Para os que respiram música assim como nós


Entrevista: Ramon SIlva

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Autor: Diógenes Ferreira

25/07/2019

Formada em 2009 depois do reencontro de Leo Vieira, Jobson Machado e Ramon Silva, que já haviam tocado juntos no projeto Heaven And Hell,em 2003. A Canyon tem como objetivo fazer um som Hard e progressivo baseado na influência de seus integrantes. Dez anos depois e agora como um quarteto com a entrada do baterista Ítalo Silva, a banda lança seu full-length para os amantes do Hard/Prog Rock e o 80 Minutos bateu um papo com Ramon Silva sobre carreira, projetos e planos futuros da Canyon. Confira! Para conhecer mais sobre a banda, acesse: Site: canyon1.bandcamp.com Biografia da banda no 80 Minutos: 80minutos.com.br/artist.php?artist=1937 Resenha do álbum Older Than Time no 80 Minutos: 80minutos.com.br/review.php?review=1123

Saudações Ramon, obrigado pela disponibilidade em falar para os leitores do 80 Minutos. Tudo bem com você e com todos da Canyon?

Saudações Diógenes, eu que agradeço o interesse pelo trabalho da banda. Quanto ao Canyon, todos seguimos bem e levando nosso som.

A banda recentemente lançou seu primeiro álbum ‘Older Than Time’, após 10 anos de batalha desde a formação do grupo. Como tem sido a receptividade ao novo álbum? Ele será lançado em mídia física ou somente nas plataformas digitais?

A receptividade ao trabalho tem se mostrado incrível, até agora os reviews sempre foram positivos e inclusive pessoas de outras partes do Brasil vem mostrando interesse em conhecer mais a banda. E mais surpreendente é que nosso maior feedback é de pessoas que ouvem Metal Extremo no geral, principalmente Death e Black Metal! E isso nos orgulha pois sabemos que é um público muito seletivo e se caímos no gosto desse nicho é sinal que estamos no caminho certo. O CD será sim lançado em formato físico, inclusive já está pronto, tanto o CD quanto a parte gráfica tudo graças ao apoio da Cianeto Discos (RS), Gadanho Records (AM) e a Fanzine Produções, que gostaram do nosso trabalho e decidiram nos apoiar nessa empreitada. Como apreciadores de CDs e LPs, nós sempre idealizamos nossas obras visando o formato físico, porém esse trabalho quase não seria lançado agora, pois uma gravadora conhecida daqui do Brasil se propôs a lançar 1000 cópias do CD, nos fez gastar tempo e dinheiro, nos mandou o contrato e no dia da assinatura, decidiu desistir pois nosso som, segundo eles, não era Rock Progressivo o suficiente. Foi um momento de desânimo mesmo, que nos fez repensar muita coisa, mas colocamos a cabeça no lugar e fomos atrás de novas parcerias que nos receberam de braços abertos e gostaria aqui de deixar registrado meus agradecimentos a Gil Dessoy (Cianeto), Nilberto Borges (Gadanho) e Natanael Jr.(Fanzine) sem esses três provavelmente o Older Than Time não seria lançado tão cedo.

A arte da capa é mais um trabalho seu? Afinal, sabemos de seu talento gráfico haja visto não só as capas dos primeiros registros da Canyon e do projeto Hopkins, mas também os trabalhos feitos para álbuns das bandas Nosferatu e Denim and Leather, entre outros serviços de artes gráficas elaborados por você. Qual o conceito da arte do álbum?

Sim, a capa e todo o layout é de minha autoria e retrata o ser que é descrito na faixa título Older Than Time. Ele é uma entidade cósmica que caminha entre as estrelas há bilhões de anos luz e antecede toda a vida existente no universo, ele antecede toda a compreensão humana. Ele é o centro do cosmos, as galáxias foram criadas de dentro de suas entranhas. Ele é imortal. Mas não confunda isso com alguma aproximação de dogmas religiosos. Muito pelo contrário. 

O álbum apresenta desde canções da primeira demo com novas roupagens e produção como “Fight Them”, “Sleeping Lady” e “Questions No Answers”, a faixa do compacto ‘Iron Giant’ e composições novas como “Hard Life”, “Sorceress” e “Lunar Eclipse”. Esse de fato é o registro que se torna o cartão de visitas da banda, não só por ser o primeiro full length oficial mas também porque abrange toda a trajetória do grupo até aqui, certo?

Você está correto. São músicas que executamos ao longo da nossa história que mereciam ter um tratamento digno no quesito produção. Questions foi a primeira música que desenvolvemos juntos e temos um carinho muito especial por ela, assim como Sleeping Lady que foi uma canção que escrevi em 2000 e quando nos juntamos pra tocar essa música pela primeira vez algo mágico aconteceu. Nossa afinidade musical foi sendo lapidada nestes momentos e essas canções são parte importante dessa história e não poderiam ficar de fora de nosso debut oficial. Por outro lado nós somos muito prolíficos em composição e sempre surgiam idéias novas que foram se tornando canções que decidimos gravar, já são de uma nova fase como quarteto e a liberdade de duas guitarras nos permitiu colocar em prática uma nova abordagem para o nosso material. Assim sendo, concordo mesmo que criamos um cartão de visitas que abrange as principais facetas da banda e dão um panorama do que criamos ao longo desses 10 anos.

Eu particularmente senti falta da “Vae Solis” e da “Elegy For The King” presente nos primeiros registros. A opção de não incluir uma releitura das mesmas nesse álbum de estreia foi por questões de logística do material ou futuramente ainda serão aproveitadas?

Foi consenso da banda em não incluir essas duas músicas no primeiro disco apenas por questão de duração do material, mas essas músicas serão sim rearranjadas e reaproveitadas num futuro álbum, inclusive temos planos de retornar a executá-las ao vivo.

Por falar em trajetória e evolução, a banda nos primórdios era um trio e você era o dono das baquetas. Fale sobre a mudança de formação da banda, passando a ser um quarteto com a entrada de Ítalo Silva assumindo a bateria e você dividindo vocais e guitarras com Jobson Machado.

Me tornei baterista no Canyon por necessidade e sem experiência anterior, pois nós três tocávamos instrumentos de cordas e alguém teria que assumir a bateria, como o sabíamos que ninguém que conhecíamos toparia entrar numa banda como a que estávamos idealizando, eu comprei uma bateria e comecei a praticar, tenha em mente que no começo estávamos ouvindo bandas underground de progressivo dos anos 60 e 70 da Itália, Alemanha, Indonésia, etc. como Guru Guru, Semiramis, Alphataurus, Capitolo 6, Corte Dei Miracoli entre outras e sabíamos que público pra isso aqui era 0. E pessoas interessadas em tocar isso era -0... Então fechamos a banda entre nós três e passávamos as tardes de sábado num cubículo quente improvisando por horas e aí iam surgindo as músicas. Funcionou nesse começo, mas sempre sofri de dores crônicas na coluna e sempre era um sacrifício tocar, inclusive pensei em sair da banda e além disso sempre sentimos falta de mais um instrumento ao vivo e ficávamos na esperança de trazer mais um integrante, tentamos um tecladista que não deu certo, foi quando tivemos  a idéia de arrumar um baterista pra me substituir me deixando livre pra assumir as guitarras e voz da banda. Ítalo foi nosso baterista no The Rockers (Tributo ao Thin Lizzy) e o convite foi natural, tudo mudou com a entrada dele, desde a sonoridade da banda até a produção em si, ele foi o responsável por todo o trabalho de gravação, mixagem e masterização do Older Than Time e também participa da produção dos shows da gente e como quarteto nós pudemos dar mais ênfase aos arranjos de cordas o que só foi possível com sua chegada. Foi a melhor coisa que poderíamos ter feito como banda. Nascemos como um trio por necessidade, mas o Canyon foi idealizado para ser um quarteto.

Vamos voltar ainda mais no tempo e falar do começo da banda. Jobson veio da banda Vociferate que praticava um Thrash Metal nervoso, à qual inclusive cheguei a fazer uma resenha da demo para o antigo Hellish Zine (sei lá quantos anos atrás, no início da década passada) e então uniu-se à você e Léo Vieira, surgindo assim a Canyon. Fale mais sobre esse período inicial do grupo e a escolha de fazer Prog Rock, nadando contra a maré do cenário atual.

A banda nasceu de um reencontro. Fazia uns 4 anos que nós não nos víamos, perdemos o contato de alguma forma nesse período. Sempre tivemos vontade de tocar juntos e inclusive montamos um projeto cover do Black Sabbath em 2001 que não saiu dos ensaios. Com esse reencontro a vontade de fazer som reacendeu e decidimos colocar a idéia em prática dessa vez, no começo eu sugeri que fizéssemos um som na linha da NWOBHM estilo Angel Witch, Blitzkrieg, Saxon... tinha até nome o projeto: Hounds Of Hell, mas aí que veio a coincidência: Durante as conversas começamos a falar de som e Leo me disse que estava ouvindo muito progressivo obscuro tipo: Mythos, Alcatraz, Le Orme, etc... Sons que eu também estava ouvindo! E foram coisas que começamos a ouvir no período em que perdemos contato! Nessa hora fomos nos empolgando e no final da tarde já havíamos decidido nosso estilo: Prog Rock. Primeiro nos chamamos Solarisphere, depois Red e por fim, Canyon. Nadar contra a maré é o que temos feito desde então.

E os shows, a banda tem tido oportunidades de apresentar sua obra ao vivo em São Luís, Teresina e região. A perspectiva é que o álbum tenha um maior alcance e possa abrir mais portas em outras regiões do país?

Sinceramente, com meus 40 e poucos anos a idéia de shows fora do estado não é uma coisa que me deslumbra mais, muito menos uma carreira fazendo música. O que eu desejo apenas é que esse trabalho chegue nas mãos de quem realmente deseja ouvir nosso som e que esse disco seja um registro de que passamos por essa vida e deixamos nossa marca aqui, mesmo que modestamente. Mas não somos esnobes e nem descartamos fazer outros shows em qualquer lugar aonde quiserem nos ver, tudo no seu tempo.

E seus outros projetos, Hopkins, Orsokon e The Rockers terão continuidade ou a dedicação está 100% com a Canyon?

O Hopkins é uma incógnita, estou com 8 músicas compostas e duas propostas para lançar: Um selo na Espanha e outro do Brasil, mas como gravo tudo sozinho tenho que me programar, mas acho que é coisa pra 2020 (se acontecer). Orsokon está suspenso indefinidamente, mas não descartado, pode ser que daqui até minha morte saia algo! The Rockers é diversão e estamos planejando fazer um show esse ano, tocar Thin Lizzy é uma sensação indescritível e levar a obra de Phil Lynott para quem não conhece é uma missão que tenho como minha. Mas resumindo e respondendo sua pergunta: Tudo terá sua continuidade no tempo certo. Mas no momento, com o show de lançamento do CD, aniversário de 10 anos e tudo o mais, tenho que concordar que todo o foco está no Canyon.

Você é um cara que transita do Rock Progressivo Psicodélico ao Heavy Metal Tradicional, do Krautrock ao Thrash Metal, do Hard 70’s ao Pop 80’s... então vou lhe pedir uma tarefa complicada, aponte suas principais influências desde músicos, bandas, álbuns que marcaram sua vida e de certa forma criaram sua identidade musical.

É muita coisa! Vou resumir... 

Bateristas: Neil Peart, Phil Collins e Bill Bruford. 

Guitarristas: Adrian Smith, Robert Fripp, Andy Latimer, Brian May, Steve Rothery, Alex Lifeson, Steve Rackett, Scott Gorham, Brian Robertson. 

Vocalistas: Peter Gabriel, Fish, Mark Farner, Phil Lynott, Freddie Mercury, David Byron. 

Bandas: Camel, Genesis, Queen, Dust, Marillion, Angel Witch, Testament, Cirith Ungol, UFO, MSG, Thin Lizzy, Triumph, Iron Maiden, Tangerine Dream, The Mist, Goblin, Uriah Heep, Secos e Molhados, Journey, Rush, Yes, Whitesnake, Mercyful Fate, Le Orme, Alphataurus, Tears For Fears, Scorpions, Elf, Dio, Europe, Judas Priest, Styx, Creedence Clearwater Revival, Opeth, Led Zeppelin, ELP ,Hendrix, Todd Rundgren, The Sweet…

Álbuns: A Wizard, A True Star –Todd Rundgren, Somewhere In Time – Iron Maiden, Them- King Diamond, Killer-Alice Cooper,  Nursery Cryme-Genesis, Misplaced Childhood-Marillion, In The Court Of Crimson King-King Crimson, Jailbreak e Fighting-Thin Lizzy, 2112 , Farewell To Kings e Hemispheres-Rush, Frontal Assault –Angel Witch, Visual Lies – Lizzy Borden, Joshua Tree-U2, Cyclone- Tangerine Dream, The Final Countdown-Europe, Diamond Dreamer-Picture, News Of The World-Queen, Demons and Wizards-Uriah Heep, Stained Class-Judas Priest, Moonmadness-Camel, Black Sabbath-Vol. 4, Bark At The Moon-Ozzy, Paradise Lost –Icon, Creatures of the Night –Kiss, The Rise and Fall Of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars e Diamond Dogs-David Bowie, Wheels Of Steel e Strong Arm Of The Law-Saxon… Tenho certeza que falta muita coisa importante pra mim nessa lista, mas se eu continuar vou precisar de mais um ano para responder rs.

Ramon, obrigado pelo bate-papo e por compartilhar um pouco mais sobre a Canyon com os leitores do 80 Minutos. O espaço é seu para as considerações finais. Vida longa ao Canyon!

Só tenho a agradecer a oportunidade, a você Diógenes, pelo apoio, aos meus amigos de banda e as pessoas que gostam do nosso som, listar um por um seria injusto, pois com certeza algum nome ficaria de fora. Nesses 10 anos de banda vivemos muita coisa juntos, momentos amargos e momentos felizes, crescemos como pessoas e músicos, mas a nossa essência se mantém intacta assim como a seriedade como encaramos nosso trabalho. Só o tempo vai dizer quanto tempo ficaremos aqui mas enquanto estivermos nosso compromisso se mantém: Fazer o nosso melhor. Obrigado.	


Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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