Rock e repressão durante o AI-5

Artigo

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Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Top Notch

09/10/2021



Entre a geração tremendona da Jovem Guarda e a abelhuda selvagem oitentista, há mais de uma década de rock brasileiro praticamente desconhecido do grande público e da academia. Salvo exceções como os Secos & Molhados, os roqueiros setentistas são bem invisíveis hoje e, na época, não tiveram grande divulgação, porque incomodavam a ditadura e setores da esquerda. Como cantou Rita Lee, em 1980: “roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido”. Era essa a geração a que se referia a letra de Orra, Meu. 
Em 2008, o historiador Alexandre Saggiorato contribuiu para começar a desbravar a mata virgem desse período musical no país, com sua dissertação de mestrado Anos de chumbo: rock e repressão durante o AI-5.

A ideia central de Saggiorato é que mesmo não tendo adotado postura explicitamente antirregime militar, as bandas de rock dos 70’s transgrediram comportamentalmente com seus cabelões; alusões ao consumo de drogas; opção por viver em comunidades, como seus ídolos hippies e mesmo nas letras, que, falando muitas vezes em liberdade, podem servir de metáfora para a repressão da ditadura. Considerando-se que liberdade, como tema genérico, esteve sempre presente em letras de rock, as análises das letras são os pontos mais discutíveis do trabalho, mas isso não depõe contra a dissertação. Letra de música é para ser polissêmica mesmo.

Mesmo focando especificamente o trabalho de apenas três bandas (Novos Baianos, Casa das Máquinas e O Terço), o texto traz exemplos e informações de muitas outras, como, Recordando o Vale das Maçãs, Módulo 1000, Raul Seixas e tantos mais.

A fim de situar o leitor nos debates e embates ideológicos que rolaram nos 70’s, Saggiorato tem que voltar ao tempo da Bossa Nova, quando a música popular se fracciona, grosso modo, em setor engajado politicamente e setor não, que na década de 60 e setenta seria chamado de alienado pela esquerda. Esse levantamento de antecedentes será muito útil para quem entende bossa-novistas ou hippies como grupos unívocos. Havia bossa-nova sobre patos quenquéns, mas também sobre a falta de vez do morro. Tinha hippie natureba, hippie junkie, hippie modinha....

O acirramento da repressão ditatorial, com o famigerado AI-5, de 1969, radicalizou também o relacionamento e o patrulhamento das posições políticas dos artistas, especialmente dos mais populares. Havia que ser a favor ou contra o regime; não pegava bem ser neutro, ou “apolítico, bicho”, como afirmou Roberto Carlos certa vez.

Assim, os milicos perseguiam, censuravam e intimidavam cantores cujas letras eram percebidas como revolucionárias. E as esquerdas patrulhavam quem fizesse sucesso para que fosse engajado. Quem não tinha penetração midiática elas não davam bola, de modo geral.

Os roqueiros – psicodelia, hard rock e progressivo foram os subgêneros dominantes na cena brasuca da década – eram vistos com desconfiança pelos dois lados. A direita os achava vagabundos maconheiros subversivos e parte da esquerda os considerava vagabundos maconheiros alienados. Saggiorato tenta provar que não era bem assim. Á sua moda, nossos rockers lutaram contra o sistema. Há horas em que o autor passa ideia de que estivessem “fora do sistema”; outro ponto discutível: como seria isso possível? Dissidências são possíveis, claro, e possíveis pelo próprio sistema, mas estar fora dele implica não participar de nada do que lhe diz respeito. Complicado.

Repleto de histórias e de texto fluido e acessível mesmo para leigos, Anos de chumbo: rock e repressão durante o AI-5 pode ser baixada link abaixo:

secure.upf.br/pdf/2008AlexandreSaggiorato.pdf


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