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Resenha: Alice In Chains - A História Não Revelada (2015)

Autor(es): David de Sola, Paulo Alves

Relacionado com: Alice In Chains

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Alice In Chains: biografia peca ao ignorar fase pós-Layne

Autor: Mário Pescada

05/07/2020

Por volta de 2010, quando por acaso, David De Sola voltou a ouvir ALICE IN CHAINS, ele decidiu então fazer algumas pesquisas sobre como a banda estava indo desde então e viu que, fora alguns sites e matérias de revistas, não havia ainda um livro contando a história da banda.

Munido do espírito de jornalista-fã, começou então a escrever “Alice In Chains: A História Não Revelada”. 

Sua jornada de três anos não foi fácil: não houve cooperação de nenhum membro da banda, empresários e gravadora, ou seja, ele mesmo teve que ir atrás de matérias, arquivos, entrevistas e conversar com algumas pessoas que se mostraram dispostas a ajudá-lo a contar a história dessa banda que, ao meu ver, é uma das melhores surgidas na década de 90.

O autor começa pela figura central do livro, Layne Staley. Detalha sua infância, sua fase como baterista, a separação dos pais, etc. chegando a sua adolescência, onde o jovem Layne se torna vocalista de uma banda chamada SLEZE, tocando covers de MOTLEY CRUE e W.A.S.P. Layne é descrito como um cara tímido, muito inteligente, que gostava de marcenaria.

Falando das bandas acima, um fato que poucas pessoas sabem é sobre seu começo glam, com direito a calças de legging coloridas, laquê nos cabelos e rosas para as garotas da plateia - inimaginável.

David vai juntando as peças dos quatro elementos núcleo da banda (Layne Staley, Jerry Cantrell, Mike Starr e Sean Kinney), contando em minúcias a história de cada um, até convergir a um ato totalmente ao acaso que mudaria tudo: quando um produtor de shows que estava em um estúdio onde os quatro amigos se encontravam, ao ouvir o som que eles faziam por hobby, perguntou se eles topavam fazer um show. Convite prontamente aceito mesmo sem serem uma banda de verdade - o resto é história: de altos e baixos, término e renascimento.

Os detalhes da típica ralação inicial estão ali: mudanças de formação, brigas, plateias apáticas, grana curta, do embrionário SLEZE, depois ALICE N´CHAINS (semelhança não intencional com o N´ do GUNS N´ROSES, prontamente eliminado depois que a banda de Los Angeles explodiu), passando ainda por MOTHRA, depois FUCK até, enfim, se tornar a banda mais sombria e pesada do grunge: ALICE IN CHAINS.

Em 1989, a cena grunge de Seattle estava fervendo, prestes a explodir e as gravadoras, já percebendo isso, foram assinando contratos à revelia com o maior número possível de grupos. A banda já causava certo burburinho e era vista como certo de estourar - apesar de ter tido ignorada por AXL ROSE ao receber uma demo de Cantrell e Rick Rubim, que viu a banda ao vivo, mas foi embora no meio do set.

Enquanto a banda ia se desenvolvendo (muito graças ao talento e obstinação de Cantrell), uma nuvem negra já começava a seguir a banda e mais tarde iria atingir ela em cheio: o vício, sobretudo em heroína. “Quando tomei aquele pico (nota: de heroína) pela primeira vez na vida, me ajoelhei e agradeci a Deus por me sentir bem”, disse Staley, certa vez.

Mas até lá, a banda cresceria de forma assombrosa graças ao vídeo de “Man In The Box” que tomou a MTv norte-americana de assalto e fez com que o disco “Facelift” (1990) estourasse, proporcionado boas vendagens e melhores turnês (exceto pelo giro com o EXTREME...), ao EP “SAP” (1992) mostrando o talento de Cantrell também como vocalista e ao estrondoso “Dirt” (1992), um disco extremamente pessoal, tenso, fruto de mais uma reabilitação de Layne (vejam as letras de Sickman e Junkhead) onde Layne gravou seus vocais isolado de todos, olhando para um altar com velas, a imagem da Última Ceia e um filhote de cachorro morto dentro de uma jarra...

De Sola traz ao leitor muitos fatos interessantes durante essa ascensão, como a saída de Mike Starr (ou, segundo o próprio, “pedido de sair”), o esquema junto com o NIRVANA para trazer heroína ao Brasil (surreal a história) e o pau que Layne deu em um skinhead durante um show da banda na Suécia, entre outros.

A medida que o leitor avança, fica evidente o foco do autor em Layne e na descrição do seu lento e triste fim: cada vez mais distante dos demais membros da banda, sua incapacidade em aceitar o término com sua namorada de adolescência Demri (que alguns dizem ser a responsável por apresentar a heroína a ele), vivendo cada vez mais recluso, mas ainda assim, tido por produtores e engenheiros de som, como um músico extremamente talentoso, capaz de gravar em um ou dois takes o que outros vocalistas gastariam horas.

Apesar dos contratempos, a banda ainda passaria pelos discos “Alice In Chains” (1995, o disco do cachorro de três patas), o sucesso do “MTv Unplugged” (1996) e, nesse mesmo ano, em 3 de julho durante uma turnê pelos EUA em conjunto com o KISS, seu último show juntos - coisas do destino, justo nessa turnê, um tal de William DuVall estava na plateia.

Por volta de 2001, Layne já estava em avançado processo degenerativo: uma espécie de cadáver ambulante, pesava em torno de 45 kg, pálido, sem dentes, com os braços cheios de abscessos, uma visão assustadora, mesmo para os mais próximos.

Aquela nuvem negra lá de trás se aproximava cada vez mais da banda, levando Andrew Wood, vocalista do MOTHER LOVE BONE e Baker Saunders do MAD SEASON por overdose de heroína e Demri por intoxicação aguda, quando, enfim, desabou sobre todos: no dia 19 de abril de 2002, Nancy, mãe de Layne, já sem notícias do filho há semanas, chamaria a polícia para adentrar seu apartamento e confirmar o pior, mas esperado por muitos: Layne estava morto. A causa foi devida a overdose de drogas, seu corpo encontrado sentado no sofá com seringas ao lado, em avançado estado de decomposição, com data da morte estimada como 5 de abril. Junto do corpo, estava sua gata Sadie, que foi adotada depois por Jerry Cantrell.

A partir desse ponto, De Solas segue cobrindo o ALICE IN CHAINS, mas visivelmente sem o mesmo tesão e interesse de antes, como se a banda tivesse acabo ali, o que nem de longe é verdade.

O autor ainda relata os problemas de Mike Starr também com narcóticos e sua morte, a reunião da banda após anos graças a uma ação solidária para as vítimas do tsunami de 2004, a entrada de DuVall na banda com informações bem básicas, cita os discos seguintes “Black Gives Way To Blue” (2010) e “The Devil Put Dinosaurs Here” (2013) de uma forma desleixada, bem diferente dos capítulos anteriores. A perda de disposição em continuar o livro é tão latente, que o autor apela até para fatos que em nada agregam a história. Exemplos? Qual a necessidade de citar a separação da então empresária da banda Susan, de Chris Cornell (vocalista do SOUNDGARDEN)? Ou, por que atacar veemente outras biografias relacionadas ao ALICE IN CHAINS?

Outro ponto ruim: as fotos escolhidas. Não por suas imagens, longe disso, mas elas deveriam ter sido publicadas coloridas e em um papel de melhor qualidade - as da época glam são impagáveis.

Já que Layne era o foco do livro, apesar do autor não ter explicitado isso, seria melhor ter limitado o livro até sua morte e encerrado a história ali - o que ainda assim, seria uma injustiça com os bons trabalhos que a banda continua lançando.

Título: Alice In Chains - A História Não Revelada
Autor: David De Sola
Editora: Edições Ideal
Páginas: 382
Preço médio: R$ 35,00
Nota: 4

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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