Tributo brasileiro aos Cocteau Twins

Relacionado com: Cocteau Twins

Cocteau Twins

Artigo

Artigo

Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Top Notch

14/06/2021



Os Cocteau Twins confeccionaram maravilhas! Em 1980, Robin Guthrie e Will Heggie (substituído por Simon Raymonde, em 1983) fundaram uma banda numa cidadezinha perdida na Escócia. Para vocalista, convidaram Elizabeth Fraser, logo apelidada de “A Voz de Deus” pela bombástica imprensa musical britânica.

A mágica sonora do trio jamais lotou estádios ou voou alto nas paradas, mas sua influência na música pop foi descomunal. Impossível de rotular, os Cocteau Twins desenhavam paisagens sonoras habitadas por seres místicos e etéreos. Camadas sobrepostas de instrumentação, os vocais de múltiplos timbres da fada Liz, a música dos Cocteau gerou filhotes líricos, mas também rebentos sonolentos ou mesmo noise, como a cena shoegazer, que de certa forma casou Cocteau Twins com Jesus and Mary Chain. 

O som dos Cocteau Twins é tão idiossincrático que a noção de álbum-tributo pode soar herege aos acólitos, especialmente quando se cogita quem elevaria os vocais à perfeição pristina de Fraser.

Quando soube do álbum A Tribute to Cocteau Twins, lançado no dia 23 de dezembro, de 2013, reagi como devoto que jamais admitirá a dessacralização de seu objeto de devoção. Logo ponderei que os artistas homenageavam os mestres que lhes influenciaram. Um álbum-tributo não tem a ver com superar o ídolo – intimamente as bandas podem ambicionar isso, mas certamente sabem que os ouvintes sempre (?) preferirão as versões originais. Sendo fãs, os próprios grupos devem gostar mais das versões dos Twins. Depois dessa preparação mental e emocional, escutei o álbum e achei-o muito competente e a altura dos homenageados.

A Tribute to Cocteau Twins tem 10 artistas interpretando 8 canções, uma vez que Heaven or Las Vegas e In Our Angelhood (ah, os títulos misteriosos dos CT) são gravadas 2 vezes e uma capa inspirada na de Treasure.

O álbum abre com um achado estupendo; o The US atualizou Garlands, faixa meio gótica do primeiro álbum, nos termos da própria banda de Liz Fraser, deixando a canção com mais cara de um Cocteau posterior, muito mais rico e criativo que o do primeiro disco. Capaz de vocais múltiplos, a vocalista em momentos lembra a injustamente esquecida Sally Oldfield. Prefiro essa versão à original!

A segunda faixa é o maior desafio com relação a fazer de tudo para deixar de lado a comparação com os vocais de Liz. Carolyn’s Fingers é um dos ápices angelicais da cantora, que garantiria seu lugar ao lado do Senhor apenas com essa canção. O Drakes Hotel fez um servicinho bom, mas aguou um bocadinho o instrumental, usando percussão que os CT já haviam abandonado quando de Blue Bell Knoll, álbum-deleite que contém Carolyn´s Fingers.

O Robsongs bota guitarra Robert Smith e vocais masculinos em Persephone, resultando num instrumental mais esparso (fraco) que o original, mas com outra faceta oitentista. Interessante.

In Our Angelhood ganhou leitura que estressa seu lado shoegazer pelos meninos do Screen Vinyl Image com seu vocal sonolento. Já o Schnowald nos congela com uma ducha de synth-gothic.

Suzy Blu acelera Heaven or Las Vegas para deixá-la como rockinho feminino feito por quem cresceu escutando hip hop e dance.

O resultado de A Tribute to the Cocteau Twins é tão positivo que estou tentado a dar uma chance a um tributo gótico lançado em 2000. Mas, vamos com calma, tudo tem seu tempo.

A Tribute to the Cocteau Twins pode ser ouvido gratuita e legalmente no endereço abaixo:

theblogthatcelebratesitself.bandcamp.com/album/a-tribute-to-cocteau-twins


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Roberto Rillo Bíscaro

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 11/09/2017

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaSecond Still - Violet Phase (2019)

    02/09/2020

  • Image

    ResenhaO Cinza - De Peito Aberto (2019)

    09/03/2021

  • Image

    ResenhaGruff Rhys - Seeking New Gods (2021)

    07/11/2021

  • Image

    ResenhaLast Christmas

    06/12/2021

  • Image

    ResenhaBrief Encounter - Introducing - The Brief Encounter (1977)

    11/04/2020

  • Image

    ResenhaJazmine Sullivan - Reality Show (2015)

    03/10/2017

  • Image

    ResenhaTuxedo - III (2019)

    18/05/2020

  • Image

    ResenhaLuiza Brina - Tão Tá (2017)

    04/09/2020

  • Image

    ResenhaMaíra Manga - Lá (2021)

    15/01/2022

  • Image

    ResenhaUnifaun - Unifaun (2008)

    05/03/2021

Visitar a página completa de Roberto Rillo Bíscaro



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.