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Artigo

Trocas culturais na música popular brasileira através da obra do Clube da Esquina

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Por: Roberto Rillo Bíscaro

18/06/2021

O primeiro contato com Milton Nascimento foi quando o Fantástico apresentou Ponta de Areia, provavelmente em 1975, ano do lançamento do álbum Minas, onde está a canção. Pode ser truque mnemônico, mas recordo direitinho do narrador explicando que Minas Gerais já tivera saída para o mar, contextualizando a letra e também da belezura do coro infantil e daquela vocalização inicial de Milton, que me extasia até hoje. Se tudo ocorreu assim, tinha então oito anos de idade (mas já era fã(nático) pela gritaria psicodélica de Gal Costa e tinha disco dos Secos & Molhados).

Embora sem comprar seus discos, a “turma de Minas” sempre me agradou mais do que a da Bahia ou qualquer outra invencionice mercadológica para criar grupos e movimentos. Como amo Genesis e Yes, não estranha a preferência pelos beatlemaníacos do Clube da Esquina.

Logo depois da remasterização do álbum Minas, no Abbey Road, um aluno de inglês me o emprestou. Conhecedor de canções soltas ou coletâneas, quase enfartei de emoção; que sofisticação, que coisa mais progressiva de viver. Não me surpreendeu, porque isso só ocorre quando não esperamos nada de algo/alguém. Desde 1975 sabia que Nascimento era muso, só não tinha condições de comprar os álbuns, porque tinha prioridades muito bem definidas e orçamento apertado. A internet democratizou acesso e hoje conheço muitos discos do povo do Clube da Esquina.

Tinha minhas assunções sobre essa formação cultural mineiro-cosmopolita, mas jamais lera estudo até deparar-me com Na esquina do mundo: trocas culturais na música popular brasileira através da obra do Clube da Esquina (1960-1980), tese de doutoramento de Luiz Henrique Assis Garcia, defendida em 2007, na UFMG. 

Por se tratar de texto acadêmico, o historiador tem que brecar a História a fim de esmiuçar conceitos e justificar ideias, mediante uso de teóricos como Raymond Williams, Nestor García-Canclini, Angel Rama e Renato Ortiz. Mas, isso só torna seu trabalho mais útil, porque fazemos um 2 em 1: aprendemos ideias sobre cultura e as vemos aplicadas na história recente de nossa música popular, que em algum momento dos anos 60 teve parte chamada de MPB e outra porção bem maior, desqualificada de várias maneiras. 

O trabalho de Assis Garcia identifica o processo de internacionalização da música popular com o avanço dos mass media ao redor do globo e identifica os efeitos que isso teve num Brasil que nos anos 60 estava polarizado em debates calorosos entre o “nacional” e o “estrangeiro”; o “popular” e o “erudito”; o “engajado” e o “alienado”. Havia canção de protesto com personagem-pescador; havia a galera do Tropicalismo, que começara mansa e certinha, mas radicalizou usando psicodelia e guitarras como elementos de choque. Mas, que enfrentava o sistema amando aparecer nele o mais possível.

Enquanto isso, na provinciana-cosmopolita Belo Horizonte, grupo de jovens da classe-média usava todas as referências com as quais crescera, que ia desde música sacra à psicodelia e as sintetizava num som que, no começo rotulado de “misterioso”, passaria a ser bússola e compasso da hibridez de “bom gosto” que caracterizaria o pico comercial da MPB, que duraria a segunda metade dos 70’s até o advento do “rock” brasileiro dos anos 80.  

A tese não é uma história do Clube da Esquina, até porque a ideia de confraria é mais conveniente constructo midiático do que realidade de “movimento”. A galera era amiga, gravava junto, mas cada um na sua, especialmente Milton, que bombou internacionalmente. Seria interessante ler algo sobre o lado B disso, ou seja, fricções internas, exclusões (será que não ficou alguém de fora do compadrio endêmico brasuca?), mas a colocada nos trilhos que proporciona o trabalho do fã confesso Garcia (não se pode perder isso de vista) é muito eficiente, eficaz, oportuna e interessante.

Na esquina do mundo: trocas culturais na música popular brasileira através da obra do Clube da Esquina (1960-1980) pode ser lida/baixada legal e gratuitamente, no site: repositorio.ufmg.br/bitstream

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