Blues Alright: 05 grandes músicos de rock que lançaram discos de blues

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Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

09/11/2021



Todo amante da música sabe que o rock tem suas raízes no blues. O estilo criado no interior dos EUA influenciou uma geração inteira do rock inglês que buscava inspiração em ícones como Robert Johnson e B.B. King. É certo que a grande maioria dos rockeiros acabou criando seu estilo próprio dentro do rock e muitas vezes se afastando completamente do blues. 

Porém, alguns músicos decidiram voltar às raízes, gravando álbuns inteiros no estilo inventado as margens do delta do Mississipi, seja por falta de opção, oportunismo ou por puro divertimento. Abaixo, separei cinco discos de músicos de rock que se aventuraram pelo blues. Boa leitura!


Gary Moore – Still Got the Blues. O irlandês Gary Moore além de ser um dos maiores guitarristas de sua geração, era também conhecido por seu gênio difícil e irascível. Até o final dos anos 80 sua carreira tinha sido calcada no hard rock, lançando vários discos do estilo, além de ter integrado o seminal Thin Lizzy. No inicio dos anos 90 Moore decidiu reinventar sua carreira e se aproximar do blues, lançando um álbum inteiro dedicado ao estilo. Alguns assessores tentaram dissuadi-lo da ideia, mas o musico bateu o pé e entrou em estúdio acompanhado de ótimos músicos e alternando canções próprias com releituras de clássicos do blues. De estilo versátil, Moore se adaptou bem ao blues, tanto na criação dos temas quanto na técnica bluesy, criando ótimas canções como a faixa título, que caiu no gosto popular e virou o primeiro single do álbum; Outros destaques são: “Midnight Blues”, uma balada blues arrastada e passional; E a rápida e rocker “Moving On” que abre o petardo com feeling e dinamismo; Dos covers vale menção de "Oh Pretty Woman", que também virou single e tem participação de Albert Collins e um eficiente naipe de metais; “Too Tired”, um soul blues da lavra de Johnny Guitar Watson, com Don Airey ao piano; E ainda “Walking By Myself” de Jimmy Rodgers, com Moore fazendo um contraponto com a gaita de Frank Mead em um groove maravilhoso; Lançado em março de 1990, a faixa titulo alcançou a 97ª posição da Billboard, sendo a única canção do guitarrista a entrar no Top 100. O disco vendeu milhares de cópias e colocou o guitarrista em evidência, angariando vários novos fãs. Tamanho sucesso fez com que Moore continuasse pelo caminho do blues, gravando novos trabalhos do estilo.

Glenn Hughes – Blues. Todos que apreciam o som do Glenn Hughes sabem da influência do soul e funky americano que o vocalista e baixista sempre trouxe para o rock. Por tal fato, muitos se surpreenderam quando viram o músico lançar um álbum inteiro dedicado ao blues. Mais do que um álbum atípico na carreira do vocalista, “Blues” marca o renascimento de Hughes na música e em sua carreira solo, após ter se livrado do vicio em drogas pesadas um ano antes. Glenn não lançava um disco solo desde sua estreia em 1977 com “Play me Out”, e aceitou o convite para fazer parte do LA Blues Authority, um projeto de blues que contou com a participação de muitos músicos tocando faixas e covers de blues originais. Porém o vocalista foi o único participante que optou por lançar material próprio. Hughes dividiu o baixo com Tony Franklin (The Firm, Blue Murder), e deixou as guitarras a cargo de músicos conhecidos no cenário do hard rock como John Norum (Europe), Mick Mars (Mötley Crüe), Warren DeMartini ( Ratt), Richie Kotzen (Poison , Mr. Big) e Mark Kendall (Great White). Hughes está cantando como nunca, nem parece ter largado as drogas apenas há um ano. Sua voz se encaixou perfeitamente no blues, e os guitarristas se saíram muito bem alternando os solos nas canções. Vale mencionar como destaque “The Boy Can Sing the Blues”, que abre o álbum de maneira atrabiliária, com a voz encorpada de Gleen e um belíssimo solo de Norum; A passional “So Much Love to Give”, quase uma balada, com assinatura do guitarrista Craig Erickson, que gravou todas as bases do allbum e compôs os temas ao lado de Hughes; E ainda "What Can I Do For Ya?", um bluezão arrastado com Richie Kotzen arrasando nos solos. Na época o disco passou meio despercebido, seja por falta de divulgação, seja pelo desinteresse da comunidade bluezeira em conferir um trabalho de Hughes que estava com a carreira em baixa. Mas certamente é maravilhoso ouvir o The Voice cantando blues.

Paul Rodgers – Muddy Water Blues. Paul Rodgers é considerado até os dias de hoje um dos maiores frontman de todos os tempos, estando à frente de grupos seminais como Free, Bad Company e The Firm. Porém, após o fim deste ultimo, sua carreira tinha sido relegada ao ostracismo. Em 1992 Rodgers decidiu gravar um álbum com grandes covers de blues. Chamou o produtor Billy Sherwood e conseguiu uma cozinha coesa, formada pelo baixista Pino Paladino e pelo baterista Jason Bonham. Como o blues é um estilo eminentemente comandado pela guitarra, Rodgers usou seu bom relacionamento no show bussines para recrutar os maiores nomes do instrumento na época, de medalhões como Jeff Beck e David Gilmour até novatos do porte de Slash e Brian Setzer, passando por Brian May, Buddy Guy, Neal Schon, Gary Moore, Richie Sambora, Steve Miller e Trevor Rabin. Utilizando um repertório apenas com clássicos sendo tocados pela nata da guitarra, o projeto não tinha como dar errado. Paul Rodgers entrega um álbum irrepreensível, com interpretações arrojadas e acima da média. A faixa titulo é a única composição original, e aparece no inicio e fim do álbum, respectivamente em uma versão acústica com Buddy Guy e elétrica, com Neal Schorn (Journey); Das releituras, vale destacar: Louisiana Blues, com a gaita malandra de Jimmie Wood e solo de guitarra de Trevor Rabin (Yes); “Rolling Stone” que traz Rodgers emulando seus vocais da época do Free e Jeff Beck detonando na guitarra com um solo sem palheta; E ainda 'Standing Around Crying', um soft blues com destaque para o órgão hammond de Ronnie Foster e a guitarra melódica de David Gilmour;
No fim das contas, além de ser um excelente álbum, “Muddy Water Blues” conseguiu seu intento, colocando novamente o nome do vocalista no cenário musical mundial.
Steve Hackett – Blues With a Feeling. Hackett integrou a fase mais progressiva e sinfônica do Genesis ao lado de Peter Gabriel nos anos 70. Quando o grupo começou a caminhar para o pop, o músico pediu as contas, começou uma bem sucedida carreira solo, e foi o único integrante da banda a continuar com seu legado sinfônico. Por tal fato, Steve assustou a comunidade progressiva em 1994, ao lançar um álbum de blues majoritariamente autoral, onde além das guitarras e vocais, aparece em vários momentos utilizando à harmônica (gaita de boca). Hackett explicou na ocasião que sua primeira grande influencia musical foi o blues, e seu primeiro instrumento a gaita e não o violão como muitos poderiam pensar. Para ele, a gravação do álbum foi uma volta às raízes e ao estilo que o despertou para a música. Um dos erros do disco foi o próprio guitarrista ter cantado os temas. Sua voz pode ser aceitável no progressivo, mas não tem o feeling necessário para o blues, principalmente nas faixas mais tradicionais do estilo. Por isso, prefiro os temas instrumentais como “Footloose” e “A Blue Part Of Town”, embora Steve não faça feio em canções cantadas como “Born in Chicago” e “Big Dallas Sky”, sendo que nesta ultima, o músico recita os versos de maneira soturna e encorpada. Embora tenha boa qualidade, o disco permanece obscuro na discografia de Hackett. Os fãs de progressivo sinfônico nunca tiveram muito apreço pelo blues e os aficionados pelo estilo não curtem o trabalho melódico do guitarrista.

Vivian Campbell – Two Sides of If. O guitarrista ficou conhecido por integrar a primeira fase do grupo de Dio, lançando álbuns clássicos no heavy metal. Após uma breve passagem pelo Whitesnake, Campbell substituiu Steve Clarke no Def Leppard, um dos maiores nomes do hard rock inglês. Por todo este histórico, foi surpreendente quando o músico lançou este álbum em 2005, recheado de versões para clássicos do blues e blues rock como: “God or Bad Times”, “Reconsider Baby”, “I Ain't Superstitious” e muitos outros. Mas poucos sabem, que Campbell se apaixonou pela guitarra após assistir um show de Rory Gallagher em Belfast onde nasceu. Há inclusive uma versão maravilhosa para “Calling Card” de Gallagher no disco. Além das guitarras, Vivian se arrisca nos vocais se saindo muito bem, com um timbre parecido com um Jon Bon Jovi do Mississipi. O baterista Terry Bozzio (Frank Zappa, Jeff Beck) assume os tambores e há participações de Joan Osbourne e Billy Gibbons (ZZ Top) que aparece na única faixa inédita do álbum, a excelente “Willin´for Satisfaction”. Ao todo são doze temas que irão agradar em cheio aos amantes de um bom blues rock e com certeza deixarão surpresos eventuais fãs de sua fase no Leppard.


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