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Resenha: Nunca é o Bastante - A História do The Cure (2015)

Autor(es): Jeff Apter

Relacionado com: The Cure

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The Cure: biografia recheada com detalhes da história da banda

Autor: Mário Pescada

09/04/2020

A tarefa do autor Jeff Apter não deve ter sido fácil. Sua missão era resumir em pouco mais de 300 páginas os 40 anos de história do THE CURE - e olha que ele conseguiu fazer isso de uma forma bem detalhada (algumas vezes até demais). Ele revisita todos os discos da banda, mergulha nos seus bastidores de gravação, nas diversas formações (praticamente uma a cada disco), os abusos de álcool e drogas, as brigas internas (com direito a socos), etc., nada escapou ao escritor que é colaborador de revistas, colunista de jornais e já publicou biografias de JEFF BUCKLEY, RED HOT CHILI PEPPERS e DAVE GROHL, entre outros.

O livro foi lançado lá fora originalmente em 2005, sofrendo uma revisão em 2009 e somente sendo publicado aqui no Brasil em 2015. Como foi muito bem escrito e a banda não lança nada inédito desde 2008, ainda permanece como uma leitura atual da banda.
Jeff começa pelo óbvio: a história de Robert Smith, desde o seu nascimento na pequena Crawley em 1959, seu crescimento, detalhes de sua família, sua paixão por futebol, suas influências musicais que incluem DAVID BOWIE (com que dividiu o placo décadas depois), JIMI HENDRIX, SLADE, T. REX - a era glam dos anos 70 com certeza o marcou e ajudou a definir seu estilo.

A história do THE CURE é comum a de muitas bandas: colegas de colégio com afinidades musicais se juntam e decidem formar uma banda para quebrar o tédio juvenil (especialmente quando você é de uma pequena cidade bucólica típica inglesa), começando por tocar covers dos seus artistas prediletos.

Os amigos de escola Robert Smith, Michael Dempsey e Lol Tolhurst começam aos poucos a levar mais a sério o The Easy Cure (um dos primeiros nomes), ensaiarem cada vez mais e testam mudança de postos (Robert Smith só assumiria os vocais depois) e já naquela época, de músicos. A banda começa a se ajeitar e logo os rapazes conseguiriam seu primeiro contrato com uma pequena gravadora alemã depois de participar de uma espécie de concurso. Partiram para a gravação do seu primeiro disco Three Imaginary Boys (1979, aquele da capa do abajur, geladeira e aspirador de pó) que antes mesmo de chegar às lojas, trazia no single Killing An Arab uma polêmica por ter sido considerada uma música xenófoba. Só para chegar até o lançamento desse primeiro disco, são quatro capítulos recheados de fatos e curiosidades.

Daí em diante o livro segue esmiuçando os detalhes de cada disco, mostrando como que Robert Smith foi se tornando o dono da banda e a sua maneira pessoal de influenciar diretamente seu som. Se Three Imaginary Boys era pós-punk, o que viria logo depois era propositalmente cada vez mais arrastado, triste e desolador. Surge então a famosa "trinca maldita" Seventeen Seconds (1980), Faith (1981) e Pornography (1982). O autor mostra como que nesse curtíssimo período de tempo "os pais do gótico" tiveram sua base de fãs aumentada, o impacto do suicídio de Ian Curtis do JOY DIVISION, como que os excessos químicos e psíquicos atingiram um ponto crítico, as crises existenciais de Robert Smith e suas ameaças de acabar com a banda para se juntar definitivamente ao SIOUXSIE & THE BANSHEES por conta da sua amizade e afinidade (química) com o baixista Steven Severin.

Depois de tanta turbulência, Robert Smith se afasta (um pouco) dessa negatividade toda graças a sua eterna parceira Mary Poole e justamente aí começa o período de maior sucesso da banda. Se The Top (1984) já indicava uma mudança de direção a um som mais pop, mas ainda com um toque sombrio, com The Head On The Door (1985) e Kiss Me Kiss Me Kiss Me (1987), o Cure assume seu lado "feliz".

Como bem lembra o autor, graças à parceria com o diretor Tim Pope e o boom da MTv, a banda alcança o patamar de celebridade mundial com vendagens enormes e shows lotados. O CURE era a banda certa no lugar certo. É muito provável que você já tenha visto os clipes dessa parceria, entre eles Let's Go To Bed, The Walk, In Between Days, Lullaby, The Lovecats, o mega-hit Boys Don't Cry e Close To Me (aquele do guarda-roupa caindo penhasco abaixo). Apesar de tudo, as saídas e entradas de novos/antigos membros continuava e o clima interno não era tão feliz assim, com Tolhurst sendo posto cada vez mais de lado pela banda.

Já nos dois últimos capítulos o autor dá uma acelerada na história da banda - o que é bom, porque o leitor fica com a impressão que não vai dar tempo dele contar tudo. No capítulo 11 de uma vez só ele passa pelos discos Disintegration (1989) e Wish (1992). Disintegration foi concebido para ser mais denso ainda do que Pornography e, caso a banda acabasse ali, (a eterna ameaça, lembra?), seria o seu granfinalle. Wish já era diferente: menos sintetizadores, menos clima pesado, mas ainda assim bem pessoal, com Robert Smith cada vez mais desmotivado e se afastando da sua própria banda. Wish foi o último lançamento verdadeiramente comercial do THE CURE, já que seu sucessor Wild Mood Swings (1996) fracassou - pelo menos em comparação aos discos anteriores. No final dos anos 90, o grupo havido ficado ultrapassado e estava enfrentando a concorrência forte de BLUR e OASIS.

Chegamos então ao capítulo 12, o derradeiro. Hora de passar por Bloodflowers (2000, um disco praticamente ignorado), The Cure (2004) e 4:13 Dream (2008). Ainda há as histórias e detalhes de cada um, mas o foco é mais para outros fatores, como a aparição de Robert Smith no seriado South Park, o tributo prestado pela Mtv no programa Icon (com a performance magistral do DEFTONES para "If Only Tonight We Could Sleep"), o processo judicial entre a banda e Tolhurst, etc.

Os lançamentos se tornam cada vez mais distantes um do outro e mesmo mantendo um bom nível, já não chamam tanto a atenção. Se por um lado a Curemania perdeu força e as vendagens não são como antes (que banda não sofreu com?), falar em decadência seria um erro: o CURE continua lotando lugares de médio porte pelo mundo (no site da banda, a partir de maio desse ano a banda sai em turnê para mais de 60 shows até o final do ano). Se por um lado a pressão por sucesso constante diminuiu, por outro lado, um Robert Smith mais maduro encontrava a paz consigo mesmo, se sentindo feliz de fazer seu som a sua maneira.

Um pequeno contra: as fotos ao final, todas em preto e branco, estão na mesma qualidade do papel, mereciam uma diferenciação. No mais, um bom livro tanto para os fãs que já conhecem a história da banda, quanto para aqueles que querem conhecê-la melhor.

Nunca é o Bastante: A História do The Cure - Jeff Apter
Edições Ideal (2015) - 336 páginas

(resenha originalmente postada no Whiplash em 22/02/16)

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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