestigie o underground!
Loja: Avenida Augusto de Lima, 555, loja 29, Centro Belo Horizonte/MG

Contato: cogumelo@cogumelo.com
Site Oficial:  cogumelorecords.loja2.com.br
Facebook:  cogumelorecoficial 
Instagram:  cogumelorecordsoficial 

Olá João Eduardo, tudo bem? Obrigado por conceder essa entrevista ao 80 Minutos e parabéns pelos 40 anos da Cogumelo!

Obrigado a vocês!!

Abrir uma loja de discos de rock em pleno anos 80, com o país saindo da ditadura, com a economia cambaleando e na conservadora Belo Horizonte: João, o que você tinha cabeça!

Nós somos de uma geração que cresceu ouvindo rock. A gente passou pela Ditadura e por todas as dificuldades desta época. A ideia a gente já tinha. Quando a Pat (minha mulher) recebeu sua herança, resolveu investir em um negócio próprio. Então foi uma situação que aconteceu na época. Agora, em plena crise do petróleo, abrir uma loja de LP´s, realmente foi uma ideia bem fora de padrão.

Foto: entrada da loja da Av. Augusto de Lima, sempre movimentada (fonte: acervo pessoal Cogumelo)

Quem teria dado a ideia de produzir o slipt “Bestial Devastation / Século XX” (1985) - primeiro registro do selo e do SEPULTURA e OVERDOSE - teria sido o Vladimir Korg (CHAKAL, THE MIST, THE UNABOMBER FILES), então funcionário da loja e com aval da Pat. É isso mesmo?

Sim, o Vladimir trabalhava na loja como gerente e, como a gente vendia muito este tipo de som que estava chegando no Brasil via importação, começaram a surgir as primeiras bandas no estilo em Belo Horizonte. E realmente já havia o OVERDOSE, o SAGRADO INFERNO, e depois o SEPULTURA, CHAKAL, HOLOCAUSTO e várias outras. Então a sugestão foi dele, de gravar este primeiro projeto.

Sempre que se fala em Cogumelo, logo pensamos em SEPULTURA e SARCÓFAGO, as duas maiores referências da gravadora. Porém, a quantidade de bandas lançadas nesses anos é enorme. Quais bandas lançadas você acha que mereciam ter tido melhor sorte?

Sim, várias bandas mereciam ter estourado, pois eram muito boas. Todas tiveram um determinado momento, mas muitas não souberam aproveitar as chances. Ou não tiveram uma sorte melhor, por exemplo o OVERDOSE, o THE MIST, o WITCHHAMMER e várias outras.

Foto: integrantes do Sextrash e Sarcófago na entrada da loja da Av. Augusto de Lima (fonte: acervo pessoal Cogumelo

Houve alguma banda que você tentou trazer para o selo, mas por algum motivo, não conseguiu? E quais bandas você sente falta de trabalhar junto e por quê.

Não. A gente nunca se preocupou com isto, pois eram muitas bandas em Belo Horizonte. Sempre fomos demandados por bandas de outras cidades e estados. Demos chances a todas elas, tanto que, você vendo nosso catálogo, você sente uma presença forte das melhores bandas de todas as épocas da gravadora.

Sabemos que na Europa, bandas como SARCÓFAGO, MUTILATOR, IMPURITY, RATOS DE PORÃO, VULCANO e outras são cultuadas por fãs apaixonados. Vocês recebem muitos contatos/pedidos de discos vindo da gringa?

Sempre bandas brasileiras foram muito cultuadas lá fora. A gente sempre procurou distribuir melhor os produtos lá fora. Mas sempre as coisas são difíceis no Brasil. A importação e exportação gera uma logística grande e os correios sempre foram muito caros. Há uns 10 anos, firmamos uma parceria com a Greyhaze Records nos USA, que tem lançado os produtos lá fora. Isto possibilita o acesso das pessoas a este material com um custo melhor. O nosso crescimento no exterior é lento, mas seguro. Cansamos de ser pirateados lá fora.

Em 2012, tivemos o lançamento do espetacular “Catálogo Cogumelo 30 Anos” (nota: livro comemorativo em parceria com a Prefeitura de BH com tiragem esgotada de 1.000 cópias e que trazia 1 cd bônus). Podemos esperar algum produto comemorativo aos 40 anos?

A ideia nossa para este ano especial seria lançar o Catálogo de 40 anos atualizado com os lançamentos destes 10 anos em português e inglês, e também com um brinde extra, inédito, para os fãs. Já temos o que vai ser na cabeça, mas não vamos divulgar ainda.  Entramos com um Projeto na Lei de Incentivo da Cultura de Belo Horizonte aqui. Vamos ver se conseguimos. Se a gente não conseguir, vamos ver se conseguimos parceiros no Brasil para isto, ou tentar financiamento coletivo.

O site Heavy Metal On Line produziu por conta própria o documentário “Cogumelo 35 Anos”, muito bem feito e cheio de histórias, porém, foi um lançamento não oficial. Já houve a ideia de se produzir um registro desse tipo, oficial?

A gente já pensa em um documentário sobre a trajetória da loja e selo há bastante tempo, mas nunca conseguimos chegar num padrão de produção à altura para oferecer para os fãs. Agora, criamos um projeto deste Documentário em parceria com a Goblin (Produtora de Áudio Visual em BH), dentro da Lei de Incentivo à Cultura na Prefeitura de Belo Horizonte. Se a gente não conseguir o financiamento, vamos proceder com o catálogo, vamos tentar fazer com parceiros ou financiamento coletivo, pois já está passando da hora.

40 anos de história merecem ser comemorados! Podemos esperar, em algum momento, um show comemorativo?

O show já estava até agendado para agosto agora. Já tínhamos o cast que iria tocar, seria um ingresso popular, limitado, somente para pessoas cadastradas, para ser uma festa mesmo. Aí veio a pandemia e mudou o nosso mundo. Tudo vai ser diferente agora. Temos de ter cuidados com os outros. Agora, somente no ano que vem, com uma nova visão e com outro formato, talvez. Mas vamos fazer sim.

Logo comemorativo 40 anos (fonte: Cogumelo Records)

Falando em show...lembrei do Cogumelo Fest, evento com várias bandas nacionais e internacionais, no antigo Lapa Multishow. Com o passar do tempo, a Cogumelo foi realizando cada vez menos shows, o que aconteceu?

A realização de shows gera muito trabalho, logística, investimento, equipe e, principalmente, público. O que está acontecendo em Belo Horizonte, acontece no pais inteiro. Esta ridícula lei de meia entrada acaba beneficiando pessoas que falsificam carteiras. O governo tem de tomar uma providência urgente com isto. Aí quem quer ver o show, acaba pagando um preço muito alto.

Ainda sobre casas de show: além do Lapa, a cidade também perdeu o Music Hall que abria suas portas para o rock/metal. O Matriz vive um momento delicado esse ano, chegando a abrir financiamento coletivo para se manter vivo nos próximos meses. O Mister Rock está lançando produtos para gerar receitas enquanto está fechado e também abriu financiamento coletivo. Você vê esse processo como natural ou a situação das casas de show BH é preocupante?

Todos nós vivemos um momento muito delicado. Fica difícil falar sobre isto. Vamos ter de nos reinventar. Agora, fico triste com esta situação, pois ninguém se preocupou com o setor cultural, com os músicos, roadies, produtores neste momento da pandemia. Isto não é natural, a situação é preocupante. Temos de tentar sensibilizar o poder público para ajudar as casas de show neste momento.

João, os shows de rock/metal em BH estão cada vez mais vazios, não pela falta de boas atrações e esforços dos produtores em trazer boas bandas, mas o público não tem comparecido como deveria. A cidade vem perdendo cada vez mais espaço para outras do país, saindo aos poucos do da rota de eventos. O que poderia explicar isso: os preços salgados dos ingressos para a maioria, a não renovação do público, mudança de comportamento das pessoas, etc.?

Este conjunto de situações que você colocou é muito interessante. O preço fica alto por causa da meia entrada, o público está segmentado e dividido em estilos de música. O Heavy metal está todo cheio de estilos diferentes e existem radicais no meio deste pessoal que não gostam de ir em shows com públicos mesclados. A renovação do público também pega, nós temos uma geração inteira que nos acompanha. A loja sempre tinha duas ou três gerações de metal, mas agora tem diminuído um pouco. Mas é um público fiel, que nos acompanha há bastante tempo.

Como empresário, você passou por muitos momentos complicados: nos anos 80 a crise econômica do país, nos anos 90 uma nova geração chegando e a “morte” do vinil, nos anos 2000 a explosão do mp3 e pirataria em massa, 2010 a “morte” do cd e rock perdendo espaço na mídia e, agora em 2020, a pandemia. Qual desses foi o período mais complicado?

Passamos por muita coisa mesmo, mas nunca contra um inimigo invisível, como esta pandemia. O que torna mais difícil o combate dela é este desgoverno que está o pais, cheio de radicais de todos os lados. Todo mundo tem de entender que, quem está morrendo, é o pobre, o excluído, o vulnerável. Todas as crises antes não são nada perto disto. Na década de 90, decretaram a morte do LP. Entraram com o CD. Mas o LP está aí vivo de novo. Ele tem qualidade de áudio, a capa é muito mais legal. Então estamos editando nossos discos em todos os formatos agora e começando a avançar na plataforma digital para aí realmente a gente conseguir uma penetração maior da música pesada brasileira lá fora.

Temos bandas, como a DORSAL ATLÂNTICA, que optaram pelo financiamento coletivo (crowdfunding) para lançarem suas obras, alegando mais liberdade artística e maior remuneração. Você acha viável um artista seguir “sozinho”, sem uma gravadora dando suporte/divulgação?

Tudo sozinho é mais difícil. Cada pessoa faz sua opção. A gente procura fazer parceria com as bandas hoje, mudou muito o mercado. A banda tem de ser praticamente uma pequena empresa para dar certo hoje. Tem de divulgar, tocar, mostrar seu trabalho. Nós procuramos incentivar todas as bandas a montar uma estrutura assim. Por isto as coisas dão certo aqui.

Já decretaram a “morte” do vinil, mas ele persiste, apesar dos preços altos. O cd, disseram que acabaria com o mp3/plataformas digitais, mas continua sendo lançado, logo, há demanda. Até o K7, dado como extinto no final dos anos 80, parece que voltou, para um nicho bem restrito, é verdade, mas tem sido lançado com frequência. Para você, sempre haverá espaço para todas as mídias ou futuramente, com as novas gerações, haverá uma consolidação de formato, no caso, a mídia digital?

A melhor mídia sempre foi o LP, o resto é conversa fiada. O cassete acho meio complicado. Embola, suja, agarra. É mais para ficar na estante mesmo. Agora, o vinil, é um ritual. É diferente. É o melhor suporte de música criado. Tenho LP´s que comprei há 50 anos e estão lá, lindos, rodando. O CD melhorou muito com este tempo e hoje, pelo preço de um vinil, você compra 04 CD´s. Então, como somos um pais pobre, acho que o CD tem uma sobrevida bem longa aqui. Tiragens menores, mais títulos. Isto é bom.

Hoje temos muitos selos/gravadoras funcionando sem loja física, uma forma de cortar custos fixos como salários, aluguel, taxas, impostos, etc. A Cogumelo pretende manter sua loja física funcionando?

Enquanto a gente estiver na frente de nosso negócio, que é a editora e gravadora, vamos ficar com a loja física. A Gravadora é herança para os meus filhos. Nós trabalhamos com afinco e por todas estas crises que você citou. Tínhamos um desafio, nós sobrevivemos e estaremos cada vez mais fortes. A vontade de ficar na loja é grande, mas a idade vai chegando. Mas, o que fazer com este tanto de amigos, músicos, profissionais da área, que não são mais clientes. São nossos amigos. Vai ser difícil. Nesta pandemia eu notei isto. A gente atendeu on line, mas o pessoal quer conversar com você, saber sua opinião, quer dicas dos discos. Ouvir a música na loja. Pegar nos discos. É diferente, é sensorial.

A loja símbolo da Cogumelo, na Avenida Augusto de Lima, por ironia, fica perto da atual. Muito marmanjo ainda se lembra com saudades do toldo verde, da porta de vidro escura, da tv rolando shows, dos discos nos alto-falantes. Quando você passa por ali, o que te vem à cabeça?

Na minha cabeça, vem a saudade dos amigos perdidos, levados precocemente pela morte. Saudade. Foi um tempo legal, mas hoje está tudo bem. Tudo muda. Estamos vivos, com saúde. Temos a editora e a gravadora, estamos lançando bandas novas até hoje e relançando o nosso catálogo antigo. Colhendo o que plantamos ao longo do tempo. O retorno do pessoal tem sido muito legal, mesmo na pandemia. 

Foto: fachada loja da Av. Augusto de Lima, com seu toldo escuro e porta blindex preta (fonte: acervo pessoal Cogumelo)

João, o passado foi de muita luta para manter o negócio funcionando a cada desafio que aparecia. O presente é a pandemia que exige novas formas de pensar no negócio. E o futuro, o que esperar dele?

O futuro só com a vacina mesmo. Temos de nos preparar para viver num mundo novo, as pessoas vão ter de mudar, melhorar o seu lado social. Temos de ter mais educação e gentileza com as pessoas. Cuidar mais dos outros.

Para terminar, uma provocação, qual a melhor: SEPULTURA ou SARCÓFAGO?

Nenhuma das duas. Gosto muito, pois são bandas do meu coração. Mas, a minha banda preferida, sempre foi o CHAKAL. Eu gosto muito do pessoal mesmo. Trabalharam com a gente, nos ajudaram sempre e até hoje estão aí na ativa.

João, obrigado mais uma vez por falar com o 80 Minutos, parabéns para a Cogumelo e que venham mais 40 anos!

Obrigado a vocês. Mais 40 não vem não. Mas, vamos manter a chama acesa aqui em Minas.
Long Live the Loud!!!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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