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Os 20 discos que mais apreciei em 2020 (my best) - Parte 2

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Por: Expedito Santana

31/12/2020

- Fish – “Weltschmerz”

Tenho por Fish uma admiração inabalável e o considero um dos maiores e mais versáteis artistas da atualidade. Guardo a sua passagem pelo Marillion como uma espécie de caixa de recordações ou mesmo um baú mágico que abro sempre que aflora minha saudade da fase progressiva da sua ex-banda, levando-me a lembrar o quão agradável é poder ouvir as belas interpretações e canções inesquecíveis, sem falar em suas letras confessionais e de conteúdo existencialista com as quais tanto me identifico. O triste, na verdade, em se tratando de falar especificamente desse lançamento do Lenhador, é que ao que tudo indica parecer ser a sua despedida (torço muito para que não). “Weltschmerz”, cuja tradução do alemão para o português significa algo como “um sentimento de melancolia e cansaço do mundo” (infelizmente é o que sinto muitas vezes), é o décimo quinto disco da carreira solo de Fish, que havia lançado seu último disco em 2013, “A Feast Of Consequences”. Olhado mais de perto, logicamente, e após algumas audições (aliás, esta obra requer mais atenção e tempo sob pena de avaliações apressadas e talvez injustas), é possível perceber que “Weltschmerz” não se trata apenas de um disco, e sim de uma jornada, quiçá uma experiência imersiva com inúmeras perspectivas e da qual não se sai a mesma pessoa de antes. São quase 1 hora e meia de música, tendo o CD formato duplo. Não farei uma análise faixa a faixa, reservando-me apenas a tarefa de pinçar destaques, embora o disco todo seja muito bom. Cabe a “Grace of God” abrir o álbum e o faz de maneira impecável, uma faixa relativamente longa, por volta de 8 minutos, mas que não desaponta em nenhum momento, percorrendo sempre caminhos sedutores e minimalistas, porém nada maçantes. “Main With a Stick” de alguma forma remete a REM com seu trabalho percussivo e guitarras dissonantes, enquanto “Walking On Eggshells” apresenta uma feição acústica deleitosa e uma interpretação vocal irreprochável de Fish. “Rose Of Damascus” é um épico de quase 16 minutos, suas mudanças de andamento e de climas bem como sua textura melódica sorrateira proporcionam aquilo que todo fã de música progressiva espera. Em "Garden Of Remembrance" o piano triste e a voz emocional de Fish levam o disco para uma estação de extrema beleza e sensibilidade (confesso que as lágrimas escorrem involuntariamente). A faixa-título encerra com um clima um pouco mais otimista, embora um mix de sensações contraditórias ainda paire no ar. Enfim, mais uma obra de fôlego, audaciosa e complexa, mas ao mesmo tempo palatável, protagonizada por esse competente artista chamado Fish que, se de fato estiver dando adeus, deixa aqui, sem dúvida, um dos seus melhores trabalhos na carreira. - Pearl Jam – “Gigaton”
Pensei muito sobre incluir ou não este último do Pearl Jam nesta lista. Ao final, conquanto tratar-se de um disco bem modesto em comparação a outros da banda, resolvi incluí-lo menos por falta de opções e mais porque o lado “fã imbecilóide” acabou falando mais alto. De fato, Gigaton está longe de ser um clássico do Pearl Jam, ainda que não desaponte se avaliado de maneira integral, inclusive, contém ótimas experiências sonoras. Este é o décimo primeiro álbum de estúdio da banda depois de um hiato de aproximadamente sete anos do lançamento de seu antecessor, o mediano Lightning Bolt de 2013 (Sirens é a melhor e não se fala mais nisso). “Who Ever Said” faz uma boa abertura, ameaçando explodir, mas mantendo as coisas sob controle. “Dance of The Clairvoyants” é algo um pouco diferente e dançante, mas revela uma faceta interessante do grupo além de ter um trabalho excelente de baixo de Jeff Ament. “Quick Escape” apresenta uma ótima bateria e um vocal eficiente de Vedder, sem falar nos riffs cativantes e o solo magnífico de McCready. Em “Alright” a inconfundível voz de Vedder faz toda diferença. “Never Destination” traz um rock agitado e sacode um pouco as coisas. “Comes Then Goes” lembra o Pearl Jam de outrora e insere excelentes batidas acústicas de cordas e uma voz afiadíssima de Vedder. Confesso que esperava mais (as expectativas para uma banda da estatura do Pearl Jam sempre serão altas), porém, no frigir dos ovos, até que dá para curtir e matar um pouco a saudade dos velhos tempos do grupo. “I, I'm still alive!!!” - Tame Impala – “The Slow Rush”
Lançado em fevereiro pelo selo Modular/Interscope, “The Slow Rush” é o quarto disco dos australianos do Tame Impala, projeto do músico multinstrumentista Kevin Parker. O grupo lançou seu primeiro álbum em 2010, “Innerspeaker”, calcado fundamentalmente em guitarras psicodélicas dos anos 60, o qual teve ótima recepção tanto do público quanto da crítica especializada. Em “Lonerism”, de 2012, já aparece uma face mais expansiva da banda, com a introdução de elementos eletrônicos e uso de sintetizadores. O último trabalho, antes de “The Slow Rush’, foi “Currents” de 2015, inclusive este ainda é o meu preferido (“Let It Happen” me põe na pista de dança de corpo e alma), no qual o grupo introduziu de maneira bastante enfática texturas dançantes, além de influências de R&B e até hip-hop, e quando os sintetizadores, basicamente, substituíram as guitarras. Agora, em 2020, eis que o Tame Impala apresenta ao mundo “The Slow Rush”, trazendo composições imaginativas, discursos confessionais bem como temáticas mais introspectivas. Esse é um trabalho bastante pessoal e autobiográfico de Kevin Parker, que assume todas as frentes instrumentais (vocal, guitarra, piano, bateria e o que mais aparecer). As letras refletem sobre lembranças, rotina, desilusões afetivas, arrependimento, perdão, relacionamentos e, inclusive, a morte. O fio condutor que perpassa por todas as dimensões tratadas é o tempo e como o percebemos (mais adequado para esse período de pandemia mundial impossível). A própria tradução literal do título do álbum evidencia tal abordagem: “a pressa devagar”. Musicalmente, “The Slow Rush” bebe em fontes da década de 70, com Parker baseando sua sonoridade em pitadas generosas de neo-psicodelia pop, disco music e até o synthpop, sem o prejuízo de melodias, riffs marcantes e o uso pontual de guitarras e violões que servem como âncoras para seus paradigmais musicais nada ortodoxos, incluindo ainda nesse caldo sonoro harmonias robóticas por meio do uso de vocoders (como a utilizada na faixa de abertura “One More Year”), passagens de piano borbulhantes, densas camadas de sintetizadores, multi-timbrados, samples, baixos cíclicos, grooves e ritmos dançantes, atmosféricos, lisérgicos e ecos espaciais. Além da faixa de abertura, destaque ainda para a agradável “Lost in Yesterday”, “Posthumos Forgiveness” com sua programação eletrônica e nuances melódicas paralisantes, a propósito, a letra trata da morte do pai de Parker e sua relação com ele. “Breathe Deeper” tem batida levemente acelerada e conquista com facilidade o ouvinte. “Lost In Yesterday” destaca-se pelos sintetizadores espaciais e clima psicodélico. “One More Hour”, faixa mais longa, fecha o disco compendiando toda as paisagens sonoras vistas até então: camadas de sintetizadores, psicodelia, riffs pesados, baixo pulsante, verve pop etc. Diante dessa abstrusa jornada musical capitaneada por Parker, “The Slow Rush” mostra que a música pop pode ser mais do que mera peça de entretenimento, mas também uma fonte de reflexão e contemplação da vida e do mundo, cuja transcendência pode ser desnudada pelos mais atentos. - Seether – “Si Vis Pacem Para Bellum”
Este é o décimo álbum de estúdio desta banda originada na África do Sul, cujo som é rotulado de post-grunge (muitas vezes essas designações não servem para nada!!), que sucede “Poison the Parish”, lançado em 2017. Curiosamente, o título do álbum foi grafado em latim e é um antigo provérbio romano muito popular que significa: “Se você quer paz prepare-se para a guerra” (verdade paradoxal !!). O disco tem 13 canções com duração total de cerca de 50 minutos. “Dead and Done” dá início aos trabalhos com pura agressividade e vocais insanos que lembram muito os do falecido Chester Benington do Linkin Park, conta ainda com baixo pulsante e parede sonora de guitarras ensurdecedoras. “Wasteland” tem vocais excelentes, trabalho preciso de bateria e ótimas seções de guitarras. “Dangerous” é mais um momento percussivo de excelência e guitarras com licks atmosféricos eventuais e riffs que parecem dispersar descargas elétricas. “Buried In The Sand” mostra-se mais viajante e pode ser considerada a típica música de DNA Seether, instrumental pesado e vocal imprimindo uma certa dose de melodia. Acredite: não há deslizes neste álbum. Já que não temos mais Nirvana e nem Soundgarden, vamos de Seether!! - Ego Kill Talent – The Dance Between
Se você não conhece o Ego Kill Talent, provavelmente nem desconfiará que se trata de uma banda brasileira formada em 2017, uma vez que o som desses brazucas é gringo até a medula, sem quaisquer reminiscências (ao menos perceptíveis) na música brasileira. O fato é que os caras fazem um competente rock pesado e que chega até a flertar com o metal em alguns momentos. Esse é somente o segundo “long play” da banda e pra mim já pode ser considerado o melhor trabalho. O disco tem 7 faixas e uma duração de apenas 30 minutos. Abre com “NOW” (grafado assim mesmo com todas as letras maiúsculas), um rock empolgante no melhor estilo Foo Fighters, aliás, é possível ver muitas similitudes entre a banda e o som do grupo formado pelo ex-baterista do Nirvana. “The Call” é outro petardo com riffs possantes e que empolga desde a primeira nota. “Deliverance” é uma ótima faixa que tem um ritmo mais cadenciado e riffs pegajosos que fatalmente farão o ouvinte repetir aquele popular gesto roqueiro de “tocar a guitarra imaginária”. ‘In Your Dreams Tonight” mescla muito bem passagens mais lentas com seções pesadas. Enfim, rock muito bem feito por uma banda jovem e que, embora tenha muito caminho pela frente, com certeza vai ocupar o seu lugar ao sol. Embora a cada ano escute menos metal extremo e pesado (afinal de contas os ouvidos vão ficando mais cansados - rsrsrs....), a porradaria ainda fez parte da minha vida em 2020. Essas aqui foram as bandas do gênero que mais fizeram a cabeça deste que vos escreve: - Body Count – “Carnivore”
Sempre gostei da combinação de hip-hop e rap com metal (daí a minha fissura por Faith No More, Rage Against the Machine, Linkin Park etc.) Lembro bem o impacto quando o Anthrax decidiu usar tal mistura na década de 90 em parceria com o Public Enemy gerando a canção “Bring the Noise”. Houve quem gostasse (como eu) mas houve também quem torcesse o nariz (notadamente os fãs mais radicais). Body Count é um projeto do rapper Ice-T, que já estava há cerca de 3 anos sem apresentar uma novidade desde “Bloodlust” (2017). “Carnivore” saiu pela Century Media Records, com edição em CD nacional pela Hellion Records, é uma pedrada cheia de revolta e agressividade, um verdadeiro soco no estômago, repleto de riffs matadores e vocais assustadores e violentos. Destaque para a participação de luxo de Amy Lee do Evanescence na faixa “When I'm Gone” e do vocalista Riley Galey, da aclamada banda de trash Power Trip, que infelizmente faleceu este ano, em “Point The Finger”; sem falar na nervosa faixa-título com seus vocais em coros tenebrosos; o single “Bum-Rush” de ritmo acelerado e lembrando Suicidal Tendencies; e uma versão sensacional de “Ace of Spades”, do Motorhead do saudoso Lemmy. Tirem as crianças da sala, pois aqui é brutalidade na veia, há de tudo um pouco: trash, metal, crossover, vocais rappers etc. Enfim, adrenalina pura!! - Sepultura – “Quadra”
Considero “Arise” uma obra prima do thrash, um verdadeiro manual do estilo. Apesar de não me considerar viúva do Max, sempre torci para que fizesse as pazes com Andreas e com isso ressurgisse das cinzas a formação clássica da banda (sei que isto é praticamente impossível a essa altura dos fatos!). Mas falando de “Quadra”, ele é o décimo quinto disco de estúdio dos mineiros, lançado pela Nuclear Blast em formato CD e LP, além de estar disponível nas plataformas de streaming. Aqui, Andreas Kisser mais uma vez dispensa apresentações, um grande guitarrista de metal dotado de uma inventividade para riffs que parece interminável e Paulo Xisto, por sua vez, segura bem as pontas com linhas mais inventivas de baixo. Todavia, os grandes destaques deste álbum são o batera Eloy Casagrande (se havia alguma pontinha de saudade do Igor Cavallera garanto que foi completamente varrida) bem como o vocalista Derrick Green, para o qual sempre olhei desconfiado, talvez mais pelo meu apego ao passado que pela capacidade desse. Pois bem, aqui Derrick está cantando como nunca, empostando timbres cristalinos e poderosos, mas sem exageros guturais. Álbum excelente, arrisco a dizer que será reconhecido doravante como uma obra-prima do gênero e que revela a maturidade alcançada pela banda. “Quadra” apresenta um Sepultura agressivo e vigoroso, mas ao mesmo tempo polido e orgânico. Destaque para a faixa de abertura, “Isolation”, um pé-na-porta que consegue ser rápida, cristalina e técnica; a raivosa “Last Time”, que exibe solos sensacionais de Andreas e; “Guardians Of Earth” com sua introdução acústica, coros sacros, riffs pesados e solo criativo de Kisser. Experimental e até melódico em alguns momentos, “Quadra” é a pedra fundamental na obra desta que pra mim é maior banda de trash brasileira de todos os tempos. “I am the one, Orgasmatron, the outstretched grasping hand.” - Testament – “Titans of Creation”
Não sei bem o motivo, mas os americanos sempre foram considerados uma força de segunda prateleira do trash, relegados normalmente ao vácuo dos maiores expoentes do gênero (Slayer, Megadeth, etc.) No entanto, ainda assim, nunca deixei de admirar o som desses caras e tê-los em alta conta. Em “Titans of Creation”, décimo terceiro trabalho da banda, aparecem fortes reminiscências do álbum antecessor, "Brotherhood of the Snake" (2016), com o trash metal de outrora revisitado em grandes riffs, ótimos solos de guitarra e seções extremamente empolgantes e técnicas de bateria e baixo. A voz de Chuck Billy ainda carrega seu timbre característico e mantém-se bastante precisa nas notas. Destaque para “Children of the Next Level”, “False Prophet” e “The Healers”. Trashão arrasa-quarteirão (desculpa pela rima infantil!!) - Benediction – “Scriptures”.
O Benediction é uma das bandas de death que mais escutei na juventude, notadamente na década de 90 (considero “Subsconcious Terror” um clássico). Há mais de 12 anos sem lançar nada desde “Killing Music” de 2008, a banda resolve então, felizmente, apresentar o seu “Scriptures” nesse ano tão conturbado. E não havia surpresa melhor ao ouvir os primeiros acordes deste álbum, pois nele o velho e bom Benediction está de volta com um som potente, técnico e agressivo, não tão rápido, é verdade, mas também sem exageros (virtude que mais aprecio na banda!). O que não pode ficar sem registro e que talvez explique em parte o êxito desse lançamento é a volta do vocalista Dave Ingran, que estava fora da banda há longos 22 anos. Com esse cara integrando novamente a formação o ganho musical é facilmente perceptível. “Iterations Of I” dá o pontapé inicial e trata logo de mostrar que os caras estão ainda em grande forma; os riffs pesados e igualmente pegajosos de “Progenitors Of A New Paradigm” fazem desta música uma outra ótima atração; “Tear Off These Wings’ é um petardo que faz o pescoço se mexer sem nos darmos conta; a última faixa, “We are Legion”, é o fechamento com chave de ouro no qual a banda ostenta um som musculoso, com guturais perturbadores e que até flerta com o doom no início. Seja bem-vindo novamente à cena, Benediction!! - Pallbearer – “Forgotten Days”
Essa banda de doom metal é uma grata surpresa para mim em 2020. Não conhecia o som dos caras até ser fisgado pelos famigerados algoritmos. Este é somente o quarto álbum de estúdio dessa banda americana de Arkansas. Eles saíram de um hiato de cerca três anos desde o último disco, Heartless (2017). Os estadunidenses do Pallbearer conseguem fazer um som pesado, melódico, técnico, sombrio e, pasmem, também com passagens otimistas, principalmente neste último trabalho. Destaque para a faixa-título, com seus riffs inspirados notoriamente em Candlemass, de textura dark e cuja densidade impõe respeito; a romântica “Riverbed”, que destila um metal moderno e que até flerta com o pop; e a mais longa do disco (por volta de 12 minutos), “Silver Wings”, calcada em riffs meio intrincados e confusos no início, mas que ganha corpo e se transforma no que considero ser a melhor faixa, com direito a passagens que lembram o grande Paradise Lost e climas soturnos absurdamente contemplativos como toda tradição doom geralmente exige. Também pode haver luz na escuridão!!

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