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Artigo

Dez grandes baixistas subestimados

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Por: Márcio Chagas

05/01/2021

O baixo é naturalmente um instrumento mais discreto. A plateia presta muito mais atenção no vocalista ou guitarrista e isso é fato. Mas há grandes baixistas que se destacam e se tornam referência no instrumento, como Jaco Pastorius, Chris Squire e Steve Harris. 
Porém, há baixistas que integraram bandas conhecidas, possuem elevado nível técnico, boa presença de palco, mas ainda assim não são reconhecidos ou lembrados quando se elabora uma lista dos melhores no instrumento e nem mesmo aparecem em acaloradas discussões sobre os melhores baixistas do mundo.
Certamente não existe apenas um motivo para que tal reconhecimento não aconteça. Uma série de fatores é determinante para a consagração de qualquer músico, seja ele baixista ou não. 
Tentando corrigir essa injustiça, elaborei uma lista com dez grandes baixistas que sempre foram subestimados e nunca obtiveram o merecido reconhecimento pelo seu talento. 
Se você também conhece um baixista subestimado, deixe sua opinião nos comentários. Boa leitura. 

Allen Woody: Este americano começou a tocar ainda nos anos 80, no grupo de jazz fusion Rock Montage e posteriormente com o ex-baterista do Kiss, Peter Criss. Mas sua carreira só começou a decolar na década seguinte, quando integrou o Allman Brothers Band, o maior combo de southern rock do mundo. Além de fazer parte do grupo liderado por Gregg Allman, Woody fundou o Gov´t Mule ao lado de Warren Haynes, o segundo guitarrista de sua banda. O que começou por pura diversão foi crescendo de maneira avassaladora, e em 1997, Woody e Haynes deixam o Allman Brothers para se dedicarem integralmente ao Mule, onde permaneceu até sua morte. Falar da técnica e do estilo de Woody é complicado. Ele não era apenas um mero baixista, mas um estudante do instrumento e de vários estilos inerentes a ele. O músico possuía cerca de 450 modelos de baixo e os utilizava com diferentes afinações, dependendo do que pedisse cada estilo ou canção. Por exemplo, nos Allman Brothers, seu instrumento preferido era um Gibson Thunderbird e ocasionalmente um Alembic. No Gov´t Mule o músico era ainda mais eclético, utilizando uma infinidade de marcas e modelos, inclusive alguns com dois braços, de 8 e 12 cordas, além de modelos fretless. Ainda me lembro do espanto ao vê-lo utilizar um baixo de 18! cordas na introdução da clássica “Whipping Post” no DVD dos Allman Brothers com uma desenvoltura impar (foto acima). Infelizmente o baixista morreu de overdose em agosto de 2000, deixando uma lacuna irreparável na música. Ouça: Gov´t Mule – Dose

Carles Benavent: Sendo um apreciador de música por quase quatro décadas, não me impressiono facilmente com qualquer banda ou músico. Mas é impossível ver Carles Benavent e continuar impassível ao seu estilo exótico e distinto. O músico nascido em Barcelona, começou a tocar influenciado pelo blues rock e Jimi Hendrix, mas posteriormente desenvolveu uma técnica utilizada por violonistas de flamenco, alternando simultaneamente a palheta e o dedo para tocar nas cordas, criando um conceito de condução e harmonia completamente diferente de tudo que havia sido visto até então. Além de uma prolífica carreira solo, Carles trabalhou com Chick Corea, Miles Davis e Paco DeLucia até o ano da morte do violinista. Apesar de ser um músico diferenciado, seu nome nunca é lembrando entre os melhores do fusion. Ouça: Carles Benavent – Un, Dos, Tres...

Clive Mitten: Este inglês nascido em Brighton foi pioneiro no uso do baixo de seis cordas no rock progressivo ainda nos anos 80, quando integrou o Twelfth Night. Mitten iniciou na música tocando piano, com aulas ministradas por sua avó. Logo a paixão pelo rock progressivo, especialmente pelo Yes, o fez mudar de estilo e instrumento. Mas o baixista encontrou sua sonoridade ideal em outra banda: “Eu sempre fui um grande fã de Chris Squire. Mas eu percebi que o som que eu queria do meu baixo era o som muito metálico e agudo alcançado por Greg Lake naquela época. Sempre quis que o som do meu baixo fosse cortante e proeminante”. De certo modo o músico conseguiu seu intento, como pode ser ouvido no clássico "Live and Let live” e no álbum instrumental “Live at the Target”. Utilizando um baixo Shergold Marathon Custon de seis cordas, o músico não só conseguia eficientes bases, como também criava linhas melódicas que se rivalizavam com a guitarra. O grupo se manteve inativo por toda década de 90 e atualmente realiza shows esporádicos. Mitten acabou se mudando para Austrália e se envolvendo com trabalhos fora da esfera musical. Talvez por este motivo não tenha seu talento devidamente reconhecido pelos amantes dos graves. Ouça: Twelfth Night – Live and Let Live

Darryl Jones: Americano do sul de Chicago, Jones começou bem cedo na música como baterista, mas ainda na escola primária passou para o baixo. Com 17 anos já tocava com músicos renomados como o cantor Otis Clay e o jazzista Phil Upchurch. Com 21 anos conseguiu vaga na banda do lendário Miles Davis, tocando ao lado de músicos experientes como John Scofield e Al Foster. Também integrou o grupo Step Ahead ao lado do saxofonista Michael Brecker e a primeira formação da mítica banda solo do cantor Sting, lançando um dos discos mais cultuados dos anos 80. Tocou ainda com Peter Gabriel, Gil Evans e uma infinidade de músicos consagrados. Com a saída de Bill Wyman, Jones integra os Rolling Stones desde 1993 como músico de apoio nas turnês. Ele conta como foi as audições para entrar no grupo: “Todos tentavam impressionar Mick e Keith, mas eu pensei em escutar o que Charlie Watts estava tocando. Se eu seguisse por esse caminho, o resto funcionaria.”. pelo visto, sua tática deu certo. Dono de um groove monstruoso, Darryl adicionou várias linhas funky no seu estilo, principalmente com a inclusão de Slap, que o músico desenvolve de uma maneira bem pessoal, caracterizada por uma linha sincopada e um certo brilho no grave. Mas Jones mostrou que pode ser bem rock n roll, prova disso é que mantém inalterada sua posição como músico de apoio dos Stones por mais de 25 anos! Esse tempo longevo como membro adicional de apoio é também o grande responsável pela falta de reconhecimento de seu trabalho. Se continuasse se enveredando pelo fusion, o baixista teria tanta importância quanto Stanley Clarke.

Klaus Peter Matziol: Esse alemão é conhecido por integrar o Eloy, mítico grupo de rock progressivo dos anos 70. Klaus começou ainda adolescente na guitarra, trocando pelo contrabaixo quando integrou o Boorturm, seu primeiro grupo profissional. O músico entrou para ao Eloy em 1976 e gravou todos os clássicos da banda. De estilo forte e imponente, o músico empunha seu baixo Alembic carregado de graves, construindo uma base poderosa e conseguindo se sobressair em meio os teclados e guitarras característicos do estilo. Sua técnica é similar ao de Chris Squire (Yes), mas com um toque todo pessoal. Talvez por ter se limitado apenas a gravar com seu grupo, o baixista não é reconhecido e lembrado fora do meio progressivo. Ouça: Eloy – Ocean

Richard Sinclair: Inglês, nascido em Cantebury, Richard fez parte de dois dos maiores nomes do rock progressivo mundial: Camel e Caravan! Sinclair veio de uma família de músicos e começou a tocar bem cedo, facilitando sua percepção harmônica. O baixista fundou o Caravan, banda que dividia os vocais com o guitarrista Pye Hastings e permaneceu até 1972, quando fundou outro grupo: O “Hatifield e The North”, combo de jazz rock onde o músico poderia expandir suas influências. Após o fim da banda, Sinclair foi convidado a integrar o Camel em 1977, gravando dois álbuns de estúdio e um ao vivo. Seu estilo é mais fluido, dinâmico, utilizando a totalidade do braço do instrumento com agilidade e desenvoltura. O baixista utiliza a melodia do rock progressivo com a complexidade do fusion, criando um estilo bem pessoal. Algumas fontes citam que Sinclair utiliza o braço de um Fender JazzBass no corpo de um baixo construído por seu pai. Apesar de todo o seu talento, o músico não conseguiu uma carreira regular. Nos anos 80 fez apenas trabalhos esporádicos. Nas décadas seguintes retornou algumas vezes ao Caravan, chegando a ter sua própria versão do grupo denominada “Richard Sinclair´s Caravan os Dreams”. Lançou também um disco solo em 1994 com alguns poucos shows pela Europa. Atualmente Richard se encontra recluso, morando na Itália e tocando em bandas locais de jazz e fusion. Ouça: Caravan – Waterloo Lily

Rudy Sarzo: Esse cubano esteve envolvido nas maiores bandas de heavy metal dos anos 80. Ele chegou nos EUA em 1961 e começou a tocar baixo, uma vez que seu irmão Robert havia se interessado pela guitarra. Em 1978 fez um teste para integrar o Quiet Riot, banda que conseguiu reconhecimento ao lançar o mega platinado Metal Health no ano de 1983. A fama conseguida com seu grupo, aliada a sua postura de palco e seu jeito preciso de tocar lhe renderam convites para vários projetos, como a banda de Ozzy Osbourne e no fim daquela década o Whitesnake, em uma das mais festejadas formações que incluía Tommy Aldridge, Adrian Vandenberg e até o virtuoso Steve Vai. O estilo de Rudy é algo entre o melódico e o agressivo, com algumas inserções de groove. Na verdade, ele é um verdadeiro camaleão do baixo, abordando o instrumento sobre diferentes perspectivas, dependendo da banda que integra. Sua técnica versátil se adapta facilmente a qualquer tipo de sonoridade, do Heavy metal tradicional com o Quiet Riot ao rock básico do The guess Who, banda que integra desde 2018, passando ainda pelo hard e pop rock. Apesar de anos trabalhando com uma infinidade de artistas consagrados e ter sido até indicado para o Hall of Heavy Metal History, o músico raramente é mencionado em listas de melhores baixistas.

Sean Malone: Esse baixista americano começou sua carreira como músico de estúdio, acompanhando bandas que vão do jazz ao hevy metal, passando pela bossa nova e britpop. Mas Sean ganhou certa notoriedade ao integrar o Grupo Cynic, um dos pioneiros da fusão entre o progressivo e a musica extrema, sempre tocada de modo extremamente técnico e intrincado. O baixista entrou no grupo quase que por acidente. Ele trabalhava como engenheiro de som no estúdio que o Cynic gravaria seu primeiro trabalho, o mítico “Focus”. Na véspera da gravação o baixista original deixou a banda e pediram a Malone que registrasse as linhas de baixo. Como se encaixou perfeitamente na proposta musical acabou sendo efetivado no grupo. Porém, as aventuras musicais de Malone vão muito além do Cynic. Após o fim precoce da banda, Sean continuou trabalhando como músico de estúdio e lançando discos e projetos ligados ao fusion e a música instrumental complexa, como seu primeiro disco solo “Cortlandt” de 1996, seu projeto denominado “Gordian Knot”, um supergrupo instrumental que incluía nomes como Steve Hackett (Genesis), Bill Bruford (Yes, king Crimson), John Myung (Dream Theater), e ainda a primeira formação do O.S.I. grupo encabeçado por Kevin Moore (ex-Dream Theater) e Jim Matheos (Fates Warning) que contava com a participação de Mike Portnoy e muitos outros. Criativo e versátil, Sean era hábil no baixo fretless e também no Chapman Stick (Foto). Tocava com desenvoltura todos os estilos de maneira técnica e rebuscada. O músico também fazia parte do meio acadêmico, tendo lecionado em varias universidades americanas. Foi um dos estudiosos do estilo criado pelo mítico Jaco Pastorius, tendo transcrito publicando o livro institucional “Portrait of Jaco” em 2002, alem de vários outros. O músico faleceu em novembro de 2020 de causas não reveladas. Mesmo tendo sido um grande baixista e atuado em várias vertentes da música, seu nome ainda é pouco lembrado e reconhecido. Ouça: Gordian Knot - Gordian Knot, 1999

Scott Thunes: Um dos grandes baixistas que passaram pela banda de Frank Zappa, Thunes começou no instrumento aos 10 anos, quando sua família decidiu que precisavam de um baixista. Aos 15 anos estudava jazz e improvisação no colégio. Scott integrou a banda de Frank por dez anos. Sua formação musical e seu senso único de melodia o fez ser o segundo no comando, ou seja: Durante os incessantes ensaios do grupo, na ausência de Zappa, quem comandava o combo era ele. Sua formação ampla lhe permitia trabalhar nos diversos projetos imaginados por Zappa com igual desenvoltura. “Com Frank, meu trabalho era servi-lo. Frank tinha necessidades diferentes em momentos diferentes...” disse Thunes em certa ocasião. Embora possuísse uma técnica soberba, Scott não se considera um baixista, mas um artista, um arquiteto da música, que utiliza o baixo para se expressar, chegando mesmo a dar declarações polêmicas desdenhando do instrumento em revistas especializadas. Além de Frank Zappa, o músico chegou a trabalhar com seu filho, Dweezil Zappa, com Steve Vai e com Mike Kennealy (Guitarrista que substituiu Vai na banda de Zappa) e ainda o grupo The Waterboys. Porém, sua personalidade extremamente difícil, o fez se meter em conflitos e afastar completamente do meio musical, chegando a trabalhar como porteiro no Paradise Lounge em São Francisco no inicio de 2010. Sua formação musical, inquietude e perfeccionismo, o deixou na posição de herdeiro direto da musica de Zappa, uma pena que seu gênio irascível e sua personalidade forte tenha lhe colocado no limbo da indústria musical. Apesar disso, Scott foi confirmado para integrar a The Zappa Band, formada por músicos que fizeram parte da banda de Frank. Estava previsto que saíssem em turnê como King Crimson em 2020, mas a pandemia mundial parece ter adiado o projeto. Ouça: Frank Zappa – Make a Jazz Noise Here

Wilbur Bascomb: Esse baixista americano é filho de músico de jazz e desde cedo se interessou pela música. Seu estilo é fortemente influenciado pela Motown, notadamente pelo soul e funk, com muitos grooves e improvisos. Seu talento e estilo lhe rendeu uma vaga na banda de James Brown ainda no inicio dos anos 70. Mas foi no meio daquela década que a técnica de Wilbur se sobressaiu ao ser convidado por Jeff Beck para gravar o álbum “Wired”. O estilo de Bascomb era completamente diferente do que se esperaria de um baixista de fusion, ainda mais tocando ao lado de um guitarrista de rock. O groove e o balanço imprimidos pelo baixista foram essenciais para a consolidação da sonoridade do disco e consequentemente seu sucesso no meio. Apesar de não ter gravado nenhum outro trabalho com Beck, o músico seguiu trabalhando com nomes como Hank Crowford, Herbie Mann, Joey DeFrancesco e até o ex Stone Mick Taylor. Porém, embora tenha trabalhado com grandes nomes da música, nenhum álbum gravado o colocou em evidência novamente. Uma pena, pois seu estilo pungente e diferenciado o colocaria lado a lado com qualquer nome consagrado do instrumento. Ouça: Jeff Beck – Wired

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