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Os 10 melhores discos lançados em 2020

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Por: Márcio Chagas

26/12/2020

Final do ano, quem gosta de música sempre faz sua lista de melhores discos. Claro que este tipo de lista é bem pessoal e subjetivo. Quando resolvi fazer a minha lista, resolvi me impor algumas restrições: Eu deixei de fora os discos que já havia resenhado aqui para o 80 Minutos, pois não vi sentido em comentar álbuns que já analisei. 

Além do mais, utilizando este critério sobraria mais espaço para a árdua tarefa de selecionar apenas 10 discos, uma vez que sempre esquecemos de algum lançamento importante e provavelmente vou me punir no futuro por algum esquecimento. 

Como tenho um gosto eclético, o ideal seria que eu fizesse uma lista para cada estilo, mas é algo que me tomaria muito tempo. Então resolvi fazer uma lista genérica com todos os estilos que eu gosto, do rock ao jazz, passando pelo progressivo blues e MPB. Obviamente ficaram de fora muitos discos clássicos que mereciam estar na lista, mas restringi em apenas 10 álbuns, para não perder o foco. De todo modo, cito ao final da matéria, os discos de 2020 que analisei e que merecem estar em qualquer lista dos melhores. 

Boa leitura.

1 - AC/DC – Power Up.

Muitos ficaram ansiosos com o novo álbum trazendo a formação clássica do AC/DC. Ou pelo menos, quase clássica, pois o líder Malcom Young faz uma imensa falta. Claro que ninguém esperava um disco ruim, mas é inegável que o grupo já havia lançando trabalhos medianos nos 80 e 90. Porém a banda surpreendeu a todos lançando um álbum clássico, inclusive muito superior aos dois últimos trabalhos de estúdio. Faixas como "Rejection", "Demon Fire" e "Shot in the Dark", mostram que o AC/DC continua no auge, tanto nas composições das canções como na sua performance eletrizante. “Power Up” encerra com chave de ouro uma das carreiras mais vitoriosas do rock. 2 - Anjo Gabriel – Anjo Gabriel.
Uma das melhores e mais subestimadas bandas do país, o Anjo Gabriel é natural de Pernambuco e lançou seu terceiro trabalho. A sonoridade é uma mistura de rock progressivo, psicodélico e krautrock, com longas suítes e improvisos. O grupo utiliza instrumentos vintage e gravam em equipamento analógico tentando manter a aura e tradição dos anos 70. O som é eminentemente instrumental, com espaço para longos solos e improvisos. Mesmo atuando no underground, o grupo lança uma dos melhores discos do ano. Vale a pena conhecer esta pérola da música brasileira. 3 - Caetano Veloso & Ivan Sacerdote – Caetano Veloso / Ivan Sacerdote.
Ao que parece, Caetano perto de seus 80 anos vem tentando se reinventar, trazendo novos elementos a sua música. Neste trabalho o cantor optou por uma sonoridade minimalista ao lado do clarinetista Ivan Sacerdote, que trouxe para o álbum uma melodia sofisticada, com ares jazzísticos e influência do choro clássico. Outra sacada genial foi ter fugido do óbvio, pois, ao invés de revisitar temas manjados, Veloso optou por resgatar canções belas e pouco lembradas de sua própria obra como “Aquele Frevo Axé”, “Manhatã” e “Você não gosta de mim”. Para escutar tomando aquele vinho bem acompanhando no fim de tarde. 4 - Charles Lloyd – 8: Kindred Spirits (Live from the Lobero).
O saxofonista americano Charles Lloyd pode ser considerado um dos músicos mais subestimados de toda sua geração. Embora não tenha o status de lenda como Sonny Rollins e Jim Hall (apenas para citar dois nomes), o músico, do alto de seus 82 anos de vida continua lançando obras seminais e mantendo acesa a chama do bom jazz. A frente de seu quinteto, Lloyd utiliza seu instrumento como fio condutor dos demais, como se narrasse uma história em cada canção. Embora os temas possuam certo despojamento como numa Jam session, cada nota ali é pensada, com análise sobre o que tocar e o que não tocar. Um bom exemplo é a faixa “Dream Weaver”, cheia de nuances técnicas, com destaque para o pianista Gerald Clayton e o guitarrista Julian Lage. O professor Lloyd deu aula mais uma vez de como se criar um excelente disco de jazz. 5 - Joe Bonamassa – Royal Tea.
O guitarrista, que sempre está envolvido em inúmeros projetos, também mantém uma prolífica carreira solo, sempre lançando álbuns diferente e temáticos. Nesse seu ultimo trabalho, Joe se inspirou em seus ídolos britânicos, como John Mayall, Jeff Beck, Eric Clapton e Jimmy Page, para compor e gravar canções com influências diretas da terra da rainha. Além de sua banda de apoio regular, o álbum conta com participações oportunas de do guitarrista Bernie Marsden, que integrou a primeira fase do Whitesnake, Pete Brown, que foi letrista do Cream e do pianista Jools Holland. Bonamassa atingiu seu intento ao apresentar um álbum de blues rock britânico gravado totalmente no mítico Abbey Road Studios, com toda atmosfera inglesa como inspiração. A faixa “Why Does It Take So Long to Say Goodbye” é arrastada e poderia estar em qualquer disco do Peter Green ou Gary Moore, “I Didn’t Think She Would Do It” é um hard com uma pegada meio Johnny winter, meio Whisbone Ash e a faixa título possui aquele groove despojado de Jam session com o apoio de vocais femininos. Dizer que Joe Bonamassa gravou mais um disco clássico é quase um pleonasmo, dada a qualidade de seus trabalhos. Temos aqui mais um clássico! 6 - Ozzy Osbourne – Ordinary Man.
Ozzy foi um dos meus heróis da adolescência e um dos responsáveis por eu me interessar pelo rock pesado. Mas confesso que já andava descrente de sua carreira solo. Nas últimas décadas os trabalhos do Madman não passaram de medianos e alguns realmente foram fracos se levarmos em conta sua importância para o rock pesado. Então imagine minha surpresa e satisfação em ouvir “Ordinary Man”, um disco pesado, que faz jus ao nome de Ozzy. Na verdade o espanto foi em todos os sentidos. A banda que gravou o disco é completamente diferente da que acompanha Ozzy nos palcos pelos últimos anos. No lugar do guitarrista Zakk Wilde está Andrew Watt, renomado produtor e relativamente conhecido por integrar o California Breed ao lado de Glenn Hughes e Jason Bonham. Para a cozinha vieram Chad Smith (Red Hot Chillipeppers) e Duff McKagan (ele mesmo, do Guns N´ Roses). Segundo Ozzy, o trio trabalhava nas canções durante o dia e ele aparecia a noite para finalizar as músicas. O cantor disse que o trabalho foi feito com o intuito entretê-lo durante sua recuperação devido a problemas de saúde. A meu ver, este foi o grande diferencial do disco, que soa despojado e informal. Ainda assim, Watt, segurou bem as rédeas da produção, mantendo a qualidade do trabalho. “Straight to Hell” abre os trabalhos com a famosa frase do Madman “All right now”! cantando em cima de paredes de guitarras e com a participação de Slash no solo. A faixa título tem a impensável participação de Elton John e além da atmosfera beatleliana, há ecos dos primeiros trabalhos do pianista. “Goodbye” resgata as influências de Black Sabbath, soando arrastada. “Ordinary Man” é uma grata surpresa, mas não pense muito nisso, como disse o próprio Ozzy: “Apenas dê a porra do play e vá em frente”. 7 - Paul McCartney – McCartney III.
Os discos que levaram lançados por Paul que levaram seu sobrenome são marcados pela espontaneidade. Além de tocar todos os instrumentos, o eterno Beatle deixa sua inspiração fluir sem se preocupar com o rumo musical da canção ou se ela se encaixa no contexto do álbum. O que ninguém esperava era que após 40 anos o músico lançasse o terceiro trabalho completando a trilogia. São 11 faixas que vão do acústico ao pop, passando por baladas e rocks como em “Find my Way” e “Lavatory Lil”, que mostram que Sir Paul McCartney do alto de seus 78 anos continua um compositor prolífico e genial. 8 - Pat Metheny – From This Place.
Pat Metheny já transitou por todos os estilos de jazz, do acústico ao elétrico, passando pelo folk jazz e até mesmo pelo free jazz com seus improvisos dissonantes e por vezes exagerado. Tendo ganhado sete prêmios Grammy consecutivos e com quase 50 anos de carreira não há muito que se esperar do músico certo? Errado! Sem lançar um álbum de estúdio desde o ano de 2014 (uma eternidade para Pat), o guitarrista reformulou sua banda e lançou um de seus melhores discos nas últimas décadas. O pianista galês Gwilym Simcock e a baixista malaia Linda May Han Oh, se unem ao baterista Antonio Sanchez para apresentarem composições impecáveis, produção meticulosa e temas extraordinários, que fazem deste álbum uma verdadeira obra-prima. Com toda certeza será considerado um clássico em um futuro próximo. 9 - Trivium – What The Dead Men Say.
O Trivium é uma banda diferente no cenário do heavy metal. Com uma variedade enorme de influências, o quarteto transita pelo Thrash metal, metalcore, progressivo e heavy tradicional com igual desenvoltura e sempre mantendo a qualidade técnica de suas canções. Este trabalho curiosamente não traz inovações em relação ao disco anterior, ao contrário, apresente uma continuidade do que fora apresentado em “The Sin and the Sentence” lançado em 2017, e que trouxe a banda de volta as raízes, ou seja: Utilização de riffs épicos, melodias complexas e o som totalmente orientado pelas paredes de guitarras, cortesia da dupla Heafy / Beaulieur, riffmakers natos. Escute ‘Catastrophist’ e a arrasa quarteirão “Bending The Arc To Fear”, e verá o porquê do grupo ser considerado um dos grandes nomes do heavy metal do novo milênio. 10 - Wobbler – Dwellers of the Deep.
Desde a sua estreia em 2005, os noruegueses do Wobbler vêm evoluindo a cada álbum lançado e se firmando como um dos maiores nomes do progressivo sinfônico mundial. Os músicos, tal como os brasileiros do citado Anjo Gabriel, utilizam instrumentos característicos dos anos 70, sofrendo influência direta de medalhões como Yes, Van Der Graff Generator, Gentle Giant, King Crimson, Genesis e outros. Além dos instrumentos tradicionais, guitarra, baixo bateria e teclados, ainda são usados flautas, cravo, sax e violão, além do pungente órgão hammond, comandado pelo líder Lars Fredrik Frøislie, que integra também o White Willow, outra banda maravilhosa. A sonoridade é o progressivo sinfônico comandado por camas de teclados e bases de Hammond, com boas intervenções de guitarras. É até difícil destacar uma faixa, mas a suíte “Merry Macabre” que encerra o disco com seus 19 minutos é um bom exemplo do que pode ser encontrado no álbum. Com o lançamento deste clássico, o Wobbler se firma como o maior representante do rock progressivo sinfônico da atualidade. Bonus: Neil Young – Homegrown.
Não achei certo que este disco entrasse na relação, afinal foi gravado há quase cinco décadas atrás, sendo um álbum perdido do velho lobo canadense. Ele deveria ter sido lançado no ano de 1975, mas o músico o engavetou. Provavelmente por contar músicas muito pessoais, relatando seu relacionamento tumultuado com a atriz Carrie Snodgress, que culminou em sua separação. Em seu lugar foi lançado “Tonight´s the Night”, hoje considerado clássico. Mas “Homegrown” não fica atrás, é um disco country rock denso e arrastado, um verdadeiro tratado sentimental, onde Young expõe seus sentimentos de maneira aberta e declarada em faixas como “Separate Ways”, “Mexico”, com seu piano minimalista e "We Do Not Smoke It No More". As canções envelheceram como o vinho e se tornaram ainda melhores. É um álbum perdido que merece ser descoberto pelos fãs do cantor. Álbuns resenhados aqui para o 80 Minutos que merecem figurar na lista: Deep Purple – Whoosh! Fish – Weltschmerz. Rick Wakeman – The Red Planet Sons of Apollo – MMXX.

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