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Resenha: Cazuza: Só as Mães São Felizes (1997)

Autor(es): Lucinha Araujo

Relacionado com: Cazuza

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O depoimento de uma mãe guerreira

Autor: Marcel Z. Dio

16/08/2020

Resenhar um livro lançado em 1997, parece um tanto sem graça, principalmente num tempo em que se tem urgência por novidades,  também num tempo de biografias pra lá de fantasiosas ou verdadeiramente mentirosas, para se obter o dinheiro as custas de algo forçado ao máximo. Principalmente as não autorizadas, que a gente bem sabe, que são sim, autorizadas em sua maioria.
Mas ... como livros e discos velhos ainda são o retrato da história, não dá para ignorar a importância desse, tanto pelo artista em questão, quando pela ótica de uma mãe que foi com o filho até o fim, em uma luta que todos sabem o final.

O livro é o retrato de uma mãe que via sonhos não realizados pela moderação da época, e que teve no filho a metade do que não conseguiu expressar (a maioria das mães são assim). Dessa forma testemunhou tudo para que Regina Echeveria escrevesse a obra.

Por vezes a leitura causa um pouco de raiva na figura de Cazuza, não inveja, e sim entender que ele sempre teve tudo o que pediu, como criança que ganha um brinquedo novo a cada semana e após horas de brincadeira, enjoa e o joga fora. Todas as aventuras do irrequieto cantor foram financiadas para que ele encontrasse um caminho. E mesmo encontrando, os excessos do sexo, as drogas, as festas em demasia e tudo mais ... não paravam.

A evolução de Cazuza como artista, deve-se muito a doença, assim como a pressa em escrever letras clarividentes, antes que o pior ocorresse. Jamais seria apenas "um" a dividir holofotes com os membros do Barão Vermelho, sendo assim, abandonou o rock para fazer o que sempre quis fazer, MPB em traços de blues. Seus amigos, via de regra, eram dessa escola, Gil, Bebel Gilberto, Ney Matogrosso, Caetano Veloso ...
Porem, o que torna a biografia especial, é a figura de Lucinha Araújo, a mãe. O pai, (João Araújo - falecido em 2013) um renomado produtor musical, fica um pouco em segundo plano, embora apoiando as vontades do filho e sempre esperançoso e prestativo na questão de sua saúde; diria, tão fundamental quanto a esposa.
Ambos fizeram o possível e o impossível para salva-lo dessa praga, que nos anos 80 era implacável. Até uma "semi" UTI foi montada em seu quarto.
Lucinha serviu como exemplo de criadora e guerreira. E seu depoimento, de lição para muitas mães que a cada seis meses arranjam um padrasto cafajeste e jogam as crias a própria sorte. 
Lucinha, ainda abalada pela morte do filho, pouco tempo depois teve força para criar a Sociedade Viva Cazuza, instituição de muita ajuda para os portadores do HIV. 

Essa é a biografia essencial para entender o eterno espirito jovem de Cazuza, e também sua genialidade como compositor e não poeta. Digo ... não poeta, por ser um título que ele desprezava. 
A história é contada desde o comecinho, passando por todas as etapas e até mesmo antes do nascimento de Cazuza, com as memórias de seus avós,  cujo o nome de um, (chamado Agenor) coube também a Cazuza. Todavia, odiava o nome e nunca quis ser chamado por ele. 

Nas paginas finais, são reveladas algumas frases e curtos textos do cantor, como um diário a lá Baú do Raul, mas sem escritas poéticas, apenas pensamentos ditos em entrevistas. E nesses, percebo mudanças bruscas e certa bipolaridade do artista, até pelo tempo dividido entre : antes e depois da Aids, mudanças compreensíveis.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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