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Resenha: Mais Pesado Que o Céu: Uma Biografia de Kurt Cobain (2002)

Autor(es): Charles R. Cross

Relacionado com: NirvanaCourtney Love

Acessos: 65


As contradições e a obscuridade de um astro expostas em biografia cativante!

Autor: Maik Antunes

27/09/2020

Lançada pela primeira vez no Brasil, através da editora Globo, em 2002, "Mais Pesado Que o Céu: uma biografia de Kurt Cobain" propõe, através do texto acessível e cativante do jornalista norte-americano então residente em Seatle Charles R. Cross, uma abordagem cronológica da vida e da obra do atormentado líder do Nirvana, Kurt Cobain.

Sugerindo que a personalidade inquieta e obscura de Cobain se conformara desde a infância e a adolescência – marcadas tristemente pelo divórcio dos pais e pelo vai-e-vem entre o convívio com parentes (com os quais adquiriu suas primeiras informações musicais) e a companhia dos amigos –, Cross ressalta também, e apesar disso, que "Kurt sempre acreditara que o reconhecimento de seu talento curaria as muitas dores emocionais que marcaram sua infância".

Eis o grande paradoxo do maior ícone do fenômeno estético-musical chamado "grunge": Cobain quis a fama – inclusive a buscou premeditadamente (como, por exemplo, no período em que, de acordo com a biografia de Cross, o então aspirante ao estrelato passava horas sentado num sofá praticando sua guitarra ao mesmo tempo em que assistia a desenhos animados) –, mas, uma vez alcançada essa mesma fama, e ao lado do baixista Krist Novoselic bem como do, à época, baterista Dave Grohl, dela e das cobranças que lhe eram inerentes procurou fugir: "o sucesso havia demonstrado a tolice dessa ideia", escreve Cross, "e aumentara a vergonha que ele sentia por sua vertiginosa popularidade coincidir com a escalada no uso de drogas".

Mas nem só por turbulências passara a breve vida do líder do Nirvana: Kurt também sorriu, soube ser politicamente progressista, foi justo, brincou e amou – não exatamente a si mesmo, mas especialmente sua filha Frances e (mais uma vez, de acordo com a biografia de Cross) àquela que viria a ser sua "eterna viúva", a então guitarrista e vocalista do Hole: Courtney Love.
 
Acerca dela, aliás, e em comparação com as teorias de que Courtney Love (a quem reputariam como sendo oportunista) teria responsabilidade (in) direta na morte do astro – como sugeriria, por exemplo, o polêmico documentário "Kurt & Courtney" (1998) –, o diferencial da abordagem de Cross residiria justamente aí: no amor de Courtney para com Kurt.

No texto de Charles R. Cross, Love aparece como companheira; como cúmplice com o marido (inclusive nos riscos aos quais expunham, mesmo sem querer, a própria filha); ora trocando presentes com ele; ora sendo sua "parceira" no uso de drogas, mas também preocupada com as crises de Cobain...

Publicado novamente em 2019, então pela PIM!edições, "Mais Pesado Que o Céu" apareceria, agora, sob o pretensioso subtítulo de "A biografia definitiva de Kurt Cobain", o que, definitivamente, não passaria de mera artimanha sensacionalista para vender, aos interessados, a história de um personagem cujo próprio biógrafo sabe muito bem se tratar de um quase enigma – história esta, entretanto, que garantiria uma leitura agradavelmente instigante!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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