Jazz + rock: o nascimento do estilo chamado de Fusion.

Artigo

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Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

31/05/2018



No inicio da década de 60 era impensável a mistura de estilos. Rock, jazz, blues, soul, cada um seguia o seu caminho distinta e independentemente sem qualquer ligação.

No meio daquela década, músicos brancos ingleses de rock começaram a incorporar o blues em suas canções. Paralelamente, músicos negros americanos de soul music e funk começaram a incorporar o rock em seu estilo. Jimi Hendrix  incluía em sua música, elementos de funk e soul muito comuns na música negra, e no final dos anos 60, formou a famigerada Band Of Gypsys, juntamente com Billy Cox e Buddy Miles, músicos negros que possuíam formações diversas do rock.  Essa troca ajudou a fomentar o mercado musical da época, abrindo a mente dos músicos e os deixando ainda mais ousados para unirem estilos distintos.
 	
Mas a fusão do jazz com o rock viria mesmo através do grande Miles Davis. Miles sempre foi um músico à  frente de seu tempo, e já havia incorporado em seu som leves elementos de soul e funk. O trompetista foi levado por músicos de sua banda a uma apresentação de Jimi Hendrix em 1968. Até então, Miles nunca havia visto aquele guitarrista tão comentado nos bastidores da música.
   	
O show de Hendrix teve uma profunda influência no pensamento de Miles, afinal, quem tocava rock ali não era mais um branquelo qualquer, mas um irmão negro, propagador de toda uma "cultura Black", assim como ele mesmo vinha fazendo a tantos anos. Naquele ano o músico estava se casando com a modelo Betty Mabry, que mais tarde levaria seu sobrenome. Betty, além de modelo e cantora, era também uma prolífica letrista de soul music e apresentou ao futuro marido além de Hendrix, Sly and Family Stone, James Brown e outros expoentes da cultura musical negra americana. 

O impacto do rock no som de Miles seria sentido ainda no meio daquele ano, com o lançamento de "In a Silent Way". Um novo frescor poderia ser notado no som do mestre, que incorporava em seus temas o piano elétrico e a guitarra, instrumentos até então inéditos em sua música. 
	
Mas a real fusão do jazz com o rock, criando o que muitos chamam de fusion, só aconteceria no ano seguinte com o lançamento de "Bitches Brew", um álbum duplo, considerado o marco zero da música quanto o assunto é fusion.  Neste álbum, Miles reúne uma gama ainda maior de músicos (entre eles o percussionista brasileiro Airto Moreira), e os reúne em estúdio com seus instrumentos elétricos em clima de Jam session. O resultado são músicas longas e improvisadas, como a faixa titulo, que chega aos 26 minutos, onde rock e jazz se unem harmoniosamente, criando assim  um novo estilo musical. Foi neste disco que Miles incorporou um novo instrumento: o baixo elétrico utilizado por Harvey Brooks. Porém, cereja do bolo um jovem garoto inglês de apenas 28 anos que usava em sua guitarra fraseados jazzísticos, mas que solava o instrumento como um verdadeiro músico de rock.  Seu nome era John Mclaughlin e sua influência no disco foi tanta, que o músico ganhou uma canção com o seu nome!

Todos esses elementos fizeram de "Bitches Brew" um divisor de águas na música mundial. O disco foi muito impactante, e abriu caminho para toda uma nova geração de músicos interessados em experimentar e fundir estilos.

Claro que muitos músicos não se sobressaíram como o esperado, porque não era apenas jogar todas as suas influências em um caldeirão e misturar, havia uma recita, um modo de unir os estilos para adocicar os ouvidos dos fãs. Além de Miles, Frank Zappa se sobressaiu muitíssimo bem, lançando vários CD´s onde o jazz, o rock e outros estilos conviviam harmoniosamente. Sua primeira aventura neste sentido ocorreu ainda em 1969, com o lançamento de “Hot Rats”. Zappa, até então visto apenas como um sujeito rebelde e provocador, pôde demonstrar que era também um guitarrista habilidoso. Além do citado trabalho, recomendo “Sleep Dity”, “waka Jawaka” e “Make a Jazz Noise Here”, todos orientados pelo fusion. 

Quem aprendeu direitinho as lições do mestre Miles foi John Mclaughlin, que após trabalhar com o trompetista no final dos anos 60, montou na década seguinte o Mahavishnu Orchestra, um grupo multicultural que incluía músicos de diversas partes do mundo muito antes de aparecer o termo globalização. A guitarra sincopada de Mclaughlin vinha a frente dos temas, cativando os ouvintes acostumados apenas com o rock.

Dos estados unidos, a contribuição maior foi de um grupo formado por um piloto de avião metido a guitarrista, um professor de piano, um médico que nas horas vagas se dedicava ao violino, um técnico de informática louco por contrabaixo e um jovem garoto apaixonado por bateria. Juntos eles formaram o Dixie Dregs, um combo sulista que misturava jazz, rock, country e bluegrass, e era capitaneado por Steve Morse, que nos anos seguintes faria história no Deep Purple. O grupo foi relativamente famoso em sua terra natal, uma vez que o fusion praticado pelo grupo era mais digamos, americanizado, principalmente pelo timbre excessivamente country de Morse.

Todos os citados músicos eram eminentemente jazzistas e traziam o rock para dentro do seu universo, privilegiando seu estilo original.  Porém o inverso também chegou a ocorrer, foi o caso do jovem guitarrista inglês Jeff Beck. Cansado de procurar por bom vocalista, o músico se juntou ao quinto beatle George Martin e lançou uma perola do fusion denominada “blow by Blow”. O resultado foi tão festejado que Beck se aliou no ano seguinte a Jan Hammer, (ex Mahavischnu Orchestra) e mergulhou de cabeça no estilo fusion, lançando discos seminais como “Wired” e “There and Back”. Vindo do rock, o músico ajudaria a angariar vários rockeiros para o estilo rebuscado do fusion.

Não apenas os músicos citados nesta matéria, mas uma infinidade de jazzistas, rockeiros e até  artistas pop se enveredaram pelo fusion, e muitos se tornando referencia no estilo. Mas é inegável que Miles Davis foi o percursor do estilo, criando uma nova maneira de ouvir e fazer música.


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