A Double of Two Pair: As melhores duplas de guitarristas do rock - Parte 1

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Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

14/02/2022



Uma guitarra em uma banda de rock já possui um apelo fantástico, agora imagine duas! Os amantes do bom e velho rock sempre voltam seus olhos para os guitarristas, grandes heróis empunhando seus instrumentos de seis cordas e encantando com grandes solos. Porém há duplas que funcionam tão bem que é inimaginável pensar neles como indivíduos. 

Alguns fãs mais ortodoxos conseguem identificar o estilo de cada um seja nas bases ou nos solos. São músicos que tocam ou tocaram juntos por longos anos e souberam tirar proveito de suas fragilidades na técnica do parceiro e vice-versa, muitas vezes implementando um estilo inovador.

Abaixo separei dez grandes duplas de guitarrista que se sobressaíram e influenciaram toada uma geração que viria depois. Lógico que ficaram algumas de fora, até porque vou publicar a parte dois em breve. De todo modo, se você acha que deveria ter incluído alguma determinada dupla, deixe sua opinião nos comentários. 
Obs: As duplas estão disponibilizadas na matéria em ordem aleatória, sem quantificar o grau de importância de  cada uma. 

Keith Richards e Ron Wood – Rolling Stones

“Separados não valemos nada, mas juntos somos melhores que dez guitarristas”, essa frase foi dita por Keith durante uma entrevista e resume bem a dinâmica da dupla formada com Ron Wood. Keith foi membro fundador dos Stones, começou tocando ao lado do problemático Brian Jones e logo depois de Mick Taylor. Apesar deste ultimo ser um excelente guitarrista é notório que a parceria dos dois não decolou como deveria, embora possua bons momentos em álbuns clássicos. Foi apenas com a entrada do tresloucado Wood que Keith achou o parceiro certo para dividir as linhas de seu instrumento. Quando foi convidado e integrar o grupo, Ron já era um músico experiente, tinha tocado com os Birds e Small Faces como guitarrista e atuado como baixista no Jeff Beck Group. Sua concepção rítmica do instrumento era diferente de Keith, sempre mais básico e direto. Nenhum deles é virtuoso, mas compensam tal deficiência com afinações alternativas, técnicas como uso de slides, lap steel, riffs fantásticos e muita personalidade. No enorme palco dos Stones é comum cada uma ficar no seu canto e ainda assim saberem exatamente o que o outro está fazendo. Uma dupla antológica.

Duane Allman e Dickey Betts – Allman Brothers Band

Embora curta, tendo sido interrompida com a morte precoce de Duane, a dupla funcionava perfeitamente em meio ao caos controlado da Allman Brothers Band, que contava com duas baterias, percussões, harmônicas e o pesado órgão do líder Gregg. O entrosamento de ambos era quase telepático, e se desenvolvia em meio a grandes improvisos do grupo. Duane era mais melódico, com um estilo que abusava de slides e afinações alternativas. Betts era adepto do blues e country. Seus estilos diversos se entrelaçavam e completavam principalmente no palco, onde misturavam seu southern rock com doses cavalares de blues e o improviso do jazz e fusion criando Jam sessions magníficas, onde muitas canções ultrapassavam 30 minutos! Antes de ser desfeita tragicamente, a dupla gravou o antológico Live at Filmore East, que muitos consideram o melhor disco ao vivo de todos os tempos. Só por esse motivo já mereciam uma honrosa menção.

Andy Powell e Ted Turner – Whisbone Ash

Tudo começou quando o baixista Martin Turner e o baterista Steve Upton estavam selecionando guitarristas para continuar com seu grupo, Tanglewood. Dentre os músicos que participaram da audição, chamou a atenção dois deles: Andy Powell e Ted Turner. Então, ao invés de escolher apenas um, decidiram manter os dois e deixar de lado um futuro tecladista. A decisão foi acertada, pois já com o nome de Whisbone Ash, Powell e Turner criaram o estilo denominado Twin Guitars, onde construíam melodias belas e intrincadas com harmonizações mútuas, como se fossem uma única entidade. Andy adorava soul enquanto Ted era ligado ao blues. O Allman Brothers pode ter utilizado o conceito de guitarras gêmeas um pouco antes, mas foi o Whisbone Ash que realmente definiu os termos deste estilo, talvez por contar apenas com as guitarras em sua linha de frente, sem teclados ou outros instrumentos. Uma dupla antológica obrigatória em qualquer lista.

Brian Robertson e Scott Gorham – Thin Lizzy

O líder do Thin Lizzy Phil Lynnot procurava um bom guitarrista para substituir problemático Eric Bell. De inicio, gostou bastante do americano Scott Gorham, mas somente quando este último começou a tocar ao lado de outro concorrente chamado Brian Robertson que o líder do grupo viu que tinha encontrado não um, mas dois guitarristas perfeitos para a sonoridade do grupo tamanha a integração ainda nos ensaios. Ambos foram muito influenciados por Jimmy Page, mas a abordagem de Gorham era mais melódica, o guitarrista absorveu a influência celta de maneira rápida e natural, além de ser um excelente compositor. Brian tinha os pés fincados no blues rock, trazendo influência do Allman Brothers e mesmo ZZ Top. Gorham e Robertson ajudaram o definir o estilo conhecido como Twin Guitars, que seria popularizado pelo Whisbone Ash. Porém, de uma maneira muito mais pungente e pesada, influenciando inúmeras bandas da new wave of british heavy metal, como Iron Maiden e Saxon. O grupo teve em suas fileiras outros guitarristas como o incrível Gary Moore, mas em termos de integração sonora nenhuma deles fazia frente a dupla Gorham / Robertson.

Robert Fripp e Adrian Belew – King Crimson

Muitos vão dizer que seria demais dois guitarristas em um grupo de rock progressivo, uma vez que o estilo é extremamente sinfônico e caracterizado por duelos entre guitarras e teclados. Mas em uma banda excêntrica como o King Crimson, as guitarras são muito bem vindas, uma vez que o grupo não segue os padrões estéticos e harmônicos das bandas progressivas mais tradicionais. Desde que reformou o grupo em 1981, o líder Robert Fripp achou em Adrian Belew, o parceiro ideal para seu som sincopado e esquizoide, com camadas de guitarras distorcidas e intensas. Fripp nunca foi um guitarrista ortodoxo. É difícil definir seu estilo personalíssimo, cheio de contrapontos mudanças de andamento e ambiências criadas com seu Frippertronics. O estilo de Belew também era incomum. Antes de integrar o Crimson, o músico fez parte da banda de Frank Zappa e David Bowie, ambos conhecidos por lançarem discos experimentais. Adrian também toca teclados e bateria, além de cantar e e criar efeitos sonoros incomuns com sua guitarra. Escute faixas como “Three of Perfect Pair” ou “The ConstruKction of Light” para perceber como os estilos distintos se completam em camadas dissonantes substituindo até mesmo os teclados característicos do estilo. A dupla funcionou impecavelmente por mais de 30 anos, quando Bellew resolveu seguir em carreira solo.

Angus e Malcom Young – AC/DC

Dois irmãos que tocam juntos desde o inicio de suas carreiras. Angus fica na ponta do palco com seu uniforme de colegial, tresloucado, destilando solos cheios de feeling. Lá atrás, Malcolm, com o pé apoiado no praticável da bateria, segue firme com suas bases fortes como se fosse o maquinista de uma locomotiva, mantendo tudo nos devidos lugares apesar da velocidade. Era simplesmente o melhor guitarrista base de todos os tempos! Desde o inicio, ficou bem determinado entre a dupla, o que cada um faria com o seu instrumento, sem estrelismos ou briga de egos. Esse ponto foi muito importante para a consolidação da sua música, uma vez que o rock eminentemente simples praticado pelo grupo é totalmente calcado nas guitarras. A integração entre os irmãos foi determinante para que o grupo soasse coeso. Além de excelente nas bases, Malcolm também era um grande compositor e sabia como encaixar os riffs e bases nos solos de Angus. A dupla funcionou magistralmente até o afastamento de Malcolm em decorrência de sua demência e posteriormente seu falecimento, encerrando um dos maiores legados do rock.

Glenn Tipton e K.K. Downing – Judas Priest

Como acontece no Maiden temos aqui dois guitarristas com estilos distintos que se completam. A dupla fez história comandando as guitarras do Judas Priest por mais de 40 anos, sendo referência para uma infinidade de gerações metálicas que vieram depois. O estilo pesado e até mesmo agressivo de K.K. se encaixou perfeitamente com a guitarra técnica e harmoniosa de Tipton, nascendo assim uma das duplas mais conhecidas dentro do universo do metal. A integração é tanta que fica difícil distinguir o talento dos músicos separadamente, reconhecendo a dupla como uma única unidade sonora. Os solos eram divididos igualmente entre os músicos que compunham a maioria das canções ao lado do vocalista Rob Halford, mas os estilos distintos são mais perceptíveis quando apenas um realiza os solo das canções como Tipton em “Living after Midnight” “Electric Eye” e “Touch of Evil” e Downing em “Wild Nights”, “Devil´s Child” e “The Rage” Os guitarristas atuaram juntos até a aposentadoria de Dowining em 2011. Apesar da entrada do Jovem Richie Faulkner ter revitalizado a banda, é inegável que K.K. faz falta para a identidade do quinteto. Em 2018 Glenn Tipton foi diagnosticado com Mal de Parkinson e se afastou da banda, dando um fim definitivo a uma era clássica.

Rudolf Schenker e Matthias Jabs – Scorpions

Difícil dizer o que determina o sucesso de uma dupla de guitarristas. O estilo de alguns muitas vezes não se encaixam. Foi o que aconteceu no Scorpions. Rudolf Schenker fundou o grupo ao lado de Klaus Meine e sempre se notabilizou por suas bases precisas e riffs marcantes. Mas foi difícil até conseguir um parceiro que se encaixasse em sua proposta. Uli Jon Roth, o primeiro guitarrista solo do grupo tinha um estilo mais virtuoso e psicodélico, tentando emular Hendrix. O segundo, seu irmão Michael, tinha problemas de ego e drogas e também não funcionou. Foi a partir de 79, com a entrada de Matthias Jabs que o grupo conquistou de vez sua sonoridade festejada, entrando de cabeça no hard rock e compondo hinos do porte de “Big City Nights”, “Like a Hurricane”, “Loving You Sunday Monday” e tantas outras, sendo uma referência no estilo. Interessante que no Scorpions os músicos têm sua função mais ou menos definida, cabendo a Schenker a maioria das bases precisas para as melodias cativantes do grupo, deixando para Jabs a função de elaborar os solos na maior parte das vezes. Ocasionalmente a função de solista fica por conta de Rudolf, como na bela balada “Still loving You”. Com toda certeza é a maior e mais conhecida dupla de guitarras do hard rock, que chegou a seu ápice no ao vivo “World Wide Live”.

Phil Collen e Steve Clark – Def Leppard

O estilo de guitarras gêmeas iniciado por Whisbone Ash e Thin Lizzy ganhou vários adeptos na década de 80, entre eles um grupo britânico vindo Sheffield, o Def Leppard. No inicio Steve Clark foi responsável pelas guitarras ao lado de Pete Willis, e embora tenham lançado dois bons discos, foi somente com a entrada de Phil Collen que a dupla funcionou com perfeição. É só conferir a performance da dupla em “Pyromania” para perceber a total integração dos músicos. Clark era da escola do rock setentista e Collen trouxe uma guitarra mais “suja”, com influência do sleaze, estilo que tocava com sua primeira banda denominada Girl. A dupla levou o grupo ao auge com três excelentes petardos com sua sonoridade calcada no hard rock com influência de heavy metal e até pop music, com uma indenidade única. O brilhantismo da dupla funcionou até a morte de Clark em 1991 por problemas de alcoolismo.

Adrian Smith e Dave Murray – Iron Maiden

Talvez esta seja a dupla mais lembrada e cultuada por todos os amantes do rock pesado. Em uma época que os guitarristas brigavam para serem tão rápidos como Eddie Van Halen, Dave Murray e Adrian Smith deixavam a rivalidade de lado e tinham o único interessem em se completarem musicalmente em beneficio da donzela de Ferro. Os estilos distintos foram essenciais para a consolidação do Maiden. Enquanto Murray tinha uma sonoridade mais cortante e pungente, tendo como principal influência Paul Kossof do Free, Smith era mais melódico, utilizando uma sonoridade mais arrastada, com uso de violões e até guitarra sintetizada. Quando Adrian deixou o grupo no inicio dos anos 90, sua saída foi um golpe não só nos fãs, mas na sonoridade do grupo, que carecia de seu senso de melodia para rebuscar as canções. Sua volta já nos anos 2000 foi amplamente festejada pelos admiradores do grupo, que puderam usufruir novamente de seu estilo ao lado de Murray. É inegável que juntos, os músicos soam imbatíveis, tendo criado clássicos como ‘The Trooper”, “Two minutes to Midnight” e tantos outros. E não, não vou comentar sobre Janick Gers... Em breve a segunda parte.


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