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Resenha: Lemmy: A biografia definitiva (2017)

Autor(es): Mick Wall

Relacionado com: Motorhead

Acessos: 570


Motorhead: biografia mostra o quão Lemmy era único

Autor: Mário Pescada

15/01/2020

Lemmy Kilmister conseguiu ainda em vida se tornar uma lenda. Uma figura mítica: botas de couro de cobra, calça, chapéu e camisa preta com mangas arregaçadas, cinto de balas, tatuagens, cara fechada e um olhar fulminante. Ele impunha respeito, quase medo, mas também era dono de um grande coração.

A biografia passa pela sua vida, conta fatos de várias épocas, testemunhos de quem estava por perto e trechos das inúmeras conversas/entrevistas do autor com Lemmy, incluindo aí suas tão famosas frases. Mick Wall, o autor, entrevistou, conversou informalmente e foi relações públicas de Lemmy por mais de 35 anos e entre outros livros publicou biografias do METALLICA, AC/DC, BLACK SABBATH e LED ZEPPELIN (Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra é um baita livro, recomendo muito).

Ian Fraser Kilmister nasceu na véspera do natal de 1945 com um tímpano perfurado, coqueluche e desenganado pelos médicos. Sua relação com o pai (ex-pároco da Igreja Anglicana) foi nula, só encontrando ele muitos anos depois e nunca mais se reencontraram. Filho único, foi criado pela mãe enfermeira e avó. Sua mãe anos depois se juntou com outro homem, mas não se casaram, pois havia uma regra bizarra dizendo que a Igreja só aceitaria isso se Lemmy fosse considerado bastardo (isso deve explicar sua antipatia com a igreja e a fixação pela palavra "bastard").

No verão de 1957 ele teve uma "revelação": percebendo que garotos que tocavam violão logo eram cercados por garotas, ele catou um velho violão do seu tio e começou a ter aulas de guitarra. Sua primeira guitarra foi uma Hofner Club 50. "Entre o sexo, drogas e rock, posso colocar o rock em primeiro lugar, mas o sexo vem em segundo, bem perto. O rock é só um meio de conseguir mais sexo", testemunho de uma pessoa que pelas suas contas teria transado com mais de 1.000 mulheres (alguns dizem 2.000...).

Decidido a ser músico, aos 17 anos pega a estrada com um amigo rumo a Manchester. De carona em carona, dormindo na estrada e contando com a ajuda de "mulheres hospitaleiras", nas palavras dele.

Acabou montando bandas, uma atrás da outra: THE DEEJAYS, SAPPHIRES, THE RAINMAKERS, THE MOTOWN SECT - sempre como guitarrista e tocando por trocados, tendo que apelar para ajuda da mãe para se manter (sem que os outros caras da banda soubessem, claro).

As coisas melhoraram quando se juntou ao ROCKIN'VICARS, uma banda com apetrechos de palco, como a gole de padre que Lemmy usava. A banda tocava apenas covers e era muito carismática. Nessa época, Lemmy mais uma vez se tornaria pai, porém dessa vez a criança, Paul, foi criada pela mãe Tracey - sozinha.

Mas tudo foi para o espaço mesmo quando ele viu nada mais, nada menos, que JIMI HENDRIX. "Eu não conseguia acreditar nele, sabe? Hendrix costumava fazer uma porra de cambalhota dupla e tocar guitarra no pescoço, mordia, era cada coisa do cacete!".

Por indicação de John Lord (na época no THE ARTWOODS) ele bateu na porta da mãe de Ronnie Wood (na época no THE BIRDS) às 3 horas da manhã. A gentil mãe do guitarrista o acolheu, ele pegou amizade com o pessoal do THE BIRDS que o indicaram para ser roadie de...JIMI HENDRIX. Sim, a "lenda" de que ele foi roadie do grande Jimi é verdadeira e segundo ele, foi uma honra. Nas suas palavras, ele era um cara extremamente gentil e educado, do tipo que se levantava quando uma mulher chegasse e ainda puxava uma cadeira para ela se sentar. E também um atleta sexual: "se você quisesse ver uma foda atlética, Jimi era o cara certo. Nunca vi nada parecido". Além de roadie, Lemmy era o responsável por comprar maconha e ácido para ele: a cada dez comprados, três ficavam com ele.

Os anos passam e até 1971 a vida dele ia nessa toada, traficando para viver (foi preso quando a polícia encontrou um quilo de maconha libanesa de molho na pia da cozinha), indo a clubes, alguns bicos, etc. Nessas, acabou conhecendo um cara chamado Dik Mik Davies que acabou levando Lemmy ao seu primeiro acerto: o HAWKWIND.

A banda só foi ter dias melhores quando o single "Silver Machine" estourou em 1972 - justamente quando colocaram Lemmy para cantar o verso da música substituindo os vocais originalmente gravados, o que causou um baita mal-estar interno (leia-se ciúmes). A banda cresceu, ganhou mais aparelhagens e tudo quanto é acessório para suas apresentações teatrais com verdadeiras catarses coletivas.

Mais algumas alterações na formação, pirações alucinógenas de alguns membros e dois discos lançados "Hall Of The Mountain Grill" (1974) e "Warrior On The Edge Of Time" (1975), menos experimentais e mais rock que os anteriores. Acaba que parte da banda se volta contra Lemmy, chegando a boicotar suas letras, mas uma em especial chegou a ser gravada: "Motorhead" (gíria da época nos EUA que descrevia viciados como ele em speed). Brock proibiu a faixa de ser tocada ao vivo, ser incluída no disco e ela só foi lançada anos depois em um compacto - já sem Lemmy.

Verdade é que Lemmy já estava cansando a banda com seus sumiços atrás de drogas e garotas, e quando ele foi pego na fronteira do Canadá portando sulfato de anfetamina (ao contrário do que dizem de que seria cocaína), foi a gota d'água e o álibi para demitirem ele ainda dentro do ônibus da banda. Amargurado, ele se vingou do jeito Lemmy: transou com cada uma das garotas de cada membro da banda. "Foi mais uma experiência educativa, pode-se dizer. Engulam essa, filhos da puta!".

Era o começo do MOTORHEAD (ainda sem trema), cujo nome não foi escolhido por Lemmy (ele queria Bastard). Da mesma forma que o baixo, os vocais também foram assumidos ao acaso, afinal, não conseguia arrumar um bom vocalista. "Eu queria ser o MC5, só isso...eu queria estar em uma banda de cinco integrantes, acelerada e feroz, como eles".

"On Parole" foi gravado por Lemmy, Larry Wallis e Phil Taylor em 1975, porém seu som era muito diferente do que vinha sendo feito: era mais metal do que QUEEN e LED ZEPPELIN e era punk antes do punk. A solução da gravadora? Colocar o disco na geladeira. Indefinidamente.

Enquanto isso, a banda seguia tocando e fazendo nome junto ao público. Phil encontra o segundo guitarrista, Eddie Clarke, que foi fazer um teste na banda e acabou ficando com a vaga de titular, já que Larry Wallis simplesmente desistiu.

Tudo pronto, certo? Na verdade, não. O primeiro ano foi de shows, contratos e críticas ruins. Por pouco, muito pouco, a banda acaba. Chegaram a marcar o que seria o último show no Marquee - sem grana nenhuma para aluguel dos equipamentos, tiveram de correr atrás de apoio. É claro que esse show não foi o último, pelo contrário, foi definitivo para que todos, incluindo a própria banda, acreditassem no seu potencial devido a receptividade do público.

Um novo contrato fez com que a banda gravasse "Motorhead" (1977), basicamente um "On Parole" regravado, sem as faixas do ex-Larry Wallis e o cover de "Leavig Here". O disco atingiu a posição 43 na Top 75 do Reino Unido, um importante termômetro da época. A crítica gostou e as coisas começaram a dar certo, enfim.

A banda aproveitou a boa maré do trio "três amigos" por alguns anos. As composições eram sempre de Lemmy e Eddie, mas Phil levava créditos como parceiro. E foi dele a ideia de usar dois bumbos, algo incomum ainda mais naquela velocidade. O resultado? "Overkill", um dos maiores sucessos da banda de todos os tempos, que plantou a semente do que viria a ser o thrash metal e inspirou muita gente, entre eles o ex-presidente do fã-clube norte americano do MOTORHEAD, um tal de Lars Ulrich: "Na primeira vez que ouvi "Overkill", explodiu a porra da minha cabeça. Eu nem acreditava no que estava escutando. É claro que depois eu quis tocar assim também".

"Overkill" (1979) foi um sucesso: garantiu um generoso adiantamento, alcançou a posição 24 no Top 30, conseguiram seu primeiro show internacional e foram de "pior banda do mundo" para capa da Sounds e resenha bajuladora na New Music Express.

Nessa época a banda também circulava com o público punk. "Sempre achei que tínhamos mais a ver com THE DAMNED do que com JUDAS PRIEST. Mais parecíamos uma banda punk do que de heavy metal".

"Bomber" (1979) saiu poucos meses depois do antecessor. O disco subiu mais alto, atingindo a 12ª posição no Top 30. Outro ponto marcante foi o cenário do palco, simulando um bombardeiro Lancaster com assas bem largas onde o jogo de luzes se apoiava.

O leitor mais atento deve estar se perguntado "ele esqueceu de falar do On Parole". Não meus caros, esse disco só foi lançado (também) em 1979! Deve ter sido um dos discos que mais tempo ficaram na geladeira. A ex-gravadora da banda, United Artists, "lembrou" de que tinha uma versão desse disco e o lançou. Esse sim um fracasso de vendas, porém acabou se tornando um item raríssimo.

Então, saiu "Ace Of Spades" (1980) fechando uma das maiores trincas de todos os tempos. Um sucesso: nova aparição no "Top Of The Pops", críticas rasgadas e direto para a 4ª posição. Over The Tops!

Daqui em diante, Mick Wall vai passando a vida de Lemmy bem detalhadamente, seus discos, saídas e entradas de músicos, amores,  o reconhecimento do grande público depois de muta ralação, etc.

Uma vez perguntaram a Lemmy qual legado ele deixaria. A resposta é curta e precisa: "Quando o MOTORHEAD partir, haverá um buraco que não poderá ser preenchido. Significa que cheguei ao que eu quis - que era fazer uma banda inesquecível de rock".

Sem dúvidas, Lemmy. Ainda existem muitas bandas boas e outras tantas surgindo, porém, o MOTORHEAD atingiu um nível que poucas alcançam, nem tanto pelo sucesso, mas pelo carisma de seu líder e seus ótimos discos.

Born To Lose, Live To Win!

Lemmy: A biografia definitiva
Editora Globo Livros - 280 páginas
Preço médio: R$ 35,00

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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