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As transformações na música popular brasileira: um processo de branqueamento

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Por: Roberto Rillo Bíscaro

06/06/2021

Quando Policarpo Quaresma cisma em aprender a tocar violão, sua reputação de homem sério começa desmoronar perante os vizinhos. À época de Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), fino era tocar piano. Violão era coisa de seresteiro vagabundo. O instrumento era associado às classes populares pardas e pretas. 

Naquele tempo, muito do que hoje é considerado tipicamente “brasileiro” era marginalizado. Mais ou menos a partir dos anos 1930, o populismo de Getúlio Vargas começa a valorizar, violão, samba, feijoada, miscigenação, carnaval, futebol. 

Segundo determinado viés explicativo, esses e outros elementos da influência afro em nossa cultura são apropriados pelos brancos, num crescente processo de branqueamento da cultura.


Em 2008, Patrícia Fátima Crepaldi Bento da Silva defendeu dissertação de mestrado na PUC paulista intitulada As transformações na música popular brasileira: um processo de branqueamento, na qual defende que o movimento da Bossa Nova foi o grande catalisador da exclusão dos músicos negros do panteão dos grandes da MPB.

Os meninos e ninas brancos da zona sul carioca, envoltos no afã modernizador dos anos JK, propuseram-se a refinar nossa música popular, despindo o samba de sua negritude e excluindo afrodescendentes, como Alaíde Costa e Johnny Alf. Segundo a autora, Jobim & Cia desprezavam o sambão suburbano e transformaram-no em algo mais “branco”, palatável para a classe-média ansiosa em ser cosmopolita. Com isso, o violão e a própria profissão de músico passaram a ser valorizadas e influenciaram todo o desenvolvimento histórico de nossa música popular, que passaria a se chamar MPB alguns anos depois. 

Nessa mesma perspectiva, a socióloga defende que todos os “movimentos” musicais até o Tropicalismo fizeram o mesmo, a saber, a canção de protesto, a jovem guarda e os festivais da canção.

Partindo do arcabouço crítico de José Ramos Tinhorão, que sempre teve má vontade com tudo que não seja “popular”, a dissertação peca por não problematizar seus referenciais teóricos, até porque Tinhorão não morreu de amores pelo Tropicalismo só porque Gil é negro. Na verdade, ele afirmou que era “uma boa malandragem”. Nem o “autêntico” Cartola escapou da metralhadora tinhorânica: As Rosas Não Falam seria um plágio. E Cartola era negrérrimo e não-bossanovsita. 


A autora tem razão quando denuncia as tentativas de minimizar ou desconsiderar os reclames dos afrodescendentes como vitimismo ou apresentando as exceções confirmadoras da regra da exclusão. Seria o caso do icônico Milton Nascimento, que aliás, também não escapou de Tinhorão. Um breve passeio, que fosse, pelas principais posturas do controverso crítico enriqueceria o trabalho.

As transformações na música popular brasileira: um processo de branqueamento está disponível para leitura/download no site: sapientia.pucsp.br.

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