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Entrevista: Eliton Tomasi

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Autor: Diógenes Ferreira

11/05/2020

Surgido em 2002 em Sorocaba, interior de São Paulo, a Laudany na época chamou atenção pela qualidade de seu som calcado no Metal/Gothic/Rock que os fizeram ter bons momentos ao vivo abrindo shows para bandas renomadas como Moonspell e Shaman, além de boa aceitação de público e crítica de seu álbum ‘Trials and Punishment’ lançado em 2006. Porém, após um longo hiato, a banda desde 2018 vem retomando aos poucos as atividades e agora formada por Moyses Prado (vocal), Hooligan (guitarra), Netto Carvalho (bateria) e Eliton Tomasi (baixo) está pronta para dar continuidade a carreira com o novo EP que está por vir intitulado “Now”. Conversamos com Eliton Tomasi, hoje baixista da Laudany sobre esse retorno da banda, com nova formação, novas ambições e um pouco também sobre seu trabalho como produtor cultural e também seus anos como editor-chefe da saudosa Valhalla Magazine. Confira! 

Maiores informações sobre a banda Laudany e sobre as atividades de Eliton Tomasi:
www.facebook.com/laudanyofficial
eliton@somdodarma.com.br

Saudações Eliton, obrigado por nos conceder esse bate papo para os leitores do 80 Minutos. Tudo bem com você?

Salve Diógenes! Tudo bem sim, obrigado, dentro do possível nesse cenário de pandemia, é claro. Espero que você e todos da equipe do 80 Minutos também estejam bem e em segurança.

Já começo perguntando sobre sua entrada na banda, já que antes você atuava como ‘manager’ do grupo e agora assumiu o posto de baixista da Laudany. Como se deu essa transição? E porque a banda ficou inativa por tanto tempo?

Então, na verdade eu formei a Laudany em 2002 junto aos meus amigos, o guitarrista Hooligan e nosso querido baterista Netto Caravalho que, infelizmente, faleceu recentemente. À época, embora eu atuasse como manager do grupo, eu também já contribuía no processo criativo da banda. Participei do desenvolvimento de todo conceito do disco de estreia “Trials And Punishments”, letras, ideias para músicas, arranjos, etc. Depois da turnê de divulgação do disco, que incluiu shows muito fodas, como o de lançamento do disco na Thorns Gothic Rave, além do show ao lado do Moonspell no antigo Directv Music Hall em SP, começamos a compor novas músicas para o segundo disco, mas, por volta de 2008, a banda deu uma estacionada. Não há motivos específicos, simplesmente rolou um distanciamento. Mais de 10 anos depois, nos reencontramos e as coisas foram evoluindo de forma natural, até decidirmos reativar a banda. Como nesse momento eu estava tocando baixo, foi meio obvio que eu ocupasse esse posto também. Então chegamos a formação com eu no baixo, Moyses Prado no vocal, Hooligan na guitarra e o Netto Carvalho na bateria. Mas, infelizmente, como disse no começo, essa formação não durou muito tempo. :(

A Laudany é uma banda que surgiu muito bem no cenário na década de 2000 junto com outras bandas brasileiras como Elegia, Sunseth Midnight, Seduced by Suicide, todos da escola do Gothic Metal/Rock com influências de nomes como Moonspell, Sentenced, Entwine, Lacrimas Profundere, Paradise Lost, Killing Joke, Type O’Negative... Com esse retorno a banda pretende manter essa mesma linha musical ou o tempo trouxe novos elementos para a música do grupo? O que podemos esperar do novo EP “Now”?

Sim, para esse novo EP, “Now”, manteremos a mesma direção, talvez de forma mais plural, diria. Na verdade, me incomoda ser categorizado. Arte, música, principalmente rock/metal, tem que pressupor, sempre, a liberdade. E qualquer tipo de categorização significa limitação. É claro que há referências musicais, como o Killing Joke que você citou - para mim, uma grande referência como baixista e compositor – que são a base para sua identidade estética, mas penso que essa identidade deve sempre se expandir, transmutar... O Paradise Lost sempre fez isso muito bem.
Essas músicas que serão lançadas no “Now” são faixas que estariam num segundo disco da Laudany. Decidimos por lançar algumas num EP para consolidar esse momento e o retorno da banda. Infelizmente, com a perda do Netto, nosso baterista, esse lançamento terá um sabor bem amargo. Ainda faltam gravar as vozes de três músicas, mas temos uma pronta, “Holy Wisdom”, que anteciparemos o lançamento no formato de single, junto com a versão acústica que fizemos para “Loosing Shelter”, do primeiro disco, e que tocamos na primeira edição do “Roadie Crew – Quarentena Online Festival”. Logo anunciaremos a data desse lançamento que será um tributo ao Netto.

O álbum “Trials and Punishment” foi um grande cartão de visitas da banda, que inclusive resultou na abertura de show para o Moonspell e participação em festivais de Gothic/Rave e Expomusic. Como foi esse período de evidência para a banda? Há como recuperar o tempo perdido no atual cenário musical ou de fato é como recomeçar do zero?

Essa época foi muito massa. Havia uma grande mobilização dentro desse cenário de música e arte gótica. A Thorns Gothic Rave era um evento único.  Em nenhum lugar do mundo eu vi algo parecido. Fizemos o show de lançamento do álbum lá. Já o show com o Moonspell também foi bacana, tocamos numa grande casa de shows, que era o DirectTv Music Hall. E o show na Expomusic foi o segundo show da banda, ainda com o meu amigo e mestre Cesinha Rodrigues no baixo. Tempo bom, mas que passou e deve ficar no passado. O presente sempre me interessa mais. :)

Ainda sobre o “Trials and Punishment”, o disco trazia muitas faixas de destaque como “Learning To Fall”, “Foolishly Convinced”, “Loosing Shelter”, “Invisible”, “Criminal”, provando que foi um álbum de muita qualidade musical. Como está o núcleo criativo e de composições da banda hoje com a nova formação?

A base estética e conceitual desse disco começou com o Hooligan e eu. Trocávamos dezenas de e-mails todos os dias, com ideias de letras e músicas.
A partir disso, o Hooligan, e também nosso antigo tecladista, Wellington Moreira, criaram as primeiras bases musicais que eram levadas para os ensaios e lá todos contribuíam de forma impar para os arranjos. Destaque também para o vocalista Moyses Prado que tem um talento único para compor linhas de voz. E ele fazia isso com letras já compostas e que foram escritas sem levar em consideração o aspecto melódico das músicas. Um gênio.
Hoje o processo criativo continua focado na parceria entre o Hooligan e eu. Acho que somos uma boa dupla de compositores. Nossas ideias fluem muito naturalmente e de forma convergente.

É impossível pra mim não relacionar o início da faixa “Unnatural Paradise” com a “Planet Caravan” do Black Sabbath, também ‘coverizada’ pelo Pantera. Houve de fato essa inspiração ou essa interpretação minha é apenas uma vaga lembrança?

Acho que isso tem a ver com o que falávamos numa das perguntas anteriores, sobre as referências musicais. Nesse primeiro disco o Sabbath foi a principal referência. Mas não de forma intencional. Era a banda preferida de todos os integrantes, portanto, uma referência lógica. A Laudany nunca escolheu soar como o Black Sabbath, tanto é que não vejo uma semelhança direta, a não ser nessa faixa que pode sim remeter a “Planet Caravan”, mas essa semelhança é muito mais consequência de um plano subconsciente do que de uma intenção.

O álbum ‘Trials and Punishment’ também trouxe participações especiais na época como a do multi-instrumentista Amyr Cantusio Jr. (Alpha III), o violinista Vlamir Ramos (Orquestra Sinfônica de Campinas) e a vocalista carioca Mel Boa Morte (Trinnity) que enriqueceram ainda mais o som do grupo. Essas ‘special guest’ é algo que a banda trabalhou no ‘Now’ ou pretende apresentar para lançamentos futuros?

Essas participações no “Trials And Punishments” aconteceram como consequência do processo criativo. Em determinadas músicas sentimos a necessidade de explorar certos recursos musicais que não seriam possíveis encontrarmos dentro da banda, como é o caso dos vocais femininos, por exemplo, ou os violinos. Ademais, na época, os recursos do softwares e plug-ins ainda não eram muitos. Então tivemos que gravar tudo em estúdio! Me lembro da sessão de gravação com o Amyr Cantusio em que varamos a madrugada gravando todos os instrumentos que ele nos trouxe: flauta, derbark, percussão, etc. Já no “Now”, não sentimos essa mesma necessidade, até porque são apenas três músicas autorais e uma versão para “Strenght To Endure” dos Ramones.

Falando do lado artístico, a capa do EP ‘Now’ apresenta uma arte sem logotipo da banda ou título do álbum, de autoria da artista visual Vera Araújo. É um tipo de conceito que a banda pretende adotar para os próximos trabalhos?

Sim! Definitivamente! É uma tentativa de priorizar a essência artística em todos os aspectos da produção criativa da banda. Se você pensar bem, o logotipo da banda e título do álbum na capa de um CD nada mais é do que um padrão de mercantilização, uma forma de tornar mais fácil o acesso ao produto nas prateleiras das lojas. Não queremos, sob nenhuma hipótese, pensar em nossa música como um produto de mercado. De forma que trouxemos a foto dessa obra de óleo sobre tela da Vera Martins. Sem logo da banda. Sem título do álbum. “Now” não é produto. É arte.

Eliton, você além de baixista, é um profissional com bastante vivência nos bastidores do cenário musical como produtor cultural a frente da produtora Som do Darma. Nos fale sobre esse trabalho que contribui para o desenvolvimento e apoio de outras bandas do cenário Rock/Metal nacional e particularmente, quais as principais diferenças que você enxerga do atual cenário para o que tínhamos há 20 ou 30 anos atrás?

Eu comecei a Som do Darma em 2008 como um caminho obvio para minha carreira após o fim da Valhalla, em 2007. Já produzia shows, agenciava bandas, entre elas a Laudany. Fazer disso minha ocupação principal após o fim da Valhalla, foi um caminho tão natural que em 2009 já estava partindo pra Europa com o Hellish War em turnê. Desde então a Som do Darma e o trabalho com as bandas da produtora continuam sendo minha principal ocupação profissional. Há diferenças gigantes, não só em comparação há 20 ou 30 anos, mas em relação ao começo desse ano, por exemplo (risos). Nesse cenário de pandemia que estamos, tudo precisa ser mudado, adaptado. Uma das formas que encontramos foi através do festival online que viabilizamos junto com a Roadie Crew. Nesses 12 anos com a Som Do Darma, foram muitos e constantes os momentos como esse, de mudança, de adaptação, e acho que isso é uma das nossas principais qualidades: encontrar soluções criativas para vencer desafios. O principal deles foi a quase extinção de uma instancia em que podemos chamar de “mercado de rock/metal”. Não temos mais tantas gravadoras, empresas e investidores apostando em novas bandas e em shows. Não há sustentação econômica para isso. Nesse contexto, a Som do Darma tornou-se, talvez, a única produtora do Brasil, no segmento do rock pesado e metal, que explora os editais públicos de cultura, por exemplo. E, para mim, esse é o melhor cenário: acho muito perigoso a aproximação da arte com o mercado.

Além de baixista e produtor cultural, todos lembram de seu trabalho a frente da revista Valhalla, uma das publicações que tiveram destaque no segmento Rock/Metal no Brasil ao lado de outras como a Rock Brigade, Roadie Crew, Planet Metal, Metalhead, que ajudaram a moldar e informar o público amante de som pesado desse país. Nos fale sobre esse período de ouro para todos e se de fato tornou-se inviável hoje em dia manter uma publicação impressa diante do atual mercado. É inevitável a migração para o mundo virtual?

Economicamente, foi mesmo um período de ouro para o mercado do rock/metal. Tínhamos um mercado, de fato. Eram muitas as gravadoras em todo o mundo. Novas bandas e lançamentos apareciam toda semana. Os shows, mesmo no interior, estavam sempre lotados. Cheguei a produzir shows entre a segunda metade dos anos 90 e a primeira metade dos anos 2000 que conseguiam colocar 700/800 pessoas só com bandas brasileiras de metal autoral. E foi justamente com a renda desses shows que fui investindo na revista, melhorando a qualidade gráfica, ampliando a tiragem, aumentando a frequência até chegar a ser uma revista mensal com distribuição nacional (inclusive Portugal). Como estou afastado do mercado editorial há algum tempo, não posso dizer com precisão se é inviável ou não, mas, fazendo uma análise superficial, o cenário atual não me parece economicamente favorável. Os hábitos culturais também mudaram, estão mudando constantemente. A Valhalla está online, como um Blog pessoal. Estou sempre publicando novos textos lá. Quem quiser acompanhar, o endereço é www.valhalla.com.br

Nessa época da Valhalla/Rock Hard, qual evento, artista ou banda você sentiu mais satisfação em cobrir, entrevistar, fazer alguma matéria...? E quais seus estilos musicais/bandas favoritas?

Tony Iommi, Gene Simmons, Quorthon (Bathory), Janick Gers, Glenn Hughes, David Coverdale, Rob Halford, Glen Danzig, Yngwie Malmsteen, King Diamond, Dave Mustaine, Phil Anselmo, Geoff Tate, entrou outras, foram algumas das entrevistas que mais curti fazer. Quanto a cobertura de shows, nossa, fiz muitas! Nessa época tínhamos shows em São Paulo quase todo fim de semana. E eu fazia questão de estar em todos. Participava do máximo de festas e eventos possíveis.  A cobertura do Rock In Rio 2001 foi massa, pois também tive a oportunidade de cobrir como fotógrafo. Mas eu curtia muito também cobrir os pequenos eventos no interior do país. Quanto meus estilos e bandas favoritas, bem, curto muito rock progressivo, rock gótico, som industrial, grunge, metal tradicional, thrash metal, hard rock, etc. Minhas dez bandas preferidas são Black Sabbath, Yes, Genesis, The Beatles, Alice In Chains, Queensryche, Fates Warning, Iron Maiden, Stone Temple Pilots e Killing Joke.

Eliton, satisfação em ter cedido seu tempo para o 80 Minutos e abordar sobre assuntos diversos e relevantes para os leitores do nosso site. Você gostaria de deixar algum recado aos nossos seguidores e aos fãs da Laudany e do Rock/Metal em geral? Fique a vontade.

Diógenes, eu que agradeço e peço desculpas publicamente por ter demorado para te responder, mas meu tempo é um pouco limitado. Eu trabalho com o que eu mais gosto de fazer na vida, a música é o que move minha vida... Tenho todos esses projetos ai: Som do Darma, Valhalla, Laudany, e agora tem uma nova banda que montei com o Hooligan (guitarrista da Laudany) que se chama Lived. Então eu tenho que ter uma boa administração e disciplina com meu tempo, pois, do contrário, acabo negligenciando outros aspectos da vida que também são muito importantes. E essa entrevista ficou muito foda, parabéns, merecia respostas dadas com toda atenção. A coisa mais frustrante para um entrevistador é receber respostas clichês, padrões, desinteressadas, depois de você ter dedicado tanto tempo para preparar uma pauta. Mas, por outro lado, é sempre massa receber umas respostas de um entrevistado que realmente parou e dedicou seu tempo e atenção a essas respostas. Foi o que pretendi aqui. Obrigado pelo seu tempo também, irmão. Um abraço.
NOTA: Durante o período de elaboração dessa entrevista, ocorreu o lamentável falecimento do baterista Netto Carvalho e nós do 80 Minutos desejamos conforto aos familiares e amigos da banda, deixando aqui nossos sinceros sentimentos a todos. R.I.P. Netto Carvalho.


Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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