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Steve Howe e Mark Knopfler: O bem-sucedido encontro do rock com a country music!

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Por: Márcio Chagas

03/01/2019

A princípio o leitor pode considerar estranha uma matéria em que Steve Howe e Mark Knopfler figurem lado a lado como personagens principais. O primeiro construiu uma sólida carreira dentro do universo progressivo como guitarrista do Yes e do Asia, Já o segundo consolidou seu nome no pop rock oitentista como guitarrista e vocalista,  liderando o Dire Straits, uma das maiores bandas daquela década e que atingiu o megassucesso com o multiplatinado “Brothers in Arms”. 

Ambos os músicos possuem ainda uma prolifica carreira solo. Enquanto Howe grava discos ao lado de seus filhos em paralelo as atividades de sua banda, Knopfler, após algumas trilhas sonoras de qualidade começou sua carreira solo no meio dos anos 90, após o encerramento das atividades de seu grupo.
Embora venham de vertentes diferentes dentro do enorme universo do rock o que une ambos é a técnica diferente e as influências de cada um que convergem para um nome principal: Chet Atkins! Pode parecer ironia, mas o mago da guitarra progressiva e o baluarte do rock inglês dos anos 80 carregam a mesma influência vindo do mundo country.

O guitarrista americano desenvolveu e popularizou uma técnica denominada fingerpicking e Chicken picking (técnica de tocar guitarra ou violão utilizando o polegar da mão direita para o baixo ou ritmo e os outros dedos para fazer a parte da melodia), trazendo um novo contexto para o desenvolvimento do instrumento e uma visão diferente dentro do estilo. O que Atkins não imaginava é que sua técnica transcenderia o estilo e influenciaria inclusive músicos de rock.

Steve Howe declarou certa vez a Guitar Player brasileira em maio de 2003 (ed. 35), que a guitarra ligada as raízes do blues não o interessava. Ao ser perguntado o  porquê de evitar o blues, sendo um legitimo guitarrista nos anos 60, o mesmo afirmou: “ eu  o considerava desagradável – na verdade, decepcionante seria uma palavra melhor...” Se você considerar que no inicio dos anos 60 não havia muitos guitarristas para se inspirar, realmente sobrava poucas opções para o jovem Howe: ou beberia na fonte do jazz (como realmente o fez, dissecando Wes Montgomery), ou buscaria alternativas diferentes como a country music. O estilo como um todo não deve tê-lo agradado demasiadamente, mas Steve achou o que procurava na técnica de Chet Atikins. 

O músico incorporou o estilo do mestre e o adaptou utilizando uma palheta grossa de pexiglas para conseguir um som mais encorpado. Howe também absorveua sonoridade aguda e estridente das guitarras country, além do vibrado, deixando o som de seu instrumento bem personalizado.

Além das guitarras semi acústicas bastante utilizadas no country no inicio dos 60s, Steve utiliza também com bastante propriedade a Fender Telecaster, uma guitarra muito utilizada no country. Na mesma edição da revista ele chegou a declarar: “apesar da maioria dos álbuns do Yes terem sido gravados com Gibson, Relayer possui bastante Fender – especialmente Tele” (Telecaster). Não é difícil perceber a influência country do guitarrista no som do grupo, principalmente na musica “The Clap”.

O escocês Mark Knopfler também adaptou o estilo de Chet Atkins e outros mestres do estilo, pois, apesar de canhoto, ele toca como destro e de uma forma totalmente inovadora: com a combinação principalmente do polegar, do indicador e do dedo médio, sem o uso de palhetas, técnica denominada fingerstyle.
Seu solo mais memorável, que aconteceu na versão aos vivo de “Sultains of Swing” é totalmente calcado no estilo da country music, inclusive com o vibrato característico. Há inclusive temas descaradamente influenciados pelo estilo, como como ocorre em  “How Long”, canção presente no disco “On Every Street”, completamente calcada no country, com guitarras slide, pedal steel e outras características do gênero, inclusive com o vocal de Mark soando complacente, apenas para citar dois grandes exemplos. Em termos de trabalhos completos, o segundo disco do grupo, Communiqué, é onde as influências de country se mostram mais latentes.

Sempre munido de uma fender Stratocaster, Knopfler fez coisas inimitáveis com sua profusão de timbres, como acontece na introdução de “Money for Nothing”. Nenhum outro guitarrista conseguiu imitar aquele timbre com perfeição. Toda essa originalidade deriva da visão diferente e complexa que o músico tem de seu instrumento. Esse seu olhar diferente teve inicio quando o guitarrista encontrou a obra de  Atkins. 

A influência de Chet Atikins na sonoridade do músico é tão grande que em 1990, Knopfler realizou o sonho de gravar um disco inteiro de country ao lado de seu ídolo. O trabalho foi denominado “Neck and Neck” e conseguiu boas colocações nas paradas americanas dedicadas ao estilo.

Não seria descabido dizer que o sucesso desses músicos se deu devido a técnica personalíssima de ambos, que construíram todo o estilo baseado em métodos completamente diversos dos encontrados no rock. 

Apesar de admirar o estilo de Howe e Knopfler, uma vez que, cada um dentro de sua vertente musical trouxe um vocabulário inovador para um instrumento tão popular quanto a guitarra, a influência da country music não se limita aos dois. Steve Morse (Deep Purple), Zakk Wylde (Ozzy Osbourne) e Billy Gibbons (ZZ Top), são apenas mais alguns rockeiros que utilizam técnicas oriundas do country  em sua sonoridade.

Abaixo separei três grandes momentos solo de cada guitarrista para quem eventualmente deseja conhecer seu trabalho solo:
 
Mark Knopfler:                                                         Steve Howe:

Local hero – 1983                                                  The Steve Howe Album – 1979
Golden Heart – 1996                                             Turbulence – 1991
Sailing To Philadelphia – 2000                           Elements – 2003

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