Para os que respiram música assim como nós


Entrevista: China Lee

Acessos: 389


Autor: Diogo Franco

23/02/2020

China Lee é um lutador. Um dos caras que mantém acesa a chama do metal em nosso país, seja com o Salário Mínimo ou com o Extravaganza, sempre podemos esperar algo de bom desse ícone do som pesado. A entrevista a seguir foi uma das mais fáceis de se fazer, pois o cara é humilde, gente boa, super acessível e extremamente sincero. O que vocês lerão a seguir, é algo sem cortes nem edições, tudo exatamente como foi dito. Caso você pense um dia que não há Heavy Metal de qualidade do Brasil, dê uma conferida nos trabalhos dele e surpreenda-se. Aqui é rock n' roll puro e sem frescuras. 

Vamos ao papo.

Você é um dos remanescentes da cena metal brasileira dos anos 80. Como era fazer metal nos anos 80 e 90 e qual a diferença em ralação aos dias atuais?

Nos anos 80 o heavy metal estava estourado no mundo inteiro, então já existia uma força muito grande de fora do país, mas a gente tinha uma cena de rock muito forte nos anos 70 com as bandas daqui e quando surgiu o heavy metal na Inglaterra principalmente, as bandas mais novas daqui, no casdo do Salário, Santuário, Stress, todas aquelas bandas dos anos 80: Nós recebemos influencia muito forte das bandas da Inglaterra e acabamos mudando do Rock n Roll pesado, do Rock pauleira que tinha aqui para o heavy metal. A grande diferença é que as bandas eram muito unidas no Brasil inteiro. As bandas se comunicavam com toda a dificuldade que existia na época, se ajudavam, e o público era a nota maior. O público lotava os lugares. O público era disposto a ver o heavy metal principalmente cantado em português, essa era a maior diferença dos anos 80 para os 90 pra hoje. Hoje, o cara pra sair de casa está cada dia mais difícil tirá-lo de casa: A preguiça, a ausência, reclama de tudo, essa é a principal diferença.

Quando começou com o Salário Mínimo, quais eram suas referências no país? E quais bandas inspiravam vocês a fazer heavy metal em português?

Minhas referências no Brasil era Casa das Máquinas principalmente, o meu ídolo, o Simbas vocalista da Casa das Máquinas, Made In Brazil, Patrulha do Espaço, Peso, Rock da Mortalha, eram essas bandas que mais marcavam e influenciavam a garotada que depois virou heavy metal, nenhuma banda de heavy me influenciou, porque nós influenciamos o resto né. Nós somos os influenciadores. Nós somos a primeira safra de bandas de heavy metal, mas já existia esse trabalho do Made in Brazil , Patrulha, Casa da Máquinas, muitas bandas boas.

Mesmo tendo essencialmente uma carreira tocando metal, você sempre teve uma veia hard/glam bem forte, que mais tarde ficaria explícita com o Extravaganza. Qual a diferença básica de um projeto pro outro, além obviamente da sonoridade?

Tudo é uma tendência. O início do Salário a gente tinha uma influência muito grande do heavy metal, o tempo foi passando e recebemos uma influência muito grande do Hard Rock, americano principalmente. E nos anos 90 é o que estava forte lá, e agente acaba tendo um certa influência. Não tem uma diferença, porque o Extravaganza era pra ser o Salário, Só  que eu e o Mika nós nos juntamos, que queria trazer o Mika pro Salário e o Mika queria me levar para o Santuário. Conclusão, nenhuma das duas bandas de heavy metal acabaram acontecendo e nós formamos o Extravaganza. Então,o Extravaganza seria uma sequência do Salário, era o que a gente tava afim: E se você pegar nosso  disco lançado nessa época de 2000 agora, 2009/2010, Simplesmente Rock, é uma sequência também do Extravaganza. Então tudo é uma sequência de trabalho, recebendo influências lá de fora.

Beijo Fatal foi um marco no cenário nacional, porém as bandas Mainstream dos anos 80 tocavam um estilo totalmente diferente, quase sem solos, bases leves e com uma vibe alegrinha, etc... O que faltou para que bandas mais pesadas como o Salário tivessem a mesma atenção por parte da mídia numa época em que não havia internet?

Vou falar com convicção, esse Rock mais pop que apareceu nos anos 80 foi pra conter a força das bandas de heavy metal. E as gravadoras achando que nós tínhamos influência muito forte estrangeira, criaram um rock aqui, certo! Isso presidentes de gravadoras da época me falaram. O Salário foi até muito bem, nós fomos a 40 programas de televisão, entramos nas rádios, faltou as outras bandas fazerem a mesma coisa pra gente ter um respeito maior, mas sem dúvida nenhuma, a aposta nessas bandas todas pop, foi pra conter a euforia do heavy metal, que estava muito forte, que cantava e português e as gravadoras apostaram pra ter tipo o “Rockinho Brasileiro”, tipo aquele Rockinho de grude, pra conter a explosão do heavy metal. Era pra ser a gente e eles não deixaram.

Qual a canção mais marcante pra você tanto do Salário quanto do Extravaganza?

A música mais marcante é difícil de falar. Dentro tantas músicas, vamos dividir assim, do Beijo Fatal, Rosa de Hiroshima, que foi a música que abriu as portas pra gente no Brasil inteiro e dessa segunda fase, a balada Anjo do Simplesmente Rock que é emociona muita gente, duas músicas que realmente marcam a nossa época.

Sabemos que o cenário não é favorável e mesmo assim você mantém a chama acesa. Qual a maior dificuldade de se fazer Metal e Rock em geral no país hoje?

A dificuldade de fazer Metal e Rock no Brasil são todas. Todas que se pode imaginar, falta de apoio do público, falta de apoio de patrocinadores, dos órgão públicos, de tudo. È quase que impossível, o cara tem que ser muito louco pra fazer um negócio desses e amar demais o que faz. Nós somos praticamente excluídos da sociedade, como se a gente não existisse. Então as dificuldades são todas......hahahaha....Todas!!!!!!!

Vimos recentementes algumas bandas gringas no rock in rio. Algumas ainda em forma como o Scorpions e o Iron Maiden. Outras como o Bon Jovi já dando sinais de cansaço, principalmente nos vocais. Quais os cuidados você toma pra manter sua voz?

Cara nunca fui de me cuidar muito por incrível que pareça, me cuido na alimentação, procuro fazer caminhada, sempre fui ligado a academia, mas sempre tive um abuso muito grande de drogas, álcool, hoje nem tanto, mas sempre fui um cara de abusar muito e nunca cuidei muito da minha garganta, hoje mesmo eu fumo 2/3 maços de cigarro de um ano pra cá, dois anos a minha garganta, começou a dar umas falhadas. E aí eu voltei a estudar canto e fazer os exercícios todos os meus companheiros, pessoas e fãs dizem que eu estou cantando mais que antigamente. Hoje eu voltei a fazer aquecimentos antes dos shows, a me dedicar a fazer a coisa certa, fazer o aquecimento vocal. Tem alguns segredos de chás e algumas coisas que faço, mas nunca fui de me cuidar muito, infelizmente.

Vocês fizeram uma versão muito bacana e diferente de Sociedade Alternativa , clássico de Raul Seixas. Como surgiu a ideia de tocar essa música numa versão mais metal?

Essa música a gente veio fazendo alguns testes com ela em alguns Moto Clubes, em algumas viradas culturais, e pra, tipo, agitar a galera que não conhecesse a banda, e ela acabou vingando. Ela era pra estar inclusive no Simplesmente Rock, Só que a briga entre a esposa do Raul Seixas, Kika Seixas e o Paulo Coelho acabaram não liberando a música pra gente e por isso ela não está no Simplesmente Rock. Mas a gente já tinha testado ela ao vivo, funcionou demais, e aí fizemos uma roupagem com a cara da banda. A mesma estratégia de Rosa de Hiroshima, a gente ia repetir isso no Simplesmente Rock, e infelizmente não liberaram a música.

Os fãs ficaram entusiasmados com o single “Tempo”. Há planos de um novo álbum do Salário?

Sim, a música “Tempo” era a cara da nossa nova linha, que a gente ia traçar. Cara! É uma resposta que eu falo muito, inclusive o André Matos antes de falecer, a gente estava em um evento, e ele falou: “Cara! Como é que você monta um repertório? Porque é impossível tirar uma música do Beijo Fatal!!!!” Então é difícil cara. A gente não tem ânimo de fazer música nova por quê a gente não consegue encaixar elas no repertório. E eu não tenho mais energia pra fazer um novo disco e trabalhar por ele. Nesse momento não tenho pretensões nenhuma de lançar um disco novo, porque as pessoas só querem ouvir as velhas. E isso acontece com as bandas gringas, não é só com a gente não. Então, não tenho pretensões de nesse momento lançar um disco novo do Salário. Estou focando mais no meu acústico, toda energia pro meu acústico junto com o Mika.

E sobre o Extravaganza? Teremos novidades em breve?

Nós estamos fazendo um acústico, como falei na  outra resposta, eu e o Mika. Falta de tempo hoje é uma coisa que todo mundo tem. Então estamos fazendo a principio o acústico que vai ter música do Salário, e mais músicas do Extravaganza ainda, porque somos dois do Extravaganza. Fatalmente vamos dar uns dez shows do Extravaganza. Primeiro vem o acústico, depois fatalmente vai ter que existir uns dez shows do Extravaganza, com relançamento do disco, talvez uma parte em vinil, outra em Cd, e umas inéditas fatalmente vai ter acredito que pra esse ano ainda e tá mais fácil fazer do Extravaganza do que do Salário Realmente. Essa é a proposta.

Como foi abrir show de bandas como Uriah Heep, entre outras? Teve contato com os caras? Como foi a receptividade deles para com as bandas brasileiras?

É, nós abrimos Scorpions, The Rods, Twisted Sister, UDO e mais alguns, tirando o Twisted Sister, onde até os funcionários deles, os roadies deles ajudaram a gente a montar e desmontar o palco, ficaram curtindo nosso show. O resto os caras vem com aquela ideologia de que eles são os bam bam bans e os caras vem pra “mijar” na cabeça da gente. Tanto que eu tive problema com quase todos eles, tanto que quem foi no show percebeu que eu dei umas cutucadas e falei o que os caras fizeram com a gente. Eles tem essa visão de que somos subhumanos, vamos se dizer assim, tratamento não é muito legal. Só tiro isso do Scorpions, é uma mega banda de 200/300 pessoas no backstage não tinha acesso a eles, os caras cumprimentaram a gente de lá, de longe, mas o resto cara, o tratamento é muito triste.

Quais bandas você destacaria hoje em dia? Alguma banda mais nova te chama atenção?

Eu conheço um número enorme de bandas, vou atrás, quero conhecer, tem muita banda boa. Eu gosto muito do Gueopardo, não é uma banda nova, mas é uma banda que vem crescendo, muito disposta a trabalhar, é do Rio Grande do Sul. Gosto muito de uma banda Hard Rock, a maioria é tudo Hard Rock inclusive, Inlust, que eu gosto bastante. Gosto muito do Sweet Danger, é uma banda hard Rock também, e gosto muito de uma banda chamada Livin’  Metal, é uma banda de heavy metal, uma molecada muito legal. Essas as quatro banda que eu destacaria, mas tem muita gente boa. É que as essas quatro além de serem boas, a grande diferença é que eles trabalham, então aí está a diferença, elas trabalham e é o mais importante. É 1% de música e 99% de trabalho.

Se você pudesse escolher um único disco para ouvir a vida inteira, qual seria sua escolha?

Cara é muito difícil essa pergunta, cada dia eu acordo de uma forma, gosto muito de ouvir Iron Maiden, Helloween, Journey, Mötley Crüe, Beatles que é minha essência, gosto muito de ouvir Elvis. Um disco que me faz bem, eu vou de Shout Ate The Devil do Mötley Crüe, mas é uma resposta bem difícil, que cada dia você tá com uma pegada.

O que você costuma ouvir fora da área do rock n’ roll?

Eu gosto do Rock heavy metal, é a minha essência, não fujo muito disso, mas eu gosto muito de música flamenca, a música cigana né, gosto muito da música árabe por incrível que pareça, o Ritchie Blackmore sempre ouviu, por exemplo. Música clássica eu ouço bastante e tem uma influência aí de uma cantora que me emociona muito que é Fado, que por ser filho e descendente de portugueses, mas é só uma cantora que me emociona muito que é Amália Rodrigues, cantora de Fado que já faleceu. Fora isso, gosto muito de música eletrônica bem feita, americana inclusive, mas seria isso o básico.

China obrigado pelo papo. Deixe uma mensagem para os seus fãs e os leitores do nosso site.

Gostaria de agradecer a todos vocês, prestigiem o site, prestigiem toda essa equipe que está trabalhando pelo heavy metal de graça. Muito obrigado Diogo Franco. Parabéns pelas perguntas !!!!! Muito obrigado pela oportunidade. Abraço!!!!!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Compartilhe:

Comente: