Rock Gótico e o Gothic metal: Encontros e Desencontros

Artigo

Por: Tarcisio Lucas

Colaborador

06/03/2019



O rock gótico é sem sombra de dúvida um dos maiores movimentos dos anos 80, e com certeza um dos mais emblemáticos já surgidos dentro da história do rock. Servindo-se de um imaginário sombrio, depressivo, vampiresco e chuvoso, bandas como The Cure, Sisters of Mercy, Bauhaus e The Mission criaram um legado que até hoje persiste e se renova.
E ao mesmo tempo os anos que seguiram, os famigerados anos 90, viram o surgimento, dessa vez dentro do metal, de um gênero que, se não podemos chamar de irmão, é ao menos um “primo” do rock gótico; com sobretudos e um imaginário gótico, bandas como o Theatre of Tragedy, Tristania, Lacuna Coil, Trail of Tears e outras tantas mantiveram acesa a chama da depressão e da noite eterna.

Até certo ponto, podemos dizer que existe uma certa rivalidade entre essas duas vertentes; é comum vermos adeptos do rock gótico alegarem que o gothic metal não é música gótica de verdade, ao passo que muitos fãs de gothic metal dizem que o rock gótico dos anos 80 não tem a densidade sonora e peso que os anos 90 trouxeram no metal.
Pois bem, se você até agora estava esperando que eu tomasse as dores de um dos lados, saiba que se equivocou! Antes de tudo, venho para mostrar que esses estilos andam de mãos dadas e primam pelos mesmos valores e identidade. Muito mais que “rivais estéticos”, procuro mostrar aqui que são complementares e uma prova interessante de que um estilo pode se renovar continuamente e ainda assim manter a identidade.
Para isso, precisamos traçar a origem de cada um deles separadamente.

Comecemos então pelo rock gótico.

Por mais improvável que seja deduzir a primeira vista, o rock gótico é um filho quase que direto do punk rock que borbulhou nos anos 70. Não é à toa que o mesmo, o rock gótico, também é comumente chamado de “post-punk”. 
O punk surgiu como uma revolta contra o establishment, as normas e as convenções vazias de uma sociedade confusa e complicada. Musicalmente, foi uma resposta, agressiva e direta a uma década dominada pelos excessos do rock progressivo de bandas como YES, Pink Floyd, Emerson, Lake and Palmer, Rush e Kansas...o punk propunha um contraponto: invés de harmonias complexas, canções gigantescas e sofisticação, ele propunha crueza, objetividade, energia e um sentimento que mais tarde seria traduzido como “Do-it-Yourself” – Faça você mesmo. O punk foi um sopro de ar puro contra a afetação que dominava o mercado fonográfico da época (e digo isso sem rancor; amo de coração as bandas de prog da década de 70!).
No entanto, essa rebeldia esbarrou nas paredes de uma sociedade bem mais rígida e intransigente que poderia se supor, e no final da década de 70, muita gente do movimento foi assolado por um sentimento de apatia, desespero e nihilismo. “Nada mudou, e nem vai mudar”. 
E aí bandas como Joy Division, Bauhaus e The Cure entram na história, cantando a falta de esperança de uma década perdida, de uma coisa que não se realizou, de um futuro que não se concretizou. O movimento post punk deixou claro que para muita gente a rebeldia declarada virou uma tristeza rancorosa.
Bebendo nas fontes do movimento romântico de Lord Byron, um clima noir e uma certa obsessão por contrastes entre luz e sombras, essas bandas criaram um gênero dramático e muito característico dentro do rock: conhecido por muitos nomes, como post punk, rock gótico, dark rock, dark wave e umas outras 30 nomenclaturas, surgiu a música ideal para dias de chuva e fins de relacionamentos.

O Gothic metal, por sua vez, teve sua origem em outros lugares. Esse estilo dentro do metal é um filho direto do doom metal e do black metal, com um pé – talvez uma perna inteira – dentro do death metal. 
Bandas como Celtic Frost, Paradise Lost (o grande criador do termo), Katatonia, todas essas bandas trabalharam o som gélido e trevoso do black, do doom e do death para resgatar aquele imaginário sombrio que os anos 80 trabalhou com uma sonoridade totalmente diferente, porém com  sentimentos muito próximos.
Ainda que existam menções ao imaginário romântico, o gothic metal partiu mais para o lado da literatura gótica de Horace Warpole e de Bram Stoker, ou do imaginário vampiresco das crônicas da escritora Anne Rice. Havia uma preocupação maior em transmitir mais um clima do que um estado mental, e talvez aqui resida a grande diferença entre as duas propostas.

Mas seria impossível que 2 estilos que levam a mesma palavra no nome – gótico – não tivessem inúmeros pontos de contato.

Primeiramente, uma preferência absurda por vocais graves e linhas de baixo bastante marcantes. Peter Steele, saudoso vocalista do Type o Negative, soa como uma versão parruda do vocal do Sisters of Mercy. Os drives e guturais do Fields of Nephilim podem ser ouvidos sem pudor nos primeiros discos do Sirenia, do grande Morten Veland.
Outro aspecto interessante é que o gothic metal manteve a tendência do rock gótico de não se prender a estruturas musicais tão rígidas, apresentando músicas com estruturas variadas e que não seguem uma lógica tão óbvia. O Tristania possui músicas tão inusitadas como “Bela Lugosi is dead” do Bauhaus, uma canção de 9 minutos que apresentava o mínimo de variações e que ainda assim se tornou um dos grandes clássicos da música gótica.
A partir dessa breve análise, duas conclusões são possíveis.
Primeiro, sim, os dois estilos possuem muito em comum.
Segundo, e espantosamente, o gothic metal não é um filho direto do rock gótico, tendo sua origem muito mais ligada ao black metal e ao doom metal, que por sua vez não receberam influências direta do post punk. 
Na verdade, muito mais que irmãos, podemos dizer que são dois estilos “amigos”, que se encontram algumas vezes para trocar ideias e percebem que pegaram o mesmo ônibus para ir para o trabalho.
Assim, temos aqui mais uma prova dentre as muitas, de que o rock e o metal são estilos pulsantes e complexos, sempre evoluindo, se redescobrindo e se reinventando. 

Dizem que o rock morreu. Dizem isso desde os anos 50, quando surgiu. Também dizem que o metal já era. Escuto isso desde a década de 90.
Discordo totalmente.
É impossível matar o rock e o metal, e o rock gótico e o gothic metal estão aí para provar isso.


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