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Resenha: Se não eu, quem vai fazer você feliz?: Minha história de amor com Chorão (2018)

Autor(es): Graziela Gonçalves

Relacionado com: Charlie Brown Jr

Acessos: 230


Um registro delicado e dolorido

Autor: Tarcisio Lucas

09/12/2019

Gostando ou não da obra da banda Charlie Brown Jr, não há como negar o impacto cultural que o grupo exerceu sobre toda uma geração de jovens, que se identificavam com as letras e postura da banda, e cresceram e amadureceram ao som da voz de Chorão e seus parceiros de caminhada.
Também não podemos negar que toda a trajetória do Alexandre Magno - nome verdadeiro do cantor - foi um registro que diz tanto sobre sua vida pessoal como de toda a geração que ele representava.
No entanto, essa resenha deixará o músico em segundo plano, e focará na pessoa Graziela Golçalves, escritora desse registro, e que esteve presente ao longo de toda a trajetória do musico, uma vez que foi sua companheira e esposa. 

Mais que isso, a Graziela foi peça fundamental das conquistas do grupo e do Alexandre. Muita coisa foi conquistada graças a presença dessa mulher forte, agindo direta ou indiretamente para o progresso, pessoal e profissional, do seu companheiro de jornada.
"Se não eu Quem vai Fazer Você Feliz?" é um livro que pode e deve ser lido em muitas camadas diferentes. 
Pode ser lido como sendo o registro - feito por alguém que estava lá dentro - de um músico inquieto, de mentalidade complexa, confusa, mas extremamente determinado;
Pode ser lido como um registro do mercado musical do ponto de vista de quem tenta se inserir nele, finalmente consegue, e por fim descobre que as alturas não são tão ensolaradas, e que por trás de toda a conquista sempre há um preço, ás vezes alto demais, a ser pago;

Mas nenhuma dessas leituras, todas válidas, é a que eu considero a mais verdadeira.

Esse livro nada mais é que um presente delicado e sincero de uma vida humana que , por lutas, coincidências e  destino (?), se viu parte de uma história marcante, repleta de alegrias e tristezas, com um fim trágico, e um legado que se estenderá por muito tempo. E nessa frase, não me refiro ao Chorão, não. Falo da autora, Graziela.

Graziela mostra-se dona de uma escrita bem cuidada, que é ao mesmo tempo sem frescuras linguísticas e estilísticas, mas que transborda poesia e delicadeza. 
Ela soube colocar em texto todos os sonhos e esperanças de um casal jovem em busca de um sonho, sem parecer sonhadora demais, mas ao mesmo tempo sem perder aquele espirito de enfrentamento e de que "tudo é possível" que só os jovens - os muito jovens - conseguem expressar de forma tão pura.

O que descobrimos pelas revelações de Graziela é que por trás da imagem de briguento, "maloqueiro" e dado à confusões, existia um cara de emoções à flor da pele, sensível, e com uma profundidade que muitos nem conseguiriam imaginar.
Entre as revelações do livro, descobrimos, por exemplo, que Chorão era apreciador da cantora Enya, e também da banda Siouxies and the Banshees.

Ao longo das páginas, nomes frequentes  do mercado nacional dos anos 90 desfilam, como Marcelo D2, Rick Bonadio, Liminha...é muito interessante ver como o sucesso parece ser um misto de (muito) trabalho duro, sorte e uma série de sincronicidades, de se "estar no lugar certo, na hora certa".

É muito bacana também ver o Chorão representado como alguém com preocupações sociais muito grandes, ajudando não apenas sua própria família, mas também instituições como o Hospital do Câncer de Barretos e a instituição (que naquela época ainda se chamava) FEBEM.

Sabiamente, Graziela deixou para abordar a questão das drogas e da dependência química nos últimos capítulos do livro, e também sabiamente, não tentou maquiar a situação nem mascarar a impotência que sentiu enquanto via o amor da sua vida afundar-se em uma espiral sem volta de abusos e dificuldades.

As brigas e confusões internas entre os músicos da banda - especialmente as rixas entre Chorão e o também finado Champignon - que se tornaram frequentes nos noticiários culturais, também tem seu espaço nas páginas do livro.
Mesmo tendo sido casada com Chorão, Graziela reconhece a personalidade turrona e forte que muitas vezes transformava situações que poderiam ser resolvidas calmamente em cenários turbulentos e tensos.

No fim da leitura, só nos resta agradecer à autora por nos dar essa história bonita e muito dolorida.

Muitas letras da banda ganham novos contornos com as revelações aqui apresentadas, e confesso que algumas canções que não despertavam meu interesse voltaram a tocar na minha playlist, com um novo sentido.

Em uma visão mais ampla, comparando a trajetória de Chorão com de outras figuras do rock mundial que seguiram caminhos parecidos, vemos mais uma história de um ser humano que conquistou tudo que queria, mas que se perdeu completamente no meio do processo.

Muito mais que julgar o que houve e lançarmos opiniões bipolarizadas, recomendo que celebremos o legado que o musico deixou, os bons momentos que muitos viveram embalados por suas letras, e acima de tudo, a coragem da autora de colocar tudo isso no papel.

Recomendo a leitura à todos.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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