Entrevista

Charlie Curcio

Relacionado com: StomachalCorrosion

Por: Mário Pescada

Colaborador

01/11/2021



Data da entrevista: 01/11/2021

Charlie Curcio fundou aquela que é considerada a primeira banda de grindcore do Nordeste e uma das primeiras do país, o STOMACHALCORROSION (junto mesmo, batizo   inspirado nas letras do CARCASS e CORROSSION OF CONFORMITY), além de passagens por diversas outras bandas (INSÂNIA, DIARRHEA, ÓSTIA PODRE, DISARM, etc.).

Colecionador, vendedor, fã ardoroso do KISS, atleticano listrado (roxo, não!) e agora, avô. Já teve bar, loja de discos, trabalhou na Cogumelo Records, agenciou bandas e mais um punhado de coisas. Nômade, viveu e passou por muitas situações dentro e fora da música nas diversas cidades em que morou.

Pelo STOMACHALCORROSION, gravou dois discos, uma série de splits, K7´s, EP´s, demos, DVD, etc. levando o lema “Do It Yourself” (DIY, Faça Você Mesmo) ao limite, mantendo o nome da banda sempre vivo, mesmo quando essa passa uma temporada longe dos palcos ou vivia outra mudança de formação. 

Recentemente se arriscou na literatura, liberando quase que de uma vez dois livros: a sua biografia “Ainda...Uma Vida Em Um Meio” (2020) e a biografia da sua banda, “La Teroro Estas Viva” (O Terror Está Vivo, em esperanto, língua usada pela banda em suas letras, além do inglês e português; 2021).

Fui atrás dessa figuraça para saber sobre seus livros, a cena underground, sua amizade com Jan Fredericks (AGATHOCLES), como vai o STOMACHALCORROSION e mais, confira!

Bem-vindo ao 80 Minutos, Charlie Curcio! Vamos começar pela sua biografia, “Ainda...Uma Vida Em Um Meio” (2020, independente). Seu primeiro contato com o rock foi através do KISS, coincidentemente, o meu também, pelo mesmo disco “Creatures Of The Night” (1982) e também graças a uma prima (impedida de ir ao show no Mineirão graças aos boatos de que a banda era “satânica”). Houve uma geração de bandas que surgiram graças a vinda deles ao Brasil em 1983, não é?

Costumo dizer que a vinda do KISS em 83 ao Brasil foi o estopim para praticamente tudo que temos até hoje em termos de música e os grandes festivais. Toda a mídia gerada para aqueles três shows orientou todo um enorme sistema, direta e indiretamente. Até o Cassino do Chacrinha (nota: antigo programa de auditório da Tv Globo) apresentava bandas de Rock com a mesma naturalidade que um Roberto Carlos ou Sidney Magal. Surgiram bandas cultuada até hoje, como BLITZ, TITÃS, KID ABELHA, ULTRAJE A RIGOR, RÁDIO TAXI, ERVA DOCE, etc. E incentivou o surgimento de bandas de Metal como o SEPULTURA e tantas outras.

Você era tão fã dos caras que até fez a mão uma camisa da banda e tinha o apelido de Charlie Simmons...

Na verdade, eu pintei porque não tinha grana para uma original (risos). Na época eu já ouvia muitas bandas Thrash e do início do Death e Black Metal, então queria mesmo uma de alguma banda mais pesada, como DESTRUCTION ou POSSESSED. O lance do pseudônimo foi total influência do meu amigo Renato (Animal Fucking Death Banger) e de um correspondente que usava Stanley de falso sobrenome. 

No começo, você era da galera do metal, mas com o tempo, foi incorporando o punk/hardcore no gosto e estilo de vida. No livro, há relatos de presepadas de gente do meio, que deveria ajudar, divulgar, apoiar. A convivência no underground é complicada?

Eu sempre me preocupei demais com as pessoas e o que elas acham disso e aquilo, então hoje vejo que se eu fosse mais desligado, como muitos caras, talvez não tivesse me aborrecido tanto. Convivo neste meio há tantos anos, já vi tantas regras e mudanças que acabo vendo certas coisas nas redes sócias de hoje em dia que penso: Isso vem se repetindo há tantos anos, jovem, só mudou de roupa e gírias! A convivência não é complicada apenas no meio underground, mas quando nos relacionamos e damos atenção a quem menos merece. Ainda hoje temos mentirosos, posers, defecadores de regras, geradores de boicotes idiotas, fofoqueiros e toda essa gente que impregna o meio social desde que o ser humano existe e a primeira guitarra foi ligada. Há de saber desvencilhar desses derrotados.

Você não escondeu a relação conturbada com seu pai, pessoa rígida e tradicional, que não aceitava seu estilo e gosto musical. Contou alguns episódios bem pesados, como quando ele pôs fogo na sua grande coleção de quadrinhos. Você chegou a morar de favor, tinha dois empregos e ainda assim ia levando a banda. Tem uma frase sua que achei muito emblemática, resume bem tudo isso que você viveu: “Eu era o extrato daquilo que todos achavam legal, mas ninguém queria ser”. Foi difícil para você recordar aqueles anos difíceis?

O mais legal deste livro foi receber várias declarações de que minha história ali retratada sem disfarces ou meias palavras, se assemelha às destas pessoas. Vivíamos uma época de transformações e conflitos de gerações. Eu realmente tive problemas com meus pais, mas sempre os entendi e perdoei. Aprendi, logo cedo, que o meio da música pesada deveria prevalecer a sabedoria e o respeito. Eu nunca quis que meus pais passassem a gostar das bandas que eu ouvia. Meu pai queimou minha coleção de artigos das bandas (pôsteres, revistas, álbuns de figurinhas, fanzines, etc. E sim, eu enfrentei uma fase horrível na vida, tudo em nome da dedicação tanto à minha banda, como ao curso de jornalismo. Hoje vejo “patricinhas” e posers metidos aos “bambambam do movimento” cobrando isso e aquilo do conforto dos seus celulares em seus quartos. Nunca vão ter e menor noção do que a geração anos 80/90 passou para que tudo chegasse onde está. Mas, cada tempo com suas realidades.

No começo, o STOMACHALCORROSION contou com uma mulher na guitarra, sua amiga Emília. Mesmo no underground, em algum momento você percebeu preconceito por isso? Acha que hoje esse tipo de situação foi superada? Dizer que posicionamentos idiotas, como preconceitos e incompreensões foram extirpados do meio underground é dizer que a humanidade está livre dessas mazelas como um todo. Infelizmente, ainda vemos comentários infelizes de gente mal resolvida que pensa que conhece as pessoas que critica. Isso no mínimo é falta de educação. Quanto à Emília, ela foi um dos nomes mais marcantes e produtivos no STOMACHALCORROSION. Sempre foi muito respeitada e admirada por ter sido uma das primeiras meninas no Brasil a tocar em uma banda GrindCore (por sinal, a primeira do nordeste brasileiro). Não lembro dela reclamando de algum comentário imbecil. Outro ponto que achei bem legal no seu livro foi a lembrança da tour dos gringos do CUT YOUR HAIR e WOJCZECH no Brasil. Eu fui no show deles aqui em BH e foi algo que nunca tinha presenciado antes. Foi um show tão marcante, que, por causa dele, o Philipe Belisário decidiu formar uma banda, que acabou virando o EXPURGO, hoje um dos maiores nomes do grind nacional. Eu tocava no DISARM na época da turnê do CUT YOUR HAIR e WOJCZEH no Brasil. Foram dois shows de muito Crust/Grind e bebedeira constante. O show do DISARM em Cordeirópolis eu toquei num estado que lembro de pouca coisa até hoje (risos). Você já teve sua própria loja de discos em Cambuí/MG, a Cozmuzz. Anos depois, aconteceu de ir trabalhar na Cogumelo Records. Lembro-me de você atrás do balcão da loja e em diversos shows gerenciando a banquinha de discos, LP´s, camisas, etc. Como foi essa experiência e poder lançar o disco “StomachalCorrosion” (2018) por eles? Meu tempo junto à Cogumelo foi de muito aprendizado. Também procurei agregar trabalho e dedicação ao montar tantos estandes nos vários shows em BH e até no sul de Minas Gerais, além de criar a página no Facebook, o Instagram e o site. Eu via isso tudo como parte do meu trabalho, nada além disso. Tive a loja e o Barzim, um Rock Bar em Itajubá. Sempre focado no meio roqueiro, tá no sangue, não tem jeito. A biografia do STOMACHALCORROSION, “La Teroro Estas Viva” (2021, independente) foi lançada pouco depois da sua biografia. Como a sua biografia está intimamente ligada ao STOMACHALCORROSION, por que lançar livros separados? A ligação surge em certo ponto do enredo da minha autobiografia. E são histórias e sentimentos distintos, apesar da revolta, contestação e insatisfação estarem presentes em ambos os livros. É bom deixar claro que minha intenção com estes dois livros não tem nenhum ponto de narcisismo ou pedância. O objetivo é aproveitar o personagem, que por acaso sou eu, para falar dos cenários das cidades em que morei, relatar as dificuldades e alegrias, o romantismo e crescimento do mundo da música pesada. E como muitos viveram o mesmo que eu, acaba sendo uma autobiografia dos outros também (risos).
Você sempre teve alguma relação com o AGATHOCLES: primeiro como fã, depois dividindo um split com eles, um marco na vasta discografia do STOMACHALCORROSION e do grindcore nacional. Você se deu bem com o Jan Frederickx, conheceu ele aqui no Brasil quando da vinda da banda por aqui. Ainda mantém contato com ele? O Jan é um tipo de padrinho do meu primeiro filho, que tem seu nome, Jan Curcio, o qual o Jan Fredericks ainda hoje pergunta pelo Little Brazilian Jan Curcio. Espero que um dia os dois se conheçam. Antes do Split CD, lancei uma fita cassete com as duas bandas, e dizem ser o primeiro registro de uma banda brasileira com o AGATHOCLES, já que o EP com o ROT demorou um pouco para ser lançado. Eu particularmente nunca liguei muito para esses detalhes. Em 2007, o Jan queria muito que o STOMACHALCORROSION tocasse em alguma gig com eles, mas a organização da época não nos incluiu em nenhuma data. Mesmo assim fui à dois shows, Campinas (onde conheci os caras) e São Paulo. Há relatos no livro de vários casos com produtores que foram desonestos com o grupo, de bandas terem que pagar para entrar em coletâneas e até lugares cobrando pela água que a banda pedia no palco. Nesses anos todos, acompanhando o underground de perto, você acha que a situação está melhor? Posso dizer que algumas pessoas passaram a respeitar as demais sim. Algumas coisas melhoraram, mas ainda há quem se passe por qualquer coisa em troca de qualquer coisa, mesmo que outros ganhem muito sem fazer esforço. Muito do que foi defendido no meio underground no passado acabou sendo um tiro nos joelhos do próprio meio. Aproveitadores se infiltraram e se deram bem às custas daqueles que fazem e tocam por amor ao estilo de música e vida. Alguns pensamentos e posturas precisam mudar para o próprio meio e seu melhor desenvolvimento e existência. A formação atual, com você (guitarra), Saulo (vocais), Xande (baixo) e Fred (bateria) parece ser bem sólida. Como que vai ficar o STOMACHALCORROSION agora que você se mudou de Belo Horizonte e os demais moram aqui? Hoje, sinceramente, digo que só o tempo dirá. Conversamos sobre ensaiarmos quando eu for à BH. Tenho ido algumas vezes, mas ainda não nos vemos para nada relacionado à banda.
A recepção ao disco “StomachalCorrosion” (2018) foi boa, houve uma divulgação legal, incluindo o lançamento de vídeo clips, da caixa comemorativa pela Cogumelo Records e distribuição na gringa pela Greyhaze Records. Só que pouco depois veio a pandemia e atrapalhou toda cena, bandas, lançamentos, etc. Quais os planos para 2022, já que, para esse ano, dificilmente as coisas voltem ao que eram? Eu sempre digo que não faço ou tenho planos a médio ou longo prazos. O livro sobre a banda saiu e tenho a intenção de lançar o tal CD tributo (hoje, outubro de 2021, aguardo apenas o material da banda OMAGO, do Chile), o resto que acontecer, e se acontecer, será apenas parte do processo natural da coisa toda. Quanto ao CD de 2018, tenho grande orgulho dele, em todos os sentidos.
E o disco tributo, Charlie? Ele estava programado para sair em 2021, em comemoração aos 30 anos da banda, certo? Já tem nomes confirmados? Na verdade, esse tributo era para sair em 2014, mas sempre surge uma banda querendo participar e pede para que eu espere por sua versão. Sinceramente, não entendo como alguém se propõe a fazer algo e demora tanto. Demorar para tirar o som, ensaiar e gravar é normal, mas demorar anos para gravar um som de uma banda Grind (risos)? Sim, já tenho um apanhado de vinte e duas bandas dos mais variados estilos. Será um material que já tenho grande satisfação pela junção de tantos camaradas tocando suas versões de sons do STOMACHALCORROSION. São vinte e tantas bandas tocando o que o STOMACHALCORROSION tentou (risos). Charlie, obrigado por atender ao 80 Minutos e “a corrosão continua”! Eu agradeço demais a você, Mário Pescada, que sempre apoiou o trabalho do STOMACHALCORROSION, aos portais que abriram esse espaço. Essas entrevistas são importantíssimas. Muito obrigado mesmo! E como dito há anos: acredite em você. Não deposite confiança em quem só quer te explorar. Não existem cores e lados quando o que se quer é usar a força do povo como fonte de renda. Não nos dividamos em “tipos de gente”. Não use rótulos. Você e eu não somos produtos. Pense e aja por você. Não credite autoridade e poder a ninguém, um dia esse poder se voltará contra você mesmo. Seja Feliz! Confira o vídeo da faixa “Mental Despain”, faixa do disco “StomachalCorrosion” (2018)
A caixa comemorativa e o CD “StomachalCorrosion” (2018) podem ser adquiridos no site da Cogumelo Records. Os livros “Ainda...Uma Vida Em Um Meio” (2020, independente), “La Teroro Estas Viva” (2021, independente) e mais material da banda podem ser adquiridos diretamente com Charlie pelo e-mail charliefcurcio2sc@gmail.com Rede sociais YouTube Facebook


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