Música “brega”, indústria fonográfica e crítica musical no Brasil nos anos 1970

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Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Especialista

29/05/2021



Quando criança e durante a maior parte da adolescência, ouvi rádio AM, nos anos 70/80. Naquela época, FM tocava música para a classe média e AM era mais povão. Pelo menos, na região noroeste do estado de São Paulo era assim. Lilian, Kátia, Julia Graziela, Marcio Greyck, Ovelha, Adriano, Harmony Cats, eu poderia citar uma página. Esse pessoal também tocava nos programas de auditório do Sílvio Santos, Barros de Alencar, Bolinha, Chacrinha (para o qual Gal & Cia não recusavam convite, quando o Velho Guerreira estava na Globo).

Gosto musical é arena de combate por hegemonia e demarcação de território para certas frações de classe. O que o sujeito ouve e o que gosta são marcas de pertencimento a determinado grupo. Por isso que Fernando Mendes é brega para certos setores, mas quando Caetano Veloso regrava Você Não me Ensinou a Te Esquecer autoriza esses rincões a gostarem da canção, “refinada” pelo baiano.

Nunca tive problema em admitir que amo certas canções “bregas” e jamais necessitei da chancela de medalhão da MPB (que me importa o que Adriana Calcanhoto indica ou diz?), mas sempre me interessei pelo assunto da “música brega”, especialmente dos 70’s. Por isso, li com interesse a dissertação Eu Não Sou Lixo: música “brega”, indústria fonográfica e crítica musical no Brasil nos anos 1970, de Sílvia Oliveira Cardoso. O texto pode ser acessado online e baixado em pdf.

http://ppgcom.uff.br/wp-content/uploads/sites/200/2020/03/tese_mestrado_2011_silvia_oliveira.pdf

Inspirada pelo clássico Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César Araújo, Sílvia se embasa em referenciais teóricos importantes, como a noção de gosto, do sociólogo Pierre Bourdieu, segundo a qual o gosto é forma de marcação de um lócus social e o materialismo histórico de Raymond Williams, que vê a cultura entremeada em todas as instâncias e não apenas como reflexo mecânico na desgastada fórmula da base e superestrutura.

O termo brega teve seu significado pejorativo meio esvaziado pelo uso da palavra pelos próprios músicos, pelo menos das gerações mais jovens, para designar um bem-sucedido estilo, o tecnobrega, que floresceu no norte e nordeste e gerou artistas nacionalmente conhecidos, como Gabi Amarantos.

A autora defende que a substituição da emotividade dos boleros e sambas-canções dos anos 40 e 50 pela contenção classe-média da Bossa Nova relegou o excesso no canto e nas letras às classes populares.

Nos anos 60/70, a necessidade de artistas da Jovem Guarda de reorientarem suas carreiras com o declínio do movimento; a reestruturação musical de Roberto Carlos, que passou de roqueiro veloz a moço romântico e nos anos 70, cada vez mais apimentado; o surgimento de artistas oriundos das classes populares, que se utilizavam de ritmos valorizados por elas, como o samba, bolero, balada, somando-se ao desenvolvimento da indústria cultural de massa, o estouro de audiência de programas de auditório na TV, da popularização do LP como suporte mais difundido do que o compacto, constituíram terreno mais do que fértil para o sucesso de vendas de artistas bregas como Nelson Ned e Odair José.

A autora discorre sobre a liberdade concedida a artistas da chamada MPB pelas gravadoras, que não se preocupavam tanto com suas vendagens – até porque músicos como Milton Nascimento vendem seus álbuns anos depois de lançados, diferentemente de artistas fabricados, cujas vendagens têm prazo bem menor de vencimento – e investia vultosas somas nas capas e produção dos LPs, ao passo que a galera brega não tinha como experimentar ou ter produtos de boa qualidade gráfica.

 Os 3 capítulos de Eu Não Sou Lixo: música “brega”, indústria fonográfica e crítica musical no Brasil nos anos 1970 demonstram como os gêneros musicais mais identificados com as classes populares foram desvalorizados ou encarados de forma paternalista por setores da imprensa. Os críticos musicais sistematicamente desvalorizavam a produção de artistas como Waldick Soriano, que vendiam alto, chegavam ao topo das paradas, mas não tinham respaldo na imprensa “séria” por serem “bregas”.

Embora a gente espere mais críticas extraídas do jornal coberto pelo longo período do recorte adotado por Cardoso, seu trabalho deve ser lido por interessados em música “brega” ou não.


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