Para os que respiram música assim como nós


Por: José Esteves

04/12/2020

Mais um ano, mais um Grammy para dar uma olhada. É claro que eu não teria coragem de analisar os pops, jazz, clássico ou o principal prêmio da noite, o de melhor álbum (talvez eu ouça-o depois que um álbum tiver vencido o prêmio, como fiz com a Billie Eilish). Além disso, esse ano foi um ano bem convencional e cheio de coisas normais acontecendo, então não é a toa que o cenário musical ficou super esquisito: o clima musical que já estava se aproximando do minimalismo lo-fi embarca completamente nessa atmosfera, criando músicas minimalistas e quase sem produção alguma, considerando que não está sendo fácil no momento grandes equipes de produção se reunirem para discutir escolhas criativas. Isso sem contar o fato de que, assim que tiver a vacina, todo mundo vai querer fazer turnê mundial, o que vai ser ótimo para quem sobreviver. Se o Jeff Lynne vier, eu vou.

Começando pelas melhores músicas no rock, uma das coisas que chama mais atenção é o fato de que nenhuma das músicas que concorre ao melhor rock do ano está em um dos álbuns que concorre a melhor álbum do rock: quatro das cinco estão em álbuns “alternativos”, que esses sim concorrem com o prêmio, o que é um péssimo sinal. Além disso, dos dez artistas ou grupos que eu vou mencionar, eu só conheço com alguma (pouca) familiaridade o Strokes. Fora eles, tudo para mim é novidade. Primeiro, as melhores músicas do ano do gênero rock.

Phoebe Bridgers – Kyoto
Começamos a lista com uma balada lo-fi simples. O vocal da Phoebe Bridgers é bom, mas o sintetismo de todos os instrumentos atrapalha mais do que ajuda. A grande coisa que chama atenção da faixa são os metais, que pontuam para criar uma atmosfera diferenciada, mas o ritmo em si é mecânico demais para entreter de alguma forma, mesmo sendo uma bateria não eletrônica. Ao final da música, até a linha do vocal acaba cansando um pouco, o que é meio infeliz considerando que a música não é das mais longas.
Classificação: Boazinha.
Chances de ganhar o Grammy: 5%

Tame Impala – Lost in Yesterday
De novo, muito focado em uma vibe mais eletrônica. Dessa vez, o chamado do eletrônico é mais sincero e direto, com um baixo eletrônico por cima de uma batida eletrônica. A voz está bem produzida, o reverb na voz ficou bem feito, encaixa bem com o estilo de vocal do Kevin Parker, que fez basicamente tudo na faixa. Acaba ficando repetitivo, se colocando fortemente no cenário de clube mais do que o de um show de rock, mais Daft Punk do que qualquer outra coisa.
Classificação: Boazinha.
Chances de ganhar o Grammy: 25%

Big Thief – Not
O ano tava quase acabando, e eu tinha certeza que a pior música do ano tinha sido “Moral of the Story” da Ashe. Quem diria que ia ser uma música que está concorrendo ao Grammy que seria, facilmente, a pior música do ano. E o problema é claramente o vocal. O vocal é tão ruim que a batida, que não é das piores, fica insuportável, porque o vocal é um falsete horroroso. Somado a isso, um solo de guitarra trevoso que não encaixa direito na música que é horrível. Deem adeus a essa banda, porque esse foi o mais mainstream que ela jamais chegará.
Classificação: Horrorosa.
Chances de ganhar o Grammy: 0%

Fiona Apple – Shameika
O jeito que ela tem de fazer algo caótico sem perder as rédeas da criatividade é inovador, para dizer o mínimo. Por um lado, realmente parece que ela jogou um monte de coisa na parede e gostou do que ficou pra trás: um retrato Rorscach de uma música. Por outro, certo, o piano é frenético, mas o vocal é bonito, com influências de soul e jazz dos meio do século passado, e que talvez funcione melhor no contexto do álbum como um todo, que eu ainda não ouvi. Conclusão: parece algo que o Iggy Pop faria com a Amy Winehouse.
Classificação: Boazinha.
Chances de ganhar o Grammy: 50%

Brittany Howard – Stay High
Completamos o ciclo com mais uma faixa minimalista. Com certeza é um throwback aos anos 80, mas com uma bateria sincopada e um baixo simples. A voz dela funciona muito bem, ainda mais quando em harmonia com os backvocals, mas falta substância. Nesse tipo de música, não é legal ter momentos desconfortáveis de silêncio, e não tem momentos de silêncio absoluto, mas tem locais que deveriam ter sido preenchidos dentre as camadas da música. Falta sustentação em alguns momentos.
Classificação: Boa.
Chances de ganhar o Grammy: 20%

Conclusão:
A coisa mais óbvia é que mal teve rock. Claramente o zeitgeist da época é de minimalismo, experimentalismo e música alternativa, o que por si só está longe de ser ruim, mas não combina com rock, que é bombástico por natureza. Mesmo o punk e o grunge, que poderiam ser gêneros mais evidentes, não aparecem como melhor faixa de rock, em um cenário de alternativos. As músicas não são ruins (exceto a horrorosa, que por ironia do destino, é a mais rock das cinco), mas sinto que falta alguma pessoa para trazer o rock n roll de volta as raízes, e eu não vejo isso acontecendo nem tão cedo. Inclusive, acho que agora seria um bom momento para o rock progressivo voltar para o mainstream, sendo completamente avesso ao gênero popular do momento.

Vamos agora falar dos melhores álbuns:

Fontaines D.C. – A Hero’s Death
Volta e meia surge esses álbuns que são um pretexto para o vocalista apenas falar coisas: muita gente critica o Jethro Tull por ter essa vibe, mas eu acho isso mais uma coisa de conjuntos como The Doors e The Smiths. Esse álbum é claramente um pesadelo pós-punk para um vocalista expor suas pseudo-realidades para o mundo. Se as bases fossem boas, teria espaço para a música ser boa, mas do jeito que é, o álbum só chama atenção pela poesia por cima das músicas, e se você não se importa muito com isso, como eu, esse álbum não tem nada que chama a atenção.
Classificação: Ruim
Chances de ganhar o Grammy: 5%

Michael Kiwanuka – KIWANUKA
Como um álbum de soul ou de R&B, esse álbum vai longe. O vocal do Kiwanuka tem tanto soul quanto os melhores da década de 60, e existem faixas maravilhosas nesse álbum, mesmo que ele sofra de algumas coisas meio inusitadas, como colocar as introduções as faixas como se fossem faixas separadas. As músicas são muito bem feitas, ainda mais com o teclado do Inflo que funciona muito bem, e elas funcionam bem umas em cima das outras, apresentando uma coesão na medida certa. Só pode ser considerado rock tangencialmente, mas ainda assim é um bom álbum.
Classificação: Bom
Chances de ganhar o Grammy: 35%

Grace Potter – Daylight
Essa vai ser a última vez que eu vou falar isso nesse artigo: isso não é rock. Existem elementos de rock, mas seria como chamar um hamburger do McDonalds de “carne de boi”: talvez tenha traços, mas com certeza não é isso. Assim como o do Kiwanuka, é um excelente álbum, com faixas bem feitas que lembram bastante algumas divas dos anos 70: Carly Simon vem a cabeça. O vocal dela é fenomenal, mas é um álbum de country com algumas baladas pendendo mais para o pop do qualquer outra coisa. De todos os álbuns que competem, é o melhor álbum, mas não irá agradar quem procura rock de verdade.
Classificação: Excelente
Chances de ganhar o Grammy: 15%

Sturgill Simpson – Sound & Fury
De todos os álbuns e músicas que competem no Grammy esse ano, esse é o único que eu posso dizer que cansa. Você fica exausto depois dele. Se havia falta de rock, esse astro do country (que inclusive já tem um Grammy) decide fazer um álbum de rock bem pé na porta, que não te dá tempo de respirar. Ao contrário de outros vocalistas desse ano, o foco dele é a guitarra, que funciona bem durante o disco todo. O conceito dele é o de um rádio sintonizando, o que lembra um pouco Songs for the Deaf, mas fora isso, é hard rock, e é muito bem feito. Aparentemente tem um vídeo no Netflix que acompanha essa peça, mas eu ainda não vi.
Classificação: Bom.
Chances de ganhar o Grammy: 15%

The Strokes – The New Abnormal
O Strokes demorou tanto para lançar esse álbum que acabou tropeçando no fato de que não tem consistência nenhuma. Você vai ouvir as três primeiras faixas e falar: “caramba, que disco excelente” e depois, o disco vai degringolando até o encerramento. Uma pena, porque se tivessem lançado músicas com a vibe das três primeiras, não só eu colocaria como um dos favoritos, como na minha lista de melhores álbuns do ano. E o bizarro é que o Strokes sempre foi depressivo e minimalista, então tinha tudo para conseguir lançar um álbum excelente na época que estamos, e claramente o público reagiu bem, mas ficou muito aquém do que eu esperava.
Classificação: Ruinzinho
Chances de ganhar o Grammy: 30%

Conclusão:
O único disco bom que eu classificaria como sendo de rock dos cinco é o do Sturgill Simpson, que acertou bem na mosca para fazer um disco bem interessante, mas ele é claramente inferior aos outros dois que não são rock. Isso porque existem álbuns bons de rock sendo lançados o tempo todo, e esse ano, surpreendentemente, foi bom para a música. O fato de que eu consigo fazer um top 5 álbuns do ano de rock e não incluir nenhum desses, considerando que teve gente famosa que fez álbuns incríveis esse ano (eu tinha certeza que Kansas ia estar aqui, o álbum novo do Kansas é incrível) me incomoda em um nível absurdo.

Para resenhas completas de cada álbum (antes de eu publicar elas aqui semana que vem), o link para as cinco: disconomicon.wordpress.com/tag/grammy-2020/

As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor


Compartilhar

Comentar via Facebook

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.
Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito e aberto para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.